Bumerangue

Minhas decisões e mudanças de fases na vida nunca são precisas, diretas, firmes. 

Fico nesse bumerangue, regurgitando a fase que ainda não abandonei por completo, sofrendo pelo que ainda não virou passado mas, também já não sou eu. 

Fico novinha em folha morando dentro da minha casca antiga. 

Deve ser porque acho que todas as fases são beleza: a lagarta, o casulo e a borboleta. 

Vejo um mar em minha frente, mas sofro por deixar o conforto de ser rio. 
Vejo a possibilidade de asas, mas já sinto falta de meus caminhos terrenos. 
Vejo um amor definhando e um mundo todo se abrindo a minha volta, mas meus olhos de compaixão quase me prendem nesse momento de intervalo, alimentando o vício do que fui e do que esperei do que tivesse sido uma história. 

Criando esperança no restrito, por medo do infinito?

Pra mim é sempre a dor de abandonar o peito, o útero o colo. Mesmo com o vislumbre eufórico dos passos, das danças, dos mundos. 

Fico sugando o seco, o oco, o osso, o sofrimento.

Fico com dó do que o tempo varre impiedoso, fico com dó da minha inevitável transformação. Fico com medo do novo. 

Sou uma covarde cheia de vida, desperdiçando-me, pronta e apegada. 
Que a vida me arraste e me (des)encante!

Que o mundo me lave e me transforme!