Todas as janelas fechadas

Todas as janelas fechadas, não tem ar. Todas as janelas fechadas e escondidas por cortinas, o ar não se faz notar e talvez por isso parece não me entrar da forma devida. Tonta do começo ao fim. Tantas coisas encaixotadas, guardadas, as plantas meio desanimadas. Um barulho de martelo oco de um prédio que sobe no terreno ao lado, o barulho de torneiras secas e águas enferrujadas correndo pelas paredes, abafada chega a voz do vizinho pelos poros da porta, pelos micro-vãos das janelas fechadas. Não entra vida, não entrei viva, mas tenho que sair. A engrenagem da casa continua, mais caixinhas dentro de caixinhas, a hora de abrir e fechar os olhos incontestável, o preto, o branco, o lixo separado e tudo o que não cabe ocupando o canto de um quarto bagunçado, ainda sem decoração, como eu. Como eu que entrei e quis fazer logo as malas, arrumei sacolas para doação, aliviada, como eu que acordei no meio da madrugada, no meio da piscina de bolinhas coloridas explodindo em pensamentos como novelos de lã infindáveis, eu que já não pego mais nas mãos esses nós, acordei no meio deles, dentro de mim, eu que já não estou mais aqui, voltei, como quem precisasse ver o que o tempo deu conta sozinho, se mudou as paisagens, ou como quem precisasse vir para ver que alguns corações guardam verdades mofadas mas não se transformam, trancafiam-se em si mesmos, eu que precisei vir ver com meus próprios olhos para me convencer que eu estava certa, que minha intuição, meu não, meu descaminho foi a única saída para que pelo menos uma dessas vidas recuperasse o ar. E aqui estou eu, dentro da casa, mas já não entro. Mas aqui estou eu e também as ruas, e essas sim sempre me afrouxaram o peito. Aqui estou pedalando num domingo, reencontrando as árvores que tanto foram o meu alento, olhando com surpresa os sentimentos inaugurais que já sentira mas que havia perdido a coragem de lembrar. Aqui estou respirando as folhas, as flores, o ar quente da ponte, os olhares de uma gente branca, o parque aberto que me deu conforto. Aqui estou agradecendo o verde da cidade, a língua silenciosa dos troncos, reverenciando o que valeu viver. Aqui estou eu aprendendo a não tocar mais nas limpezas alheias, a não insistir em abrir janelas em mentes fechadas, a não me acostumar com o porão que me sobra, por mais que eu saiba sozinha apreciar os parques públicos, o que se dá de graça, por mais que eu saiba me extrair vida na morte, por mais que eu saiba brincar de amolecer personas terrivelmente sérias e encurraladas, por mais que eu saiba ironizar tudo e todos, estou eu aqui lembrando que é pouco. É pouco pra mim. Que borboletas e réguas por mais que façam aulas de idiomas não falam a mesma língua. Aqui eu não estou.