A realidade está tão cheia de fatos, de telas, já não ouço as passarelas dos meus sonhos. A realidade está tão cheia de acontecimentos, de momentos, densos, de concretudes, conceitos, já não revisito mais meu baú de memórias. Às vezes me ponho a ninar os pensamentos numa viagem de ônibus (onde consigo respirar), puxo o fio de uma imaginação criada a tempos, que ficou interrompida, enterrada pelo entulho das novidades, dos gozos instantâneos, efervescentes e curtos, desses que fazem cócegas no nariz e se vão. Vou desfiando os sorrisos tidos, vou me sorrindo, lembrando dum jeito que tinha, nessa coisa minha de andar desvairadamente, amar incondicionalmente, viver como quem pinta uma tela surrealista com os próprios passos e sabe que a vida é um palco que só cabem improvisos. E vou lembrando dos meus, e vou resgatando um teatro esquecido. 
Sou antiga, do tempo em que um beijo durava uma semana, uma história se desenrolava entrelaçando dimensões do real e do imaginário. Sou do tempo dos silêncios nas madrugadas, da meditação do mundo. Sou do tempo de menos gente e, no entanto, mais gente. O dia também era feito de lembranças, o olhar pra dentro, pros cantos, pros pequenos acontecimentos. Nada era grande assim e, no entanto, eu era o maior de mim.