Alma errante

Ela sempre tinha ideias mirabolantes e planos infalíveis. Entrava em todos os convites que pareciam significar vida à flor da pele, ou um resgate do que realmente vale a pena. Queria morar numa Kombi, passa um ano meditando em silêncio, fazer música na praia, plantar num pedaço de terra, andar o mundo, escrever um livro de poemas...
Feito caracol, ela andava com seu próprio ninho nas costas, sem querer, havia se tornado mestre em destruir castelos, em abandonar redutos com energia estagnada e prisões encantadas. Por mais canseira nos pés que sentisse, sua alma selvagem não aceitava ser controlada pelo comodismo, pelos medos, pelos apegos. Ela saia andando, deixando, despindo, levando tudo o que fica em nós nos processos de decantação de sentimentos, e isso sempre cabe em alguma célula do corpo.
Tinha um coração como uma cartola mágica, de onde pessoas podiam sacar, dependendo do peso das mãos, borboletas ou elefantes. 
Ela andava pela vida se encantando e se desencantando, entrando em sonhos, rompendo realidades, quebrando a cara, rindo de si mesma, esfolando os joelhos, chorando muito e dando muita risada. Deixando pedaços de si na poeira da estrada e vendo sempre novos horizontes. Achava por aí pessoas, lugares, sentimentos que nunca foram parar em nenhum mapa do tesouro, mas deviam.
Ela tinha uma alma errante que nunca achava o bastante caber em uma única versão de si.