Poesia = movimento

Às vezes me parece que escritores se dividem entre aqueles que encontraram luz, possuem chaves das belezas da alma, quase sem vícios, sábios do amor, finos no sentir, adjetivados na tessitura de palavras. E aqueles outros que vivem o escracho, a sujeira humana, os vícios, as sarjetas... 
E aí eu penso, sou só uma humana, sem verdade nenhuma, não sou nem da sarjeta e nem do céu, também não estou em cima do muro. Estou na travessia. Escrevo aqui do purgatório onde a gente tenta passar de fase, evoluir, enfrentar os monstros antes que cresçam muito, e ao mesmo tempo a gente escorrega, chora, sangra, morre de medo. Um dia a gente espia a luz, no outro expressa a nossa pequenez. Um olho no gato e outro no peixe. 
Para mim poesia não fala de verdades, não mostra uma escolha de vida, nem sei se tenho estilo de escrita, pra mim poemas são fotografias de uma sensação, são registros de uma beleza perecível, às vezes presságios, mas nunca deuses. Ilustram onde estou e estou caminhando, ilustram meu olhar à frente, a minha vontade de voltar no tempo, ou o cenário em torno, ilustram a confusão das mortes e renascimentos. 
As paisagens mudam na minha janela e entre um piscar de olhos e outro, escrevo um poema.
Poesia que quando muito suja, procura fonte para lavar a alma e quando muito limpa, procura esquinas de carnaval para levantar poeira novamente.