Foi por ter desconfiado...

Desconfiei que a vida não era aquilo que diziam. 
Desconfiei da tristeza nos olhares sem brilho, das estafantes e cotidianas voltas em círculos cujo o eixo é próprio o umbigo. Desconfiei do meu desalento perante o excesso de nomes e significados vazios de sentidos. Desconfiei da minha culpa embutida na alma desde o julgamento de cristo. Desconfiei das caixinhas embalando felicidade. Desconfiei dos recortes que andaram dando para a vida, de todas essas ideias pré-concebidas, do que é beleza, do que é bom para o corpo e para a alma, do que é um caminho justo, do que é o amor, do que é a liberdade. 
Eu não sei por que, mas desconfiei e a desconfiança veio da pele, não do pensamento. É porque meu corpo todo é inquieto e alérgico aos rótulos e tudo que eu vestia pinicava. Desconfiei das fantasias, dos dilemas, dos dramas, dos medos, dos ditos. Mas desconfiei com cuidado, até mesmo tentei parar de desconfiar e aceitar que era tudo aquilo mesmo e estava tudo bem, mas menino, vou te dizer, quem teve infância de verdade sempre vai saber que o que move o mundo dos adultos, que os pesos, os deveres, os assuntos, é tudo uma chatice pra gente poder pertencer a um grupo e entrar numa dança doida da qual a gente nunca queria ter sido convidado. 
E nem vem me dizer que é síndrome de Peter Pan, é apenas o resultado de ter esmiuçado o meu olhar desconfiado.

Foi por ter vasculhado.
Foi por ter desconfiado.
E não ter sido apenas mais um que quis deixar isso de lado.