Diamantes em Marte

Não sei exatamente onde/quando/que atitude foi que nos rompeu e apartou.

Mas eu e minha nudez, eu e minha maleabilidade, eu e minha alma exposta quebramos o delicado e belo encantamento.

São frágeis assim os amores que estão acabando de nascer?

Era uma membrana tão fina e cintilante a ilusão que nos envolvia?

Com suas mãos desastradas, com seus beijos vigorosos, com seu cheiro embriagantemente familiar, sem eu desconfiar, sem eu querer desconfiar, sem eu saber muito da sua personalidade, eu me abria. Porque quase tudo o que importa no encontro de dois é a amplitude, é a possibilidade de espaços para voos livres. Se voamos livres, juntos, todo o resto na vida encontra caminhos, tudo o que poderíamos ser fora dos momentos de voo seria abençoado pela energia que geramos. Todas as diferenças são acalentadas se nossos corpos sabem se dissolver em energia pulsante. O que somos em essência num momento íntimo nos significa no mundo. Se você voa comigo, eu te reconheço sem razão, seguramente somos então.

Se você sabe se soltar em voo em mim, você tem coragem de amar e amar é nudez. É um encontro de olhos e corpos que extrapola nomes.

Mas seus olhos seguravam num galhinho de razão, você quase quis que eu te conduzisse, mas depois disse não. Suas falas lúcidas queriam encontrar em mim a performance. Eu me dissolvendo e você me enlaçando, eu me transcendendo e você me acordando, eu viajando e você agarrando meus pés de volta. Eu nos polos e você no poder. Éramos como cobra e nuvem. Você é um diamante mas eu estou em Marte. Você sabe tudo, mas aqui não existe comunicação lógica. É um circuito que a gente é junto ou não é.

Beijava-me as mãos, o pescoço, os lábios, mas então, sem humanizar-se? Era apenas uma casca que me percorria? Intacta. Sem mergulho. Mantinha um lado duro, incorrupto, vigilante. Assim se assegurava de que poderia voltar a qualquer momento, poderia sair, poderia se afastar, sem dor. Ah, a garantia de uma vida sem dor! Você que já conquistou essa grandeza! Saía com a mesma facilidade com que deixava um avião que não decolou. Cético. Chateado apenas porque perdeu tempo. Mas como um avião decola sem perder o chão? Você quer voar no chão. Você não quer voar. Você quer ficar em si mesmo. Nessa sua versão de si mesmo que às vezes dói, às vezes quer mais luz, mas que você já conhece e sabe manipular tão bem, tanto que se usa para manipular também o universo em volta.

Meus voos racharam a sua manipulação. Uma fenda. As suas manipulações me resgataram do êxtase. Uma queda.

Você apenas se desfez de uma viagem que não ia mesmo, que o destruiria, que aniquilaria todo o seu universo de valor até aqui. Voar pra você é náusea, é loucura, é perigo. Eu tinha que ir, sair rápido dali, se você me olhasse muito iria encontrar o seu desconhecido camuflado. Mesmo eu me calando, meu corpo fala, a dança tira o véu da cegueira.

Se você me beijasse mais, abria o seu portal. Se me olhasse nos olhos, iria se desfazer enquanto pessoa. E isso é uma humilhação. Melhor não.

A queda é minha, meu amor. Queda, no entanto, doce. De quem sabe que vai voar de novo. Sozinha ou não.