Sobre o Romance Castelos Tropicais, de Clara Baccarin

Uma abordagem de Eliéser Baco

No artigo “A personagem do Romance”, Antonio Candido, magistralmente nos demonstra que “a personagem é um ser fictício, -  expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão de mais lídima verdade existencial. Podemos, dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste.”

É um bela forma de começar essa conversa sobre esse saboroso livro, lançado em março deste ano pela Chiado Editora. Escrito em primeira pessoa, nos dá no primeiro capítulo a nuance necessária para sabermos por onde navegaremos junto da narradora-protagonista, Ana Maia, uma mulher de partida. Inicia com sintomas de desajuste e com a ideia que irá nos nortear bastante: “Eu não tenho planos e não acredito em destino, o que sobra no meu universo de sentido”?

Aperto. Fuga. Espaço em branco. Como não saber o que essas palavras evidenciam no contexto próprio? De nós mesmos no cotidiano?! O aperto ao peito em um momento de desconforto com a existência e a forma de vida útil ou inútil, nos cerca, e bem de perto muitas vezes na retomada de cada dia.  A personagem, com a mesma verossimilhança apresentada por Candido, continua sua primeira aparição ao leitor: “E eu apenas conheço duas formas de libertação: o amor e a estrada.” O desajuste momentâneo da personagem mostra o excesso de roupagem que o modo de vida em nossa sociedade nos traz, já que o enredo se demonstra contemporâneo à nossa atualidade. Ela demonstra necessidade de se desfazer, de se renovar, se despir para mergulhar em algo diferente. O terceiro capítulo, nomeado “Claustrofobia”, continua a nos mostrar belas imagens textuais a respeito da sociedade contemporânea e de seu sentir diante do que é o existir, atualmente. Ana Maia, então, em seus sintomas de claustrofobia existencial e não de espaço meramente físico, mostra um sentir-se dentro de vários quadrados, que envolvidos são por outros. Como se máscaras alheias, ou escudos, escondessem ou tentassem modificar seu olhar próprio, sua identidade. E isso tange a questão da personalidade, da necessidade de se despir e entrar no mar. “Só acho que nesse excesso de enquadramento as coisas vão perdendo o sentido, já não me reconheço faz tempo e também não sou verdadeiramente reconhecida pelas pessoas.”

Singelamente, com talento literário e um olhar agudo na (in)sensibilidade dos dias atuais,  Clara Baccarin, capítulo a capítulo segue a conquistar espaço dentro de nós, fazendo com que cada conjunto textual seja um descortinar a respeito da protagonista, seus anseios, seus interesses amorosos e seus desdobramentos em belas frases e libertadoras atitudes. Vejamos: “Acho que mesmo apagando os rabiscos do passado, o papel nunca voltará a ser virgem.” Essa capacidade de mergulho da protagonista no próprio mundo, pela qualidade textual empreendida, fora a poeticidade conquistada na leitura, faz com que queiramos saber se Ana Maia irá conseguir se fazer como quem realmente é. Este ponto faz do livro um encantamento e, conversa com a filosofia e com teorias a respeito do peso do pós-modernismo nos cidadãos de qualquer continente.  Vejamos o recorte do livro Filosofia Prática, de Marcia Tiburi: “O diálogo, enquanto prática linguística dirigida ao outro e com ele entrelaçada, diz respeito à capacidade de ultrapassar o estado de esvaziamento ao qual estamos condenados por uma sociedade em que pensar filosoficamente não é algo que se valorize. O convite diário é à irreflexão que nada muda.”

Pois, que, com lirismo nada frágil ou superficial, Castelos Tropicais, nos quer refletindo em Ana Maia, espelhados em seu olhar perante o mundo e em suas atitudes por ela própria. Dialoga não somente com os dessabores dela e seus detalhes poéticos, conversa, nos pormenores, naquele pensamento íntimo de nós leitores ao final de frase ou capítulo. A boa escrita da obra faz com que queiramos saborear o mesmo beijo dado por Ana Maia em sua liberdade, seu aprendizado nas cidades que visita e nos possíveis amores que em alguns momentos encontra. Seu mundo, talvez fragmentado no início, passa por vários ciclos, por vários ventos, e equilibrar-se no vento poético deste livro é novamente respirarmos algo bom na literatura brasileira atual. 

São Paulo, Salvador, Budapeste? Ana Maia, personagem, pode nos levar por onde for.