As intrínsecas melodias de Ana Maia na trilha poética de Castelos Tropicais

(Uma análise de Samara Porto)

Ao ler o romance Castelos Tropicais, de Clara Baccarin, fui percebendo, ao longo da jornada, que Ana Maia não é simplesmente, uma narradora-protagonista: é muitas vezes, cada um de nós, em várias fases da vida. Esta identificação permanece até o final do livro.  

Na sua alergia existencial, não somente a pele, mas todos os sentidos clamavam pela nudez, de uma transformação real, que a demolisse e, depois, reintegrasse todas as suas partes ao cenário de sua existência.

“Tentei criar escolhas, tentei viver o que deveria ter vivido. Vasculhei o baú de fantasias, me animei com algumas combinações coloridas e inusitadas, experimentei tantas texturas. Todas elas pinicavam! Era essa minha antiga alergia existencial: minha pele repelindo e clamando pela nudez.”

Ela precisava se desvencilhar de uma estrutura social pasteurizada e seus papéis convencionais, porque não fazia parte deles. Seu corpo clamava por partida e sua alma por verdade. Na narrativa intimista, entre as frases impactantes e as reflexões da personagem, ouvia Ana Maia cantarolar, baixinho Coração Vazio, como se a canção embalasse os capítulos iniciais de sua história:

 Tudo tem o seu lugar
Tudo tem a sua hora
E eu cansei de esperar
A minha hora é agora
Com os olhos na estrada
Eu sigo em frente e não desvio
Só eu e meu coração vazio.

Ana Maia no início da jornada – Coração Vazio/Capital Inicial

https://www.youtube.com/watch?v=ro41tdnfrEc

A narrativa revela sua trilha e a canção, vibra seus acordes sincronizados ao respirar da personagem:

“Precisava respirar algo que fosse eu. Precisava olhar ao redor sem o filtro dos parâmetros, sem as delimitações do contexto. Precisava fazer da vida uma apresentação de improviso, para ver o que surge nos meus passos e na minha boca quando não existe um texto a ser seguido.” 

E, novamente, texto e canção se encontram:

São as falhas da razão
São os erros do perdão
Que tenho medo de perder
Enquanto não me encontrar
O mesmo rosto, o mesmo tempo
Quando eu choro e quando eu rio
Só eu e meu coração vazio.

Ana Maia revela seu desconforto diário em trabalhar onde não queria estar, com pessoas sem afinidade, projetando afeições, acostumando a envenenar-se de insatisfações, para sobreviver e sustentar ilusões e planos melancólicos, em que não acreditava. E não se adaptava mais aos contextos padronizados, que cobram sucesso e alegria ilusórios: ela tinha o coração vazio.

“Eu gravei um repertório de comportamentos aceitáveis para substituir o ritmo do meu coração.”

Na exaustão de uma vida monótona e inexpressiva, ao mesmo tempo, descobria-se livre para se reconstituir:

“E eu apenas conheço duas formas de libertação: o amor e a estrada.”

No segundo momento do livro, onde empreende sua primeira viagem, a narradora assume seus auto-enganos, covardias e começa a se liberar, pela aceitação do próprio caos, que precede sua reorganização.  Ana não suportava mais fingir que se encontrou. Ela precisava se perder do automatismo e das regras, para encontrar a própria individualidade, com todas as suas nuances.

 Ana Maia e Bernardo – Resposta ao Tempo/Nana Caymmi

https://www.youtube.com/watch?v=sxWUKHnzB3g

Na solidão, agora, consciente e necessária, Ana Maia passa a se desidentificar dos elementos externos que a cercam, para chegar a si mesma e seus próprios anseios. Assim ela chega até a Bahia e a Bernardo:

“Acho que ele flutuava na vida. E eu que nadava contra a maré, cruzei no meio do caminho.” Ele tinha a paz do não pensar, não buscar e mesmo assim encontrar (a paz, a felicidade, o amor...). Tudo parecia pousar na sua mão sem ele chamar, sem esforço, sem espera, sem ele saber o que fazer daquilo...”

Ana precisava vivenciar sua humanidade, uma liberdade atávica e a profundidade de uma alma poética:

“...porque ser poeta não é uma profissão ou apenas um dom artístico, ser poeta é uma condição humana. Quem é poeta não tem dias de folga, não se assume apenas quando está sentado em frente às letras. Quem é poeta o é em tempo integral, de nascença, mesmo que nunca assuma.” “É...consciência é uma condição de liberdade e, simultaneamente, de aprisionamento.”

E assim, a canção Resposta ao Tempo, entoa seus acordes suaves, e parece acalentar e unir os aromas, sabores, sincretismos da Bahia à sua paixão por Bernardo. Paixão que aprisiona e liberta, num terreiro de sensações, alimentando a alma sensível e poética da protagonista. 

 Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver

Depois de uma paixão que dourava de fora para dentro, a partida de Bernardo mareava. E ela aprende uma importante lição com Dona Odália: a não perder sua ligação com o momento presente. E a receita de um canto para trazê-la de volta:

“Nhem-nhem-nhem

Nhem-nhem-nhem ô xorodô

É o mar, é o mar

Fé-fé-xorodô

Segundo a própria Ana, as viagens curtas são redentores e do seu reencontro com Bernardo, sua entrega a momentos de afeto e suavidade onírica, novamente se viu só, isolada. Bernardo é uma brisa de verão, cujo outono dissipava. Ana Maia é uma forte monção, descobrindo seu poder de derrubar obstáculos e ultrapassar continentes.

Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri 
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei.

No seu último dia com Bernardo, Ana Maia relembra sua infância e tentativa desajeitada de reproduzir comportamentos, que não eram seus:

“Eu era a pior das bailarinas. Copiar era artificial, como é que seria a minha própria dança? Acho que ficou essa falha no meu desenvolvimento pessoal: não captei desde cedo a mensagem de que eu deveria ter decorado modos de ser no mundo. Pela imitação eu era dura e pela liberdade de ser eu não sabia quem era.”

Era o momento da narradora deitar fora todas as máscaras e assumir, que não conseguira representar, de forma convincente, seus papéis e aceitar o seu não ser diante de si e do mundo.

No seu último diálogo com Bernardo, deixa claro que não se contentava mais com relações superficiais e que o amor próprio precederia o amor pelo outro:

“Quando a gente aprende a ser sozinha, sozinha de verdade, mantendo o amor próprio, não é qualquer um que chega ocupando espaços. Quando já se teve o nada, só se aceita o tudo em troca.”

Ana Maia aprendeu a viver um amor sem culpas, cobranças e cumplicidades. Somente o que o momento oferecia sem garantias, juras ou profundidade, mas intenso, como sua vontade de viver. E o momento de ventar para outro continente chega...

Este último momento do livro é o mais intenso e recheado de instigantes metáforas e profundas reflexões existenciais. Ana Maia chega a seu novo e enigmático destino, Budapeste, com um objetivo claro:

“Atirar-me à vida com fragilidade e voracidade.

   Como quem renasce e por isso tem fome.”

Neste cenário-esfinge, onde as memórias afetivas brotam como uma nova canção, ela dialoga com suas emoções, sensações e abre espaço para emancipar a menor boneca russa: que não faz planos e esvazia-se de suas identidades para o mundo, desprende-se de si mesma, na busca de sua paz e serenidade:

Ana Maia e Gabor – Quando Fui Chuva/Maria Gadu

https://www.youtube.com/watch?v=IwDazs5ScCA

 Quando já não tinha espaço pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança os meus traços de chuva
E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser sua

 Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranqüila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

O capítulo Nossa Tribo mostra um delicioso humor lírico, entorno do difícil aprendizado da língua e cultura húngara. Um novo e divertido dialeto se criava, num cotidiano lúdico, de novas vivências, entre Ana Maia e Gabor. Ambos, repletos de sensibilidades e arte.

“Ninguém quis me dizer, mas fui percebendo que essas palavras são bárbaras, não dão coro pra gente passar a mão. É requerido trabalho de domador, tem que se aproximar devagar, humildemente, um dia você toca numa sílaba, em outro você segura com as duas mãos uma palavra inteira!”

Ana Maia escritora se descortina com graça neste parágrafo:

“Já a linguagem da fantasia tem o poder de brincar com as palavras como massinha de modelar. Gabor amassava as palavras brasileiras e surgia uma arte abstrata ou um bicho pré-histórico...”

E mais uma vez, a canção percorre os caminhos da protagonista, se interseccionando à narrativa, fluindo com os acontecimentos, numa das mais belas metáforas do livro:

 “Já cumpri tantos fatos, percorri diferentes veredas, no meu microcosmo desempenhei o que o universo parecia esperar de mim. Testei algumas mulheres na minha pele. uma de cada vez, procurando aquela que se sentisse mais à vontade...

Testei a neve e o fundo do oceano. Às pressas, cumpri as idéias rotuladas para...? Para aposentar-me de mim mesma? Ofegante, completei a maratona de ter a chance de voltar e trilhar do início o que eu sempre quis.”

 Nada do que eu fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra a tua boca

E mesmo que em ti me perca
Nunca mais serei aquela
Que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela

No seu sagrado silêncio, a protagonista se permite viver, com todas as suas vozes interiores, em favor de um precioso encontro consigo mesma:

 “Mas é o risco que escolhi correr, um risco que não sei o que é. E minha coragem é delicada, não rasgo minha roupas perfeitas, devagar vou tirando uma peça de cada vez. Vou me descobrindo aos poucos.”

Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

Segundo Nietzsche, é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela cintilante. E assim, Ana Maia encarou seus desenganos, pesadelos, medos e se lançou no universo de outro continente, para descobrir e emitir sua própria luz. Ela ousou experimentar Ricardo Reis na pele, porque também se multiplicou para se sentir e encontrar o seu melhor, sua liberdade de ser e amar, tal qual como é:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Do ponto zero, nossa carismática e humana narradora se desvencilha de todas as impressões que acumulara, numa vida comum. Desacelera, desapega, desnuda, desintegra o que não lhe constitui essência da leveza. Agora sua busca é pelo que nutre, alegra e integra corpo e sentimentos, na sua pele de escritora e mulher, no seu próprio compasso. E ao lado de Gabor pode experimentar, finalmente a liberdade do amor: 

E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver

 Samara Porto -  30/08/15

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