Não deu tempo de lavar os cabelos

Não deu tempo de lavar os cabelos. Jogou tudo na bolsa, desceu o elevador. ‘Que lugar é esse? que bairro é esse? como sair daqui? Pego um taxi, não importa. Não passa um taxi por aqui! Bairro de rico, mansões, tem até árvores nas ruas, rico não pega taxi?’ Tira o salto, vai descalça mesmo, o sol escaldante do meio dia e ela derretendo e suspirando, rindo alto, tapando a própria boca, transpirando cheiros de álcool, cigarros e sexos, olhando para os lados, sem saber pra onde seguir, olha para os quarteirões, e vê lábios e mãos e língua de norte a sul, leste a oeste, acorda com carros repentinamente buzinando no quase ato de atropelamento e ela ri e ouve frases soltas, frescas e densas, fazendo cócegas nas suas orelhas ‘Olha pra mim, abre os olhos!’ E dá uma gargalhada.

Não deu tempo de lavar os cabelos, eles estão colados e impregnados de tantos cheiros, ela os fareja profundamente, como quem ainda brinca com o que se armou tantas vezes em sua boca. Vê um ônibus, ‘pra onde ele vai?’ Não diz. Corre, dá sinal, cai de joelhos, entra no ônibus, não pergunta nada, se esquece, olha o motorista, morde o lábio inferior e diz oi com tesão. ‘Será que ele nota que estou sem calcinha?’ Senta sozinha, desleixada, olha da janela e sente a vagina contrair algumas vezes só de lembrar que tudo começou pelas mãos, a boca dele se atrevendo nos dedos dela e ela que só pretendia encontra-lo por educação, para conversar sobre trabalho, e ela que havia estabelecido as regras e acreditado e sem sentir atração, disse a ele que estava fechada para balanço. E ele respeitou. E ele dormiu no sofá e cedeu a cama a ela e ela acordou já de manhã e foi chama-lo para deitar em sua cama e desentortar o corpo dessa noite mal dormida, ao tocar nos ombros dele tomou um choque, literalmente. Como um arrepio lhe subindo pelo braço. Ele não acordou imediatamente, sonolento demorou os lábios na palma da mão dela, e ela sentiu o útero. Como se com um toque ele soubesse gerar pequenas faíscas com pretensões de fogos de artifícios. E ele ainda de olhos fechados, deitou a cabeça no colo dela e tragou profundamente o cheio do sexo dela e ela pôs as mãos no rosto dele, nos cabelos, nas costas, por dentro da camiseta e as mãos voltaram aos lábios. Um calafrio lhe percorre, solta um gemido no ônibus e tapa a boca e fecha as pernas e da janela ela vê seres nus e abertos, vê seus seios sendo divindades, e vê seus desertos sendo explorados, suas areias tornando-se oceanos. E vê o homem percorrendo sem pressa, assoprando velas de cem anos, fazendo viagens longas e desvendando pontos onde se escondem os vagalumes como se ele já conhecesse nela a mulher que ela não mais lembrava. E ela celebra a constelação de pintas no peito dele, pintas de encaixar beijos. Naquele quarto onde tudo se enrijecia para então derreter. Ela se prende nas visões da janela, o ônibus flutua, deve estar indo rumo ao paraíso, cada lombada é um looping de desativar minúsculas formiguinhas correndo bêbadas em sua pele.

Ela se esquece de avisar o chefe que hoje é dia de enxaqueca, se esquece de ver o celular, de responder as mensagens preocupadas da amiga no whatsapp, ela se esquece de franzir a testa e acompanhar o pesado desenrolar do futuro. O ônibus flutua e o mundo são só bolas de sorvete de baunilha derretendo.