Desabarrote

Faz tempo que algumas vontades me passam desviadas, não me atravessam. Tenho arrepio só de pensar em comprar móveis, roupa de cama, roupas sem significado, sapatos de salto, sapatilhas coloridas, sandálias, utensílios, porta-retratos, penduricalhos, bijuterias, lingeries, calcinha fio dental, calcinha de renda, calcinha que não marca na calça branca, calcinha que marca na calça branca, sutiã com bojo, sutiã para passar o réveillon, sutiã com colinha sem alça nenhuma para usar com blusa branca tomara-que-caia de costas de fora. Tenho arrepio de comprar meias, polainas, meias curtas para ficar escondidas no tênis cor de laranja usado na academia, meia branca longa para usar com o tênis cinza de fazer aula de spinning, tênis para fazer trilha com o namorado desencanado que chamou pra acampar na barraca king size suíte presidencial revestida com material naval e salva vidas acoplado, tenho horror a colan colorido combinando com brincos de argola iguais aos da protagonista da penúltima novela, e também horror aos mini brincos discretos que querem esconder minha personalidade exuberante. Os bibelôs me arrepiam, os objetozinhos brilhantes, coloridos, kitsch, que se exibem nas vitrines, nas caixas, nos esnobes manequins das lojas e te tacham de loser se você não se encanta por seus apetrechos e não os leva para casa, essas coisinhas exibidas que são bolas de natal disfarçadas e que te tornarão a rainha da sucata. Esse monte de entulhos que causa tropeços, dá trabalho, ativa espirros, polui a vista, o ar, atrapalha o percurso do vento e da luz, se impõe, ou então aperta o corpo, os pés, os pensamentos e as vontades inatas.

Por que querer os sintéticos, as estampas desnecessárias, se o algodãozinho cru me deixa ser mais eu? E o chinelo, o chinelinho simples, do tipo mais fácil de ser disparado para o alto. E a casa um pouco mais habitável por pessoas e bichos e luzes de fora. E as pareces mais sedentas de imaginação, as janelas mais floridas. A geladeira e os estômagos mais bem alimentados e vazios. A música enchendo mais os espaços que se deixam existir por uma sobra de tempo que começou a aparecer depois que perdeu-se a necessidade de doar-se aos penduricalhos.

A vontade de comprar entulhos me passa refletida. Pra que tantas bolsas, caixas, papelamas? Nada disso vai ser tocado mais do que duas vezes na vida! Leu um livro, dê de presente. Ganhou uma roupa, desfaça-se de outra. Chegaram cartas, se forem pra infernizar, rasgue-as e mande para (o inferno) reciclagem! Tem legumes criando asas na geladeira? Faça um belo ratatouille! Desabarrote a casa e a alma!