De útero em útero

Desde que fora arrancada com fórceps duas semanas atrasada do refúgio acalentador de onde gostaria nunca ter saído e, traumaticamente atirada numa madrugada fria sem seio morno de mãe – pois esta morrera de eclampsia ao dar à luz – Olívia vivia numa tentativa incessante de regressar às suas origens de semente.

Foi uma bebezinha gorda e superprotegida pela avó. Até um ano de idade, passava a maior parte de seus dias deitada no berço em forma de cesto, que abrigava travesseiros fofos e mantas de tricô, o mesmo berço que fora de sua mãe. Ali Olívia ficava flácida, acolhida e em paz.

Atrasou-se ou esquivou-se de cada estreia da vida: foi já bem grandinha aprender a andar, custou a largar a chupeta e a mamadeira, demorou-se na infância com medo do que poderia representar o sentimento de liberdade e independência da adolescência.

Ainda menina, preferia brincar com os ursos de pelúcia do que com as bonecas. Colecionava ursos grandes, almofadados e peludos, gostava de fazer círculos de ursos e sentar no meio, ou então enterrar-se neles até quase desaparecer.

Olívia foi uma adolescente gordinha e sem vaidade. Comia doces, usava vestidos largos e o mesmo corte de cabelo de antes. Assim não teve que enfrentar as competições com as outras garotas, não teve que ser notada pelos garotos, não teve que se apaixonar! Pôde ficar quieta e confortável, preservando a infância em suas bochechas redondas, esperando que essa fase termasse de uma vez.

Também não teve o ímpeto de provar as ambições e sabores egocêntricos e aventureiros do início da vida adulta.

Continuou morando na casa de decoração antiga da avó mesmo depois que ela morreu. Manteve a rotina que tinha com ela: usava as mesmas pantufas amarelas, o hobby de pelúcia cor-de-rosa, ligava a TV no café da manhã, degustando o mesmo mingau de aveia morno com uma gema de ovo, jantava a sopinha de fubá das 19 horas e dormia na cama de mogno centenária da velhinha.

Não quis seguir estudando depois do suspiro de alívio de terminar o ensino médio ilesa, mas encontrou um emprego que gostava muito: fazer roscas doces e pães na padaria do bairro. Seus pãezinhos eram densos e macios, branquinhos. A cozinha da padaria era uma caixa sempre morna e cheirosa.

Olívia se sentia bem em não ver as caras que compravam seus pães, gostava de passar os dias sozinha, quieta, fechada na cozinha.

Adulta, ela não mais parecia uma criança ou mais nova do que realmente era. Ao contrário, agora ela parecia uma velha. O cabelo ralo e curto, a papada escondendo o queixo, os olhinhos miúdos, as pernas inchadas e os ombros caídos haviam feito ela saltar diretamente da infância para a velhice.

É que, na verdade, Olívia tinha um sonho morando escondidinho em seu silêncio. Um único e singelo sonho.

Ela ensejava o dia que iria se deitar em seu túmulo.

E ela também tinha um pequeno orgulho, que pelo menos uma vez por dia fazia estampar em seu rosto um sorrisinho tímido. É que ela havia conseguido, através de prestações mensais a perder de vista, comprar um grande e belo túmulo no espaço mais florido do cemitério.

Orgulhava-se acima de tudo de ter conseguido colocar nesse recanto, os corpos das suas duas mãezinhas e, estrategicamente, ter reservado seu espaço entre elas.

Passava os dias mergulhada nos pensamentos incessantes do dia em que finalmente iria poder voltar a ser semente.