As impossibilidades de infinito

As Impossibilidades de Infinito

Havia um zoológico na cidade e a fila para comprar o bilhete de entrada era longa, uma fila que era inexistente nos museus da mesma cidade.

Tantas crianças, tantas famílias, tanta gente.

A mãe, o pai e seus três filhos pequenos no dia de domingo no zoológico. Desde que a mulher tivera a última criança era difícil sair de casa, arrumar todo mundo e a si mesma, controlar tudo, pensar na bolsa, nos detalhes, na mudança de tempo…. Mas eles haviam planejado, dia 14 de novembro iriam ao zoológico. Este era o dia! Enfrentaram a fila, entraram, o dia estava nublado e ventando, o lugar era imenso, tinha placas indicando as regiões do planeta: África, Austrália, América do Sul. Seguiram pela África, provavelmente era mais emocionante. No enorme zoológico havia duas montanhas artificiais, feitas de concreto, o pai olhava para as estruturas, para os ambientes climatizados, para os mapas colocados no meio do caminho, se preocupava em entender o trabalho do arquiteto, do engenheiro, os valores monstruosos da obra. O filho mais velho era o mais animado, há algumas semanas a mãe vinha lhe dizendo ‘olha filho, se você comer esse prato todo de macarrão nós vamos ao zoológico! Sabe o que tem no zoológico? Tem girafa, canguru, cobra!! E ossos de dinossauros!’. O menino arregalava os olhos negros e engolia três colheres sem mastigar, pensando ‘ossos de dinossauros!’.  Ele passou a comer espinafre, brócolis, beterraba… Tudo tinha gosto de ossos de dinossauros. A menina do meio também já estava familiarizada com a palavra zoológico, na casa deles havia um lindo livro ilustrado com as diferentes espécies do planeta. Ela apreciava as cores, mas logo se cansava e ia brincar com o gatinho de estimação. A mãe dizia ‘Filha, domingo vamos ao zoológico!’ e a menina ouvia com olhos atentos. E a mãe continuava ‘Sabe o que é o zoológico? É onde vivem animais do muuuuuundo inteiro! E nós vamos visita-los.’ A menina imaginava gatos, peixes e tartarugas brincando num jardim. Havia ainda o filho mais novo, um bebê de apenas um ano. O que ele imaginava e se sabia que iriam ao zoológico e o que isso representava eu não sei, só sei que ele se entendia bem com os animais. Puxava o rabo do gato branco, engatinhava apressado atrás dele, ambos se escondiam embaixo do berço, no escuro do quarto, o bebê olhava os olhos amarelos do gato e entendia os mistérios do mundo. Também já conhecia a textura do casco da tartaruga, e entendia que as patas e a cabeça dela eram massinhas de modelar que se mexiam e se guardavam quando tocadas com o dedinho. Já sabia gostar de brincar de esconde-esconde, e já sabia dar risada quando a tartaruga se escondia dentro de si mesma. Outro bicho que também conhecia era o peixe, um peixe azul e vermelho solitário no aquário. O bebê não sabia que peixe também era bicho, ele se entretinha com o aquário assim como se entretinha com os desenhos animados na TV. Para ele, ambos, TV e aquário, eram caixas que guardavam pequenos brinquedos que ele nunca pôde pegar na mão. Mas as cores faziam seus pequenos olhos vibrarem de encantamento.  Para a jovem mãe, o evento tinha um pouco o mesmo significado que para o filho mais velhos, ela iria ter algum contato com diferentes mundos! Talvez se assustasse com os leões, se divertisse com os macacos, se encantasse com as focas. Ela queria ver e mostrar aos filhos as belezas misteriosas do mundo.

Já nos caminhos da África do domingo, a família encontrou primeiro os rinocerontes. Dois enormes animais compartilhando um pequeno lago com água pela metade. Eles estavam imersos até onde a água os podia cobrir. Sobravam olhos e orelhas para fora, e os olhos diziam muito, e expressavam o nada. O filho mais velho, movido pela primeira empolgação de contato com os animais, pulava sacodindo os braços para chamar a atenção deles. Um dos rinocerontes ergueu a sobrancelha e moveu um olho desinteressado e triste para o menino. Ele não entendeu. Depois de alguns outros animais: a mãe elefante e o filhote andando em tediosos círculos, os gordos leões bocejando a siesta, as zebras pastando nos montes de feno, os macacos de bunda rosa dormindo embolados nas curvas da montanha de concreto. O menino finalmente encontrou um osso de dinossauro! Nesse zoológico não haviam muitas partes do bicho pré-histórico, era apenas uma tíbia de um Antarctossauro exposta juntamente com a figura do animal. A mãe tirou uma foto do garoto ao lado do gigantesco osso. E ele agora tinha uma grande história para contar! Mas depois de guardar sua história na memória e de olhar sem interesse para as caixas de borboletas coloridas e besouros, bocejava como os leões. O bebezinho no carinho já estava no quinto sono, tinha sido embalado pelas pernas gordas dos entediados elefantes, ou talvez pelas penas coloridas dos pássaros do viveiro virando móbiles. A garotinha do meio, por sua vez, teve uma epifania, ficou por alguns longos minutos com o nariz encostado no bico de um tucano que por detrás da teia protetora e por ser tão manso e pelo cansado da falta de voos de liberdade, se deu o pequeno desafio de encostar e analisar bem de perto uma amostra daquela cruel massa cinza que vivia cercando suas possibilidades de infinito. A mãe, que se conservou até grande parte do percurso animada e paciente, em um momento deixou-se abater pelos excessos do dia. Foi tomada por uma nauseada compaixão por um dos gorilas. Os gorilas, presos em uma jaula sem nenhum tom de verde, tinham olhos e mãos tão humanos que a faziam lembrar dos de seu marido. E ela sentiu no âmago do estômago o peso de ser mãe-humana.

Foi o suficiente para uma existência. Agora ela espera do fundo do coração que ao mostrar as pinturas pós-impressionistas do museu de arte contemporânea da cidade, convença seus filhos a comerem brócolis, espinafre e beterrabas.