Um minuto de silêncio

Cansada de caçar diamantes nesse mangue de lama densa e mal cheirosa.
Cansada de fazer disso o único motivo da vida, a única razão, a única busca.
Cansada de saber que se não fosse essa a razão, qual razão outra eu teria?
Não haveria, não haveria.
Se não fosse esse viver tentando encontrar esse pontinho de luz nos olhares e escassas vezes encontrando depois de tanta busca. Se não fosse esse viver de garimpar palavras e pessoas e sentimentos... eu já não seria.
Cansada de em um minuto sentir a alegria de encontrar um diamante e no minuto seguinte o desanimo de vê-lo se esfarelar nos meus dentes. Era falso.
Cansada de conviver pacificamente com outras espécies, outras tribos, de dar as mãos com descrença, de calar e assim firmar acordos. Para quê?

Nessa lama que já não adianta, que fica cada vez mais pobre, que já é causa perdida. Esses meus gritos contidos, que não se libertam por saber que o céu é mais prisão do que a gaiola do peito. O ânimo sendo engolido por esses meus olhos seculares que já não se espantam, não se surpreendem, não renascem. Os gritos todos, todos os ideais se diluem no meu enorme silenciar. Um silêncio de um velho artesão preso em seu ofício antigo, que caiu em desuso, mas que continua fiando por ter na memória ecos de um tempo remoto, imaginário, em que as crianças sorriam alto. E o mundo é um filho que mais trás desgostos, em todos esses olhares dissimulados que dizem tudo menos a verdade.

Façamos um minuto de silêncio por todas as cegueiras que se disseminam nesse gene transgênico, sujo, inumano, que está incorporado nas nossas almas desde... não sei quando. Façamos um minuto de silêncio para todas as almas mortas dentro desses nossos corpos inflados. Façamos um minuto de silêncio para cada um de nós, fiquemos mudos por vinte gerações para cumprir o ato honroso de silenciar por aquilo que por estar morto já não grita.