Ah, se adiantasse viver a dor do outro...

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Ah, se adiantasse viver a dor do outro...

Se adiantasse gastar tanta da nossa energia vital para entender, para sentir, para tentar acalentar outro coração. Ah, se adiantasse a gente se transportar para outra pele e tentar fazer mudanças naquela alma e, por vezes até, entregar a própria vida tentando salvar outra...

 Acho que existe uma linha tênue entre ser empático, amigo, afetuoso.... e se deixar confundir com o que dói na outra pessoa, a ponto até de, sem perceber, virarmos a razão, a causa daquela angústia.

 Sim, porque se a gente chega muito perto de alguém se afogando e estamos desprevenidos, a gente se afoga junto. Ou a gente vira o motivo do que puxa pra baixo.

 É que por mais que a gente ame e queira o bem, por mais que a gente ame e queira retirar os pesos, as dificuldades, os sofrimentos... a gente nunca pode vestir os sapatos alheios, assumir outro corpo, carregar no colo uma outra história de vida.

 A gente pode sim dar a mão, ouvir, estar por perto... até o ponto em que ajudamos, mas ainda estamos fortes e íntegros; até o ponto em que ouvimos, mas ainda não somos atingidos diretamente; até o ponto em que compreendemos, mas não deixamos de cuidar de nós mesmos e da nossa própria vida.

 Até o ponto em que não deixamos de seguir o nosso próprio caminho para adentrar a missão de salvar outra existência.

 Cada um tem o seu próprio roteiro, o seu aprendizado particular. Eu penso que a gente pode sim tentar melhorar o olhar do outro, se o nosso já aprendeu a ser mais leve. Mas eu acho que isso se dá mais pela postura com que conduzimos a nossa própria vida, com a forma de sentir que escolhemos pra gente. Acho que a gente pode mais inspirar do que ensinar com palavras e preocupações. Acho que a gente pode perceber que vibrar numa energia melhor no mundo é a melhor ajuda que podemos dar.

 Demorou para eu perceber, mas parece que compaixão demais pela dor alheia não ajuda a amenizar o sofrimento, pelo contrário, o aumenta.

 Talvez porque sentir junto agregue pensamentos e forças àquele martírio, e o torne mais real e duradouro. Talvez porque sofrendo juntos a gente emane essas vibrações para o universo.

 Pode ser que a gente pense que se carregarmos em dois aqueles momentos difíceis, vai ser mais fácil, vamos dividir os pesos. Mas nem sempre é assim, às vezes ao fazer isso estamos interferindo num processo que não é nosso e que era importante que existisse dentro do outro.

Afinal, uma dor sempre traz um aprendizado mais profundo.

Não é fácil perceber isso, e agir assim, mas tem horas que o melhor que a gente pode faze é cuidar de si mesmo, por vezes se afastar, e sair de perto das enxurradas de choros e raivas.

 Às vezes o melhor que podemos fazer é serenar o nosso próprio coração, deixar de se preocupar tanto com outros universos e ir cuidar dos canteiros do nosso quintal.

Hoje prefiro os carrosséis às montanhas russas

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Eu sempre tive medo de altura, mas quando se tratava de envolvimentos amorosos, eu era sempre a que encarava excitadíssima todos os bungee jumps.

Eu era mestre em me enfiar nos voos mais altos e nas quedas mais violentas. Entrava com coragem e coração escancarado nas empreitadas mais repentinas e malucas. Quantas barracas furadas no meio do nada eu me meti. Quantos paraquedas mal resolvidos eu me envolvi. Quantos loopings e montanhas russas gigantes eu entrei...

Tudo pelo frio na barriga?

Tudo pelo excesso de vida?

Tudo pelo vício na adrenalina? Ou pelo vício na minha habilidade de amar e ver brilho nas pessoas e querer mergulhar nas doces marés dos encantamentos e experimentar na própria pele a celebração dos encontros?

E vale a pena, e valeu a pena. Mas mais ou menos na mesma proporção dos risos e gargalhadas que me acometiam, haviam os choros, as frustrações, as rejeições... E a vida é feita disso tudo, eu sei. De altos e baixos, quer coisa mais certa e clichê...

E sim, depois de um tempo e de tantas empreitadas, a gente aprende a lidar com mais familiaridade com as quedas. A gente levanta mais rápido, remenda o coração mais uma vez, não se demora numa paisagem que já passou... A gente coleciona cicatrizes e histórias malucas, conexões fenomenais e fossas profundas. A gente decora a ‘cartilha do como recomeçar’... e já pode até dar aula disso se quiser, a gente já sabe surfar nas ondas que nos descabelam.

Mas eu cansei... cansei de me descabelar. Eu cansei de cair fundo no brilho de um olhar, cansei de deixar as janelas abertas para convites mirabolantes. Cansei de dizer sim para aventuras sem pé nem cabeça, cansei de acreditar que grandes emoções sempre valem a pena.

Hoje eu vejo uma onda gigante me surgindo e eu já sei, eu a furo no ato, e saio do outro lado, ilesa. Eu comecei a preferir os brinquedos mais seguros do parque de diversões. Fico num carrossel sem sustos, fico na monotonia boa dos giros fáceis, fico nas marés mansas que me deixam fechar os olhos em paz.

Onde, também talvez, eu possa ser a versão mais sem graça de mim mesma, ou não tão cheia de vivacidade. Me gasto menos nos dias, e justo por isso, vivo-os melhores. Subo menos alto no amor, e justo por isso tenho fôlego para esparramá-lo ao longo e ao longe das horas.

Porque pra mim, a paz na alma se tornou a maior graça de todas as graças que poderiam existir nos jardins da vida.

Às vezes eu fico louca, porque a delicadeza nem sempre me define

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Às vezes eu fico louca.

Ou é esse o nome que eu mesma e outras pessoas usamos para definir uma amplitude de características ou reações que me tiram do eixo, da linha reta, do equilíbrio, do pacifico, do racional...

Às vezes eu fico louca porque eu ainda não sei apenas observar os assuntos do mundo sem misturá-los com as minhas emoções. Porque eu não sei observar a vida fora de mim. Porque eu não tenho olhos de fazer vista grossa. Porque eu ainda não tenho maturidade espiritual para ver coisas que fazem o meu sangue ferver e controlar essa fervura no mesmo momento com uma boa dose de ‘sou superior a isso’, ou ‘isso não me pertence’, ou ‘nada importa, o meu dia não será perturbado’...

Às vezes fico louca, fico cheia... de revoltas, de dores, de amores, de sentimentos. Fico sem verbo para expressar a mistura dos oceanos íntimos. Mas fico cheia de rugidos, de gestos, de vontades, de energias...  Fico mais pra bicho do que pra gente, sem entender as mensagens subliminares do meu subconsciente. Não saio por aí manifestando por todos os lados, mas eu também não tomo uma pílula para camuflar a minha maluquice.

Quantas vezes o meu grau de loucura, diga-se de passagem, ainda aceitável socialmente, foi definido como tpm, sensibilidade exacerbada, coisas de mulher num dia ruim...

Eu fico louca e não apenas porque sou cíclica. Eu fico louca e não apenas por causa da minha biologia.

Eu fico louca porque algumas vezes não há mais o que me defina, porque a delicadeza e a mansidão que me foram ensinadas a enfrentar os dias muitas vezes não revelam a minha inteireza e escondem as minhas dores, sonhos e gozos, ou seja, grande parte de quem sou.

Fico louca porque dentro de mim há sim algo que ainda não foi domesticado e não tem nome. Chamam isso de loucura. E incluem dentro desse verbete, tudo o que não é permitido. Pejorativamente lhe dão um nome, que diga-se de passagem, tem conotação negativa.

A loucura.

Eu fico louca e escrevo um poema, eu fico louca e mudo os rumos da minha vida. Eu fico louca e percebo coisas que antes não percebia. Eu abro os olhos e os instintos. A loucura é a minha porta para a minha própria saída.

Deve ser por isso que a loucura é tão combatida. Deve ser por isso que tudo se justifica. Deve ser por isso que sempre acaba certo e protegido quem foi menos louco na vida. Há um perigo iminente em quem defende esse nosso magnífico estado de ser.

A gente se atropela

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Quantas vezes nessa vida a gente se atropela...
...atropela o corpo, atropela a alma, atropela o tempo de maturação de um experiência, de uma sensação.

A gente atropela os dias, com todas as tarefas que temos, com os deveres mais importantes, com as coisas mais relevantes, a gente não guarda 10 minutos para sentar, respirar e pensar nos passos dados, na direção dos voos. Não dá tempo de parar o atropelo para meditar sobre nós mesmos.

A gente atropela os sinais do corpo, coloca mais um antiácido no estômago, deixa o xixi pra depois, melhor responder a emergência dos e-mails primeiro. A gente atropela a mastigação do almoço com digitações no celular. A gente atropela o momento de conversa com o parceiro por coisas que temos que postar. A gente atropela um olhar, uma flor, um filosofar mais profundo com um vomitar nossas dores e falar sobre a vida dos outros.

A gente atropela nossos aprendizados diários com pensamentos que não vêm ao caso, a gente atropela a possibilidade de outros entendimentos, de outras interpretações, com a nossa raiva instaurada, com a nossa dor pré-concebida, com os nossos vícios de ser o que já sabemos ser.

A gente se atropela dando ouvido demais para o que, no fim das contas, não interessa nada na nossa estrada. A gente atropela um olhar bonito, um cheiro bom, um momento único com a vontade de que as coisas cresçam e vinguem no momento seguinte.

A gente atropela um momento de chegada, uma fase de alívio, uma veia rasgada, um coração rompido. A gente atropela o luto e o sentimento recém-nascido.

A gente atropela um abraço de uma criança, a gente atropela tantas árvores todos os dias, a gente atropela as boas ideias, a poesia. A gente atropela as soluções com um excesso de problemas, a gente atropela a maré mansa de dentro com imposições e expectativas. A gente atropela quem não se atropela e senta um pouco todos os dias teimosamente no meio da estrada dos atropelados.

A gente atropela os dias, a geografia, a nossa história de vida. A gente atropela o te amo da mãe no telefone, a gente atropela as presenças com a nosso constante foco na falta, a gente atropela os pequenos significados com expressões gigantes que vivemos esperando aterrissar na nossa janela.

A gente atropela o silêncio, o nosso e o dos outros, atropela o futuro com nossos medos bobos, atropela o passado, manchando com nossos apegos e desgostos, atropela o presente com a acidez do desconforto de não saber mais estar na própria pele.

... a gente se atropela

 

Saia do armário, vista as fantasias, tire os sapatos, ao invés de esperar que alguém venha te massagear os pés e te reconstruir o mundo

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Não precisa mexer tanto nos pensamentos, ponderar tantos os passos, evitando tropeços, fazer listas de prós e cons., titubear tanto nas decisões (como se houvesse um caminho certo), se preocupar demais em escolher o futuro que melhor se encaixa na sua personalidade multifacetada.

Vai apenas sendo, hoje, neste dia, o que te anima, o que te infla, o que te enche de curiosidade, beleza, poesia. Me parece que mais importante do que escolher o caminho “correto”, tentar não desagradar sua alma e o mundo ao mesmo tempo, é perceber que todos os roteiros são válidos, e mais do que querer saber os rumos e os resultados, a gente quer mesmo é experimentar a vida em todas as suas possibilidades.

A gente quer dançar tantas danças, experimentar comidas, lugares, sentimentos, mergulhar em diferentes olhares, conversar com o silêncio, abrir os livros, misturar os capítulos, não saber o que vem depois da esquina.

A gente não precisa de tantas garantias, não precisa olhar em volta, pensar que muita coisa poderia ser diferente, a gente não precisa fazer bonito para uma plateia imaginária chamada família, amigos, mundo, a gente não precisa suprir e nem criar expectativas enormes, baseadas em meras ilusões de felicidade.

Vai apenas aí vivendo seu dia. Coloca amor no café que você coa, abre a porta, que o sol ainda entra por menos que você perceba.  Anda na rua, veja que tem gente que ainda diz bom dia.  Larga mão de manipular os sentidos da sua história, pensa menos nos leitores, pensa menos nos clímax, nos conflitos, nos romances. Vai trilhando seus capítulos experimentais, quebrando regras, sendo mais Bergman do que Allen. Deixa que as coisas pousem sem nomes. Saia da linearidade que te norteia...

Saia do armário, vista as fantasias, solte os cabelos, tire os sapatos, ao invés de esperar que alguém venha te massagear os pés e te reconstruir o mundo.

Passeie pelos seus próprios jardins, porque se a flor do vizinho sempre te parece mais bela, deve ser porque sua velha alma se esqueceu como se auto cultivar.

Então reaprenda-se! Liga o foda-se, e desliga todas essas falas bestas que teimam em te colorir os dias.

sobre aquele velho vício de acinzentar os dias

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Quero falar um pouco sobre a tristeza.

E começo cheia de dedos pois não sou nenhuma PHD dos estados da alma humana, sou apenas uma poeta empática que observa a si mesma neste mundo e as pessoas em volta. E é nesse pé que eu quero falar sobre a tristeza.

A tristeza pode ter diversas formas, intensidades, colorações. Talvez hoje eu quero apenas divagar sobre um tipo de tristeza, uma melancolia que já me tomou tantas vezes os dias, que foi morar nos meus olhos, que me fez pensar que esse era o jeito adulto de estar na vida.

Todos sentimos tristeza, independente de classe, gênero, idade...
Mas há um tipo de tristeza rotineira, há um tipo de tristeza (sutil e forte) que cria um espaço tão bem definido na nossa alma, que parece constituir a nossa essência e o nosso estar no mundo. Não é que a gente não saiba mais sorrir, mas os nossos olhos carregam um peso que podem desabar em lágrimas ou desânimos com qualquer descuido pequeno no caminho. A gente desaprende a relaxar num momento, a ligar o foda-se para os assuntos grandiloquentes, a dar risada dos pensamentos negativos. A gente sempre tem uma sombra de tristeza por dentro que quando nota o nosso relaxamento, vem cochichar nos nossos ouvidos ‘olha, não fique assim tão satisfeito, porque você ainda não resolveu isso, aquilo e aquele outro, porque as pessoas te machucam, porque o mundo é cruel e o amor não lhe está disponível...’

E a tristeza vem acinzentar os nosso momentos sem importância. Vem colocar significado nos nossos afazeres simples do dia a dia. Vem dar um belo toque dramático no nosso temperinho simples de rotina.

Pra mim tristeza assim pode ser um vício. Vício nosso de querer colocar notas a mais na simplicidade da vida, vício de acreditar que carregamos culpas sem fim, vício de achar que não podemos relaxar os ombros e deixar que as marés da vida atuem silenciosamente nos nossos destinos.

Desaprendemos a sutil capacidade de ser feliz por nada. Porque a gente se cobra muito, porque a gente mede as consequências de tudo, porque a gente vive o dia de amanhã e a vida dos outros.

Às vezes essa tristeza nos coloca de cama, sem coragem pra nada, perdemos a força para fazer coisas que gostamos, nos entregamos a esse estado de espírito. Eu sei, ele aparece e às vezes é mesmo maior que tudo. Mas a gente precisa começar a, devagar e sempre, resgatar a nossa infância perdida, o nosso gosto por fazermos as tarefas do dia sem tantos pesos no corpo e na mente.

A gente pode pegar uma vassoura, ligar uma música, sorrir para o gato que passa, dar uma volta no bairro, espantar a responsabilidade de ser grande, navegar numa maré mais tranquila.

A gente esqueceu disso, mas é permitido não saber do dia de amanhã, seguir roteiros diferentes do que a maioria, exigir menos da gente mesmo e das pessoas, puxar o tapete de quem só sabe reclamar.

A gente pode focar em cuidar do próprio jardim, desativar as expectativas. Abrir as asas, respirar fundo, quebrar as pernas das muletas e deixar a alma ser livre no mundo.

Parece que seguindo assim, mais leve no sentir o mundo, devagar a gente vai mudando o tom da vida, vai corrigindo a postura da alma, vai acreditando mais na luz do sol que entra inevitavelmente pela janela do que nos pântanos que ocuparam os nossos jardins internos.

Prefiro pessoas cruamente humanas à pacotes de encantamento

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Uma certa luz entrou pelas frestas do meu corpo e começou, silenciosamente, a retirar as sombras de ilusões que em mim sempre fizeram morada.

Este é um momento em que a gente começa sutilmente a não confundir mais tanto o nosso verdadeiro eu com as nossas projeções e idealizações. É quando a gente começa a ver além e aquém das necessidades inventadas e ensinadas. Que começamos a não cair em tantos dramas pessoais, em conflitos e dualidades, porque entendemos o que é ilusão e o que é amor e onde eles moram dentro da gente e como são acessados e que energia despertam.

E começamos a escolher o que nos faz realmente bem e não mais as caixas encantadas de fogos de artifício que explodem rapidamente na nossa alma e depois se dissipam no céu das possibilidades infinitas.

A gente começa a preferir conviver e a perceber as pessoas mais íntegras do que aquelas que trazem pacotes de encantamento.

Não precisamos mais passar horas pensando em qual sonho se encaixa mais nas nossas projeções futuras, ou na vida ideal que queremos ter.

Já não medimos mais racionalmente o aceitável e o inaceitável. Rasgamos as listas das nossas prioridades mundanas. Deixamos de acreditar em tudo o que vemos para acreditar no sentir. Deixamos de ouvir e nos abalar por tantas falas para que o silêncio ganhe espaço. Deixamos de dar tanto peso às verdades ditas em voz alta e nos sentimos mais atraídos por pessoas e estilos de vida mais coerentes com a nossa natureza humana.

Porque as ilusões tendem a ser lindas, mas muitas vezes também desconfortáveis (mesmo quando a gente já está muito condicionado a andar de salto alto, hora ou outra , ilusões voltam a apertar nossos calos inconscientes).

Então a gente entra numa outra sutil energia de querer apenas decidir o dia de hoje, e isso é a maior glória.

A gente percebe que felicidade é uma construção bem mais simples do que as complexas pirâmides de sonhos em que nascemos imersos.

Começamos a querer ficar perto de pessoas que não têm medo ou vergonha de despirem a alma. Que têm coragem de se acessar mesmo que isso possa quebrar estruturas sociais.

Aprendemos que nenhuma situação e ninguém vai salvar nossas vidas e que o único jeito de fazer isso é abrindo-nos para a nossa verdade mais íntima.

Começamos, nós mesmos, a não mais vestir tantas fantasias porque não queremos atrair pessoas e histórias pela nossa falsas cascas, posturas, status... Desmontar todos esses ruídos de encantamento leva tempo, é mais fácil caminhar sendo o mais simples de você e assim filtrar, estar perto, desde o início, do que interessa.

A vida é muito curta pra gente viver entrando e saindo de salões de máscaras de egos encontrando egos.

E mesmo que a gente já saiba ter a fantasia mais bonita da noite, a gente deveria escolher andar nu, vestido da própria pele - frágil, livre, segura e cheia de si.

Dançando na vibração de poder estar aqui e agora em plenitude.

 

 

Solteira, eu sou um desastre

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Eu solteira sou um desastre.

Talvez porque eu fique plantando rosas em solos aquáticos.

Ou talvez eu seja a única a despir a alma no meio do quarto. E a mostrar quão complexamente simples é uma pessoa que se recusa a vestir a fantasia dos jogos.

Talvez, em certo momento, tudo em mim vire um presente muito facilmente desembrulhável e então é deixado de lado depois de algumas brincadeiras.

Talvez eu seja peteca em terras de jogos digitais: tão singela, tão inútil, tão difícil de entender o uso nos dias de hoje... sem sentido, talvez, mas de alguma forma despertando alguma nostalgia nos corações.

Solteira, eu sou um desastre.

Fico pisando em ovos para não ser atingida por irresistíveis investidas. Fico cheia de dedos, tateando o escuro das almas desconhecidas. Fico fora do meu coração, tentando captar sentidos e significados nos gestos, antes de deixar um alguém criar em mim frestas.

Fico fechada, buscando mais paz do que amor.

Até que... até que bate uma atenção cuidadosa, até que olhos parecem chegar perto, até que, pela posição da lua, pelas garrafas de vinho vazias, pela necessidade de arejar o mofo das minhas paredes de pedras, eu, sem perceber, decida escancarar minhas portas, devagar, mas completamente.

E aí meu filho, não é pouca gente que não queira quase que de imediato sair correndo.

Alguns vão de fininho, outros bruscamente, tem gente que ainda fica, vez ou outra traz uma marmita.

E eu fico mal, fico bem, ligo o foda-se, fico zen. Orgulhosamente remendando meu coração com consolos.

Eu solteira, uma hora caio, uma hora entro, outra hora já nem tento.

Mas sempre desastradamente saindo nada ilesa, talvez mais lesada e desentendida dos funcionamentos alheios.

Fico gastando tempo me recompondo e criando truques para o meu pensamento parar de aportar naquela ilha inventada.

Fico gastando energia para criar, depois destruir; para entrar e depois sair; para amar e depois ignorar.

Comicamente dramática. Desabando lágrima para ver se o oceano de dentro seca de uma vez e para ver se a calmaria pós-ressentimento dá logo as boas-vindas.

É muito desprendimento, é muito dilúvio, são muitas estações chegando nessa minha terra antiga, numa alma que teima em preservar o acreditar.

Eu solteira... penso que qualquer assunto é assunto para uma prosa poética.

 

A humildade de amar e deixar as verdades irem por água abaixo

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Ah, como a gente tem que ser humilde para amar!

Como a gente tem que acolher as dúvidas, as incertezas que nos transpassam e aceitar que nossas verdades, vez ou outra, vão levar rasteiras, vão ir por água abaixo.

Para amar, ah! como a gente tem que, tantas vezes, deixar o orgulho ser desmoronado – tijolinho por tijolinho –  e ficarmos crus e desapegados do que era a nossa mais íntima proteção. Esse orgulho que a gente confundia com amor próprio. Mas era só medo de sofrer demais e de novo.

Porque se a gente, por vezes, não deixar o orgulho de lado, não há espaço para os perdões e os renascimentos. E parece que o amor é planta em constante transformação, se a gente se apega à semente, a gente nunca verá a árvore. Se a gente não se deixa desestruturar, se a gente não sede, até ao que é grande e certo dentro da gente, a gente não dança com a energia do amor.

Ah, como a gente tem que passar dos nossos limites tão minuciosamente estabelecidos, dizer não, sair de perto, ficar só por um longo tempo, meditar, encarar nossas sombras e voltarmos para o mundo mais serenos, menos vitimados e vaidosos.

Porque duas máscaras podem se beijar perfeitamente por algum tempo, mas duas almas nuas precisam sempre de coragem para evoluir. E nem sempre estamos dispostos a isso. Evoluir cansa. Mas o amor precisa disso.

E mesmo com tantos beijos e rasteiras, com tantos desencontros, reencontros, nascimentos e mortes... A gente precisa ter a doçura da maturidade para manter o coração sempre aberto para mais. Porque assim é a vida.

Às vezes tudo se rompe. Às vezes tudo se fortalece.

Mas, em qualquer história que seja, o amor me parece ser o contrário de qualquer jogo de cartas marcadas e de passos bem dados.

O amor parece ser algo como a natureza: caótico, um sem sentido mas com tanto sentido! O amor parece estar neste mundo há muito mais tempo do que nós homo racionales sapiens.

As árvores nos ensinam a amar. Um lagarto estirado no quintal nos ensina a amar. A chuva, que cai com cheiro de terra húmida trazendo cores de outros rios, nos ensina sobre amar. Sobre a inconstância das nuvens, sobre a flexibilidade das almas. Sobre as surpresas inesperadas e as transformações constantes...

Sobre o desencanto das aparências para o reconhecimento de uma essência comum.

Ah! Como a gente tem que ser humilde para receber o amor.

Perceber que de nada temos controle. Mas podemos ter muita vontade de amar, de crescer, de viver, de respirar profundamente as nossas possibilidades de sentir.

A gente pode pegar uma caneta e tentar escrever a própria história, mas que as janelas e portas fiquem abertas para que a gente não se esqueça da força das marés e dos ventos e das surpresas e mistérios que nos invadem.

Muito mais que amar alguém ou algo, é amar a vida, e a vida é isso.

Eu já não me apaixono mais, agora eu apenas me encanto

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Eu já não me apaixono mais, agora eu me encanto.

Paixão é um momento de êxtase, é efeito alucinógeno causado por uma necessidade de vida. Paixão muda a química do corpo, deixa tudo à flor da pele, o sangue corre mais rápido, a vida fica cheia de sensações e de pequenas explosões. Paixão é algo que surge para que as rotinas se quebrem, a monotonia desapareça, e a gente se lembre que ainda está vivo.

A paixão é cega, parece ser uma necessidade de sentir a vida no seu ápice, de sentir vibrações intensas percorrendo as veias; por isso a paixão inventa, é amiga da ilusão, vê mais cor no mundo, transforma o cheiro do ser amado no perfume preferido, acha tudo lindo, louco e imenso, e quer sempre mais uma dose para alimentar essa chama alta e passageira. Pela necessidade de fascinação, vê coisas onde não existem, coloca pessoas no patamar de deuses, chega perto de sentir a perfeição. Mas só pelo tempo que durar... Depois se dissipa em nada e a gente até ri de si mesmo.

Eu já não sinto paixão. Pra mim qualquer ser humano é apenas um ser humano, claro, ainda me admiro com as pessoas, ainda vejo beleza e vontade de ficar perto, de me vincular, ainda sinto arrepios na pele, e tenho sonhos rondando meus pensamentos. Mas, meu coração parece não ficar mais assim cheio de adrenalina a todo momento, é outra vibração o que agora me passa por dentro, é isso o que eu chamo de encantamento.

O encantamento é uma energia mais sutil. No encantamento a gente não vê coisas a mais numa pessoa, a gente não precisa sentir ciúmes, querer saber dos caminhos da vida dela, a gente não precisa ficar inseguro, com medo de que se a gente não chegar muito perto, a queda pode ser muito grande. (Na paixão é assim, porque da ruptura da bolha de ilusão até a realidade, a queda é longa). No encantamento não há queda, pois já estamos com os pés no chão. É um sentimento consciente, lúcido, que não cria coisas extras, fantasias e apetrechos para enfeitar a vida; o encantamento enxerga da pele pra dentro. Quem aprende a se encantar por pessoas, fica empático, vira observador, sorri com detalhes pequenos, essas coisas que quase passam despercebidas, mas revelam tanto do interior de uma pessoa.

O encantamento se interessa por seres que brilham de dentro pra fora. Se interessa pelo jeito de viver, pelo tom de voz, pela forma de olhar. O encantamento sabe ver pessoas de verdade, conecta um humano no outro, rompe grandes expectativas, cria meditação e amizade. A vida vira uma contemplação.

O encantamento é a surpresa boa de encontrar uma pessoa tão bonita no mundo. E isso, por si só, já é uma grande alegria.

Não importa se a pessoa é minha, dela ou de mais ninguém. A felicidade é ter o prazer desse encontro e é saber que ainda existem pessoas que valem a pena sentir.

O encantamento se satisfaz com um aprendizado compartilhado, com momentos de verdade, com carinho, amizade, trocas de qualquer tipo...

No encantamento o coração não fica descompassado, o estômago não queima, as emoções não vão de um extremo à outro dentro da gente. Isso é paixão. No encantamento a gente reaprende a respirar mais profundamente, a não se preocupar com o caminhar de cada um, a gente gosta da troca, e ela é mais saudável e menos exigente.

A paixão é um foguete que se perde no espaço, o encantamento é um pássaro planando no ar.

Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem

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Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem, com rituais exteriores, com votos ditos altos, com símbolos marcados no corpo, mas com almas pouco despertas. Não busco mais viver uma união de cegueiras, um relacionamento em que um ampara a mentira ou a ilusão do outro, em que quase tudo fica na superfície por termos medo de mexer no que assustaria a todos.

Busco sim companhias para a caminhada, amizades corajosas, trocas de aprendizados, amparo mútuo nesse caminho doce e difícil de flexibilizar o olhar e romper condicionamentos e ciclos viciosos.

Não busco mais um colo familiar e confortável, reconhecível pelas minhas células femininas ancestrais, que atraem o que foram educadas por séculos. Não procuro um alguém para eu repousar a mulher que a cultura me ensinou a ser, porque dentro de mim e no espírito do mundo eu ouço que é tempo de transformar, de despertar, de aprender a deixar o propósito maior da vida vir à tona.

Porque eu ando aprendendo que o meu corpo sabe dizer onde ele gosta de se encaixar, que o meu coração pode ficar mais leve, que a minha alma só pertence a mim mesma e quem chega perto é um visitante que eu posso querer ou não receber.

Por isso, às minhas mãos eu quero que se unam mãos desbravadoras, quero olhos ousados como os meus, quero seres que sejam espelhos revelando as minhas sombras que sozinha eu não consigo ver, e que os sustos desses insólitos contatos com os meus porões não me façam sair correndo, mas me insuflem energia para querer desbravar-me mais ainda e limpar as crostas antigas das paredes da minha alma.

Quero também, a companhia que saiba também abrir as minhas janelas e portas e não tenha medo de encontrar a luz radiante dos meus sóis. E que eu esteja preparada para o mesmo! Que a gente possa unir nossa energia vital, essa coisa que é maior que nós e que pode causar tanto medo pois é um gostinho do que seria a morte, já que é exatamente o auge da vida.

Que a gente tenha estômago e coração para ver nossas sombras e luzes, nossas inteirezas e assim nos libertarmos de sermos apenas vultos de nós mesmos.

Que a coragem esteja nos nossos passos, que, com amor, a gente saiba abrir frestas um no outro, para que a nossa essência respire. Que a gente respeite os ritmos, principalmente o nosso próprio, que a gente deixe o amor ser como onda, que vem e vai, que foge ou fica... Que saibamos que nada está nas nossas mãos, por isso mesmo podemos relaxar.

Que sigamos nos desvendando um no outro, um com o outro. Que a vida seja um estudo compartilhado de dois cientistas que aceitam ser as próprias cobaias.

Que a gente possa ficar cansado e titubear, mas que as nossas companhias sejam fortalezas, ponte e inspiração, para que nossos passos, mesmo que hesitantes, sigam sempre em frente.

O sexo que a gente faz no sábado à noite começa na segunda-feira de manhã

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O sexo que a gente faz no sábado à noite começa na segunda-feira de manhã.

A transa boa do fim do dia, a vontade que surge na proximidade dos nossos corpos começa bem cedinho, quando você acorda antes de mim e prepara uma água morna com limão, e eu saio para comprar um pãozinho fresco na esquina. A nossa transa boa começa com os olhos e com o silêncio, na leveza que a nossa convivência consegue manter. Faz parte dessa transa as risadas que a gente ainda sabe dar um com o outro, as pequenas gentilezas no cansaço da rotina. O nosso sexo é resultado dos dias que soubemos descansar o corpo e a mente, das noites que dormimos inteiras, das mãos que demos ao atravessar as ruas e os problemas.

É bom como a frase ‘fica tranquila, vai ficar tudo bem!’, naquele dia em que tudo desaba e a gente não vê saída. A energia do nosso ato de fazer amor começa na gratidão que estamos aprendendo a sentir pelo universo, na paixão que a gente preserva pela vida, no café preto que a gente senta na varanda pra tomar quentinho, segue pelo vinho tinto que gostamos de degustar numa quinta-feira monótona.

Nosso fazer amor passa pelos filmes bobos que a gente assiste, pelas mudas de tempero que a gente plantou no quintal, pelos planos compartilhados, pela simplicidade que a gente soube voltar a ter nesse mundo. Nosso sexo é desnudo, é humano, é instintivo, é consequência de uma vibração boa, relaxada. Na nossa cama não tem dinheiro, carros caros, alugueis atrasados, não tem lingerie de luxo, atuações despropositadas. Na nossa cama a gente não deixa entrar ciúmes, celulares, forçação de barra.

Às vezes tem um pinto mole e uma vagina seca. Às vezes tem ronco, mau hálito, sono profundo. Outras vezes tem luz boa da terça-feira de feriado, tem umas horas a mais pra não fazer nada, tem a primavera chegando e animando as nossas almas aventureiras.

Nosso sexo é livre, simples e ousado. Sem regras, sem exigências. É consequência da forma como a gente tece os dias. Às vezes ele é lento, às vezes é rápido, às vezes é intenso, às vezes é mais raso, mas ele é sempre respeito, carinho, amor, bom contato. Às vezes a gente dá risada, às vezes a gente chora juntos.

Nossas transas são coisas boas da vida, imperfeitas como a gente gosta de ser, espontâneas, verdadeiras, criativas e tão manjadas.

Quando a gente briga a gente não quer transar, a gente nunca acaba em pizza, porque pra nós sexo é um manjar dos deuses, é um ritual, é um banquete, mesmo que seja de pão com queijo derretido, sempre faz muito sentido, a gente sempre dá valor e põe boas intenções.

Nossas preliminares (antes das propriamente ditas) são a vida, por isso na hora do vamos ver tudo se encaixa, mesmo que nada entre, mesmo que nada transborde.

Às vezes somos mar em movimento, outras vezes suspiro na praia.

Não que a vida seja só sexo, mas tudo que passa nela vibra na cama, no contato de nossos corpos e almas.

Lembra? da vida que se perdeu..

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Às vezes paro para observar como temos vivido nos dias de hoje e o que me vem à mente são pessoas em suas matrix numa realidade em fast motion.

É tudo tão urgente, é tudo tão rápido, tão abundante e raso – as conversas, as trocas, o jeito de sentir a vida. Me parece que os olhos e o coração não conseguem dar conta de reter as sensações de situações e pessoas que atravessam as nossas vidas.

Vejo encontros que passam e não deixam nem lembranças na pele, historinhas que acontecem e depois de duas semanas já se dissolveram totalmente, foram parar no universo das coisas que se perderam e nunca serão procuradas, foram substituídas por uma versão mais atualizada.

E, no entanto, temos uma ânsia por acumular essas coisas e esses momentos que dificilmente serão reacessados. A gente não vai lembrar das viagens, a gente vai se esquecer dos papos, das transas, das amizades repentinas que fizemos, vamos esquecer o nome da capital daquele país do leste europeu e o sabor da uva do vilarejo do Uruguai – se é que não era na Argentina.

Vamos esquecer de olhar as 500 fotos que tiramos num pôr do sol do pacífico. Não há mais álbuns de memórias, nem fora e nem dentro da gente. A gente não senta mais no sofá numa tarde de domingo para folear a nossa vida e sentir um pouquinho de nostalgia. A gente não precisa sentir nostalgia, todos os amigos de infância estão no nosso facebook, as nossas melhores fotos estão no instagram, as músicas da nossa infância e adolescência estão remixadas no spotfy.

Pra que parar, se há tanto para viver, se o mundo ficou pequeno, se os encontros são fáceis? Pra que deixar o celular de lado numa tarde, se as maiores novidades do dia estão nele? E precisamos consultar a nossa própria existência.

A gente não questiona mais, as nossas filosofias vêm prontas em capsulas nos documentários da netflix. Dizem que devemos ser veganos, comer orgânico, e a gente se adapta, começa a seguir uma nova dieta, mas a gente nunca coloca a mão na terra, não observa o crescimento natural do alecrim, a gente não tenta entender o que é preciso fazer para que uma semente vire muda.

Nos dizem que devemos ser criativos, pois foi descoberto na universidade de Harvard que pessoas criativas são mais felizes, e a gente, então se adapta, cria um espacinho na nossa agenda já tão atribulada e começa a fazer dança, pintura ou arriscar uns versos que ilustram bem a nossa falta de profundidade. Só que a gente não fecha os olhos e deixa uma energia diferente nos desconstruir, a gente não coloca as mãos nos vincos da madeira, a gente não olha nos olhos de uma tela em branco, a gente não silencia e deixa que a poesia venha.

E ainda, por nossas frustrações diárias, por nossas dores e sensações mais difíceis de entender que foram varridas pra debaixo do tapete, a gente procura se espiritualizar. Aprendemos frases feitas, entramos nos grupos dos chás, lemos os mantras do despertar de consciência.

Assim não precisaremos realmente nos acessar, criamos mais um monte de

patuás para virar escudo de nós mesmos, para colorir a nossa bolha protetora.

A gente pega assim tudo sem maturar, sem esperar que germine e crie raízes e chegue até a alma. A gente vive tudo sem adentrar, a gente tem medo de se desestabilizar, tem medo de ficar perto de gente que nos faz questionar, tem medo de amar de verdade, tem medo de mostrar coisas nossas que desconhecemos, tem medo de ficar pra trás, de não curtir o momento, de perder tempo tendo que percorrer inúmeras veredas de autoconhecimento.

Perdemos o tesão de sermos ousados e corajosos, perdemos a audácia de arriscar a pele e o coração, perdemos a vontade íntima de analisar as nossas próprias frustrações. Perdemos o tesão de tocarmos as pessoas com verdade, de ver as coisas fora do nosso umbigo, de nadar num mar sem ter que lembrar de fazer um selfie.

A gente perdeu.

Que o vento leve o que não for leve

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Às vezes, nas nossas relações humanas, a gente tem que ser mais vista grossa do que acolhida, mais silêncio do que escuta, mais distância do que se deixar invadir por dores que não são nossas.

Temos o costume de achar que ser assim é ser desumano, indiferente, frio. Achamos que se a gente não escuta, não acolhe, não participa da dor do outro, dos problemas de alguém, da carência, estamos sendo egoístas. Mas a verdade é que se fechar e se preservar pode ser uma atitude bastante altruísta.

Ignorar falas carregadas, sair de perto de provocações baratas, criar silêncio onde havia uma inundação de dores e palavras é uma forma de quebrar círculos viciosos, romper uma energia que não está se transformando, mas apenas se propagando.

Porque, às vezes uma pessoa se abre, fala, desabafa para receber ajuda, para se observar de fora, para aprender e mudar de energia. Mas, tantas outras vezes, os desabafos não têm esse tom de mudança, eles são apenas apegos na dor, na vitimização, buscando um ouvido, um coração para fazer ninho e validar ainda mais essa verdade, esse apego.

Se a gente ouve e entra na dança, se absorvemos as lágrimas, se nos amargamos com as reclamações desenfreadas, se nos irritamos com provocações baratas, a gente contribui para que a doença se propague e cresça. Ela ganha força, ganha credibilidade, a maré avança.

Às vezes, as pessoas querem se nutrir dessa forma de atenção, às vezes esse peso que trazem é a forma que elas encontraram para se sentir importantes. Mas esta é uma nutrição fraca, sem vitaminas, não alcança os níveis profundos da alma.

Estes são alimentos junk food pra alma. Saciam por algumas horas, ocupam os buracos das dores, os vazios existenciais, mas não trazem transformação e uma paz mais profunda.

É mais fácil comer um cachorro quente na esquina, é mais fácil não questionar os próprios hábitos e vícios. É mais fácil continuar encontrando um ouvido junk food para alimentar a nossa sina.

A escolha de transformar a forma de ver e de ser no mundo, para ser mais leve, independente emocionalmente e com uma boa reserva de amor próprio, requer aprendizado, consciência, vontade, empenho e atenção constantes.

Nem todos estamos dispostos a empreender esse caminhar. Mas se a gente está, se a gente já sabe se autoconectar e sanar as próprias dores, com ajuda sim, mas sem dependência completa, acho que a gente tem também que impor limites, tem que escolher não se doar sempre, tem que lavar as mãos e fechar os olhos para o que não é nosso. Se a gente vê que escutar não está ajudando, que a troca está sendo desequilibrada, que o que está chegando até nós é apenas lixo existencial sem intenção de ser reciclado, é melhor a gente sair do barco, porque ele está furado.

Algumas vezes a gente não consegue contribuir para que as coisas se renovem e boas energias floresçam. Então que a gente abandone, mesmo que por um tempo, que a gente siga em frente, que a gente deixe o vento levar.

Que o vento leve o que não for leve, e se não houver vento, então que a gente mesmo faça ventar.

essa maldita empatia exacerbada

Eu sempre entendi os encantamentos dos outros olhos, os amores compartilhados, o distanciamento repentino e a voracidade de uma aproximação. Eu entendi as necessidades do outro, os atropelos por uma honestidade consigo mesmo, entendi a dor, o sofrimento. Eu olhei com olhos humanos as despedidas bruscas, as chegadas inesperadas. Fechei as portas quando só ouvia o barulho de um vento gelado e nada mais entrava. Abri as janelas para primaveras insistentes, dancei a dança da súbita felicidade quando meus olhos vagos miravam o chão. Eu entendi a dúvida em forma de silêncio, os ecos da não comunicação, eu entendi o peso da indiferença, a falta de energia, a rejeição. Entendi a substituição dos protagonismos, os cortes nas participações. Entendi o atraso da percepção, o arrependimento quando já era tarde, a luta para colar os cacos esfarelados de um coração. Eu senti a irritação na presença, a sede de novidade, o sopro de morte amargando os cafés da manhã. Senti as costas doloridas pelo peso existencial da vida de um homem. Senti o ancorar de cada lágrima, a absorção impune da pele, a barba crescendo e o álcool entrando nas veias machucadas. Senti seu travesseiro virando meu colo, as novas mulheres que causavam ainda mais irritação. Senti a raiva, a fúria, a vontade de pegar o primeiro avião. E porque senti tudo o que não era meu, e porque os olhares de dor são como punhais em meu peito, e porque seus pesadelos invadiam o meu momento de meditação; a minha luta de seguir os meus passos, cruzar a maré, nadar na contramão, de romper os nós e seguir a intuição foi sempre um esforço sem tamanho. 
Essa coisa de sentir pelos dois lados, de absorver doçuras e toxinas, de entender que tudo é parte do humano, de ter piedade nos gestos. Essa coisa de ser empático demais, de ouvir demais, de não saber não se importar e andar sem olhar pra trás. Essa coisa de não ter aprendido a deixar que cada um viva sua própria alegria ou ruína... essa coisa toda sem pés nem cabeças, sem heróis ou vilão. Como é que se relaxa os ombros quando o mundo pulsa na minha vibração?

Outro dia desses eu me divorciei

Outro dia desses eu me divorciei.

Saí da casa, da vida, da rotina.

O luto foi longo sim, luto de separação é sempre complexo. Vem a culpa, vêm os medos, as questões morais, a solidão, a loucura, a saudade, os apegos e os desapegos, os heróis e vilões, as roupas sujas expostas na sala de visitas.

Outro dia eu me divorciei.

E tanta gente me perguntou o porquê.

Me disseram que relacionamentos são complexos, difíceis mesmo. Que a gente tem que enfrentar os desafios diariamente. Que a gente tem que passar por cima de tanta coisa, fazer vista grossa, tem que reconstruir, perdoar, recomeçar inúmeras vezes.

Mas ninguém diz como é mais difícil ainda ser outro dentro de um ciclo vicioso, ninguém conta como é quase impossível mudar as células viciadas em padrões, quebrar os comodismos culturais dentro de um acordo pré-estabelecido. Ninguém diz que normalmente o equilíbrio pende mais para um lado, que os corpos se ajustam às injustiças dos espaços mal divididos, que as mentes se aquietam para poderem ter energia para concretizar o desafio de pagar as contas no fim do mês.

Ninguém diz que esse passar por cima de tudo é na verdade tantas vezes um passar por baixo, é esconder atrás dos cômodos e das almas as dores e as alegrias. É passar por baixo de si mesmo. É voltar, é continuar, é engolir melhor os sapos que vão denunciar os coachados dois meses (ou semanas) depois dos elos reatados e dos perigos amenizados.

É tudo muito sério para deixar de lado.

Dói, é verdade.

Mas, mesmo assim, outro dia desses eu me divorciei.

Porque depois de ser adulta por tantos anos, eu quis voltar a ser espontânea.

Quais os motivos? Me pergunta alguém.

Eu não sei bem... mas sabe quando a gente é criança e a brincadeira está tão boa que a gente se esquece de sentir fome, de olhar as horas, de trocar de carro, e pensar na pós-graduação do filho mais novo?

Sabe quando a gente é criança e encontra um amigo do peito bom de brincar e a gente nem pensa em saber qual é o passado dele, a profissão, as visões de futuro, o dia de amanhã... A gente nem lembra de notar a cor dos olhos dele, eles apenas brilham, a gente não repara nas diferenças, a gente apenas se perde na alegria, no momento.

A gente entra na terra úmida, sobe na árvore, joga a bola alto.

Se o amigo for bom de brincadeira, a gente sem querer querendo fica perto.

Mas, se o amigo é chato, cheio de regras, de competições e conversas, chorão, reclamão, a gente anda, voa, desencana daquela energia. Uma hora a água da vida bate na bunda e a gente desatina. 

A gente se divorcia.

Dia desses eu me divorciei e até o mito de abrir o vidro de azeitonas e a garrafa de vinho se desfez, deve ser porque até meus músculos estão mais despertos.

E não levanto a solidão como bandeira não. Apenas celebro a coragem, a vida, a possibilidade de ser dona de mim. E os amores mais genuínos que virão.

A gente é feito de pele e osso, mas também de remendos dourados

Dói um pouco mais depois passa.

Não há como evitar pequenos traumas na vida, não dá pra fugir de alguns joelhos ralados, do sol que queimou a pele, do frio que cortou os lábios.

A gente é feito de pele e osso mas também de remendos, de regenerações, de células que renascem, se reestabelecem e se reinventam.

O coração quebra às vezes, mas vai virando uma obra de arte mais bela e resistente, como a arte japonesa de kintsugi. Somos um mosaico de porcelana remendados com fios dourados.

Nossos olhos, depois de tantos tombos e tropeços, deixam de ser ingênuos, ficam espertos, mas depois de mais alguns dessabores e anestesias que criamos para nos proteger, deixamos de ser espertos também e decidimos voltar a ser sensíveis para poder degustar bem a vida.

Nessa fase a gente se torna sábio – somamos a bondade e a alegria de viver com a firmeza nos passos. Mergulhamos na vida sem tantas máscaras e amarras, com intenções verdadeiras, mas filtrando o que não agrega, o que limita os voos mais altos.

Olhamos com doçura, já não evitamos quedas, não queremos viver numa bolha que nos furtaria a própria vida, mas já sabemos nos cuidar sozinhos. Respiramos fundo, temos paciência com o tempo de cicatrização de uma ferida, tropeçamos e levantamos de imediato, limpando a poeira do corpo e seguindo em frente. A gente já não tem mais medo de se machucar, a gente tem medo de tornar a vida menor do que poderia.

Dói um pouquinho, não há como evitar.

Pra gente aprender a andar de bicicleta sem rodinhas, a gente cai algumas vezes, a gente chora, mas depois a gente pode voar.

Ficam marcas na pele, emendas nos ossos, cicatrizes nos músculos. Ficam histórias na memória, aventuras e aprendizados. Fica coragem, amor e gratidão no nosso coração.

É melhor que doa um pouco alguns desses nossos passos e tropeços, é melhor que, por vezes, a gente arme nossa alma em cima de um formigueiro, e logo perceba, feche o acampamento e vá embora encontrar uma paragem em que a nossa alma possa ficar um pouco mais e se perder na imensidão de si mesma.

É melhor que a gente erre para depois acertar, é melhor que a gente experimente antes de evitar, é melhor que a gente ame antes de se transformar num autômato que passa pela vida sem se sujar.

Dói um pouco mais depois passa.

Não é que eu não te perdoei, é que você não passou no meu filtro

Chega uma hora em que a gente quer seguir com passos firmes na vida, quer olhar pra frente e seguir pelos caminhos que valem a pena. Chega uma hora que a gente aprende a ter um olhar observador, que a gente se conhece um pouco melhor e sabe como não cair tão facilmente nas armadilhas dos medos, das culpas, das ilusões amorosas. 

Chega uma hora em que a gente quer viver coisas de verdade, conviver com pessoas de verdade, entrar em aventuras para evoluir e não para se divertir e se estrepar; a gente sabe que o tempo é curto, que a vida é rara, que não dá para parar e prestar atenção em tudo, não dá para ouvir o que estão pensando e falando da gente, não dá para pegar no colo dores emocionais que já não nos dizem respeito.

Tem uma hora que a gente decide não tentar consertar o que não tem mais jeito, que a gente já não quer discutir com pessoas que estão em caminhos tão diferentes, que a gente não acredita em gastar tanta energia para mudar uma pessoa - seja um amigo, um namorado, um parente...

Chega uma hora em que a gente não quer gastar tempo e coração remoendo, tentando viver de novo algo que não encaixou bem, a gente não quer mais se explicar, não quer mais se culpar por ter abandonado uma causa, não quer mais se sentir mal por amar mas decidir seguir o que nos engrandece e não o que nos limita e escraviza.

E a gente deixa sim pessoas que foram importantes para trás, a gente já não tem interesse em responder mensagens, em se sentir mal por já não cuidar como antes. Podem chamar isso de egoísmo, mas eu acho que é um altruísmo na verdade – não querer atrasar o próprio caminhar e também deixar que a outra pessoa desperte para o seu propósito.

É um momento em que gente já não quer ser muleta, ouvido, colo... A gente quer ser troca; a gente não quer ceder energia, a gente quer reciprocidade. A gente não quer fazer por merecer, a gente quer ser a nossa verdade e sabe que para pessoas que valem a pena, isso basta, o que somos é suficiente e bom.

Por isso eu acredito em ter os olhos abertos e seletivos, e o coração também. Que o meu coração saiba se respeitar em sua amplitude e necessidades.

Eu acredito que a gente pode aprender a ver o que vale a pena seguir do nosso lado e o que a gente tem que deixar de lado.

Eu acredito que a gente tem que filtrar, abandonar, perdoar sim, mas não querer mais participar de danças que nos limitam, irritam, fragilizam.

E eu ouvi por aí esses dias de um amigo:
‘mas você não me perdoou?’
e eu disse:
‘não foi isso querido, eu perdoei sim, mas você não passou no meu filtro.’

Que loucura falar isso, que loucura fazer isso – pode parecer. Mas pra mim, liberdade mesmo é isso: seguir minha vida e ser dona do meu próprio umbigo. E o que vale a pena vem junto comigo!

O que chamam de ‘amor livre’ pode ser um machismo disfarçado

Dizem por aí que amor livre é quebrar os moralismos, ser dona de si, não se prender a nada e a ninguém.

Mas eu acho que nisso tudo há alguns poréns.

Se por um lado tantas crenças do passado faziam a mulher ter o corpo fechado, nessa nossa liberdade anunciada de agora, em que a gente se abre totalmente, não se cuidar, se proteger, se conhecer e se amar, torna esse outro extremo da realidade tão ruim quanto antes.

Pode ser que viver o amor livre seja uma forma mais moderna de exercitar o machismo e tornar o corpo da mulher ainda mais território público, já pensou nisso?

Por mais que a gente saiba o que quer, do que gosta. Por mais que a gente veja e tenha consciência. Para se cuidar, se respeitar e realmente ser livre, é preciso uma observação profunda, é preciso encarar medos e quebrar mitos. É preciso primeiro viver por dentro a mudança e depois estar (diferente) no mundo.

Não adianta sair de nariz empinado, mostrar segurança nos passos, soltar o corpo e a mente, se no dia seguinte a gente chora sozinha, a gente espera a mensagem que não chega, a gente quer um carinho, a gente se torna possessiva, competitiva, insegura...

E eu não estou defendendo a síndrome de princesa e muito menos querendo voltar no tempo!

Eu acho que a gente tem que ser o que bem queira: rainha, gatinha, tigresa...

Mas desde que a gente se conheça. Porque me parece que ainda hoje, entre tantas mulheres que se dizem evoluídas, soltas e livres, a briga é competitiva e é pela conquista do troféu fálico.

E, na minha opinião, deveria ser bem o contrário.

Se fosse liberdade mesmo isso que a gente vive, as pessoas estariam sorrindo, se amando, se curtindo, se respeitando mais do que se machucando.

As mulheres podem ter conquistado muita coisa, mas a gente ainda busca ser amada, respeitada e livre. Ainda é tão forte essa luta.

Tanto faz se poderosa ou fracassada, sozinha ou acompanhada. Ao invés da gente alimentar nossas carências, nos abrindo para qualquer mané ou cara e não receber nem um terço do que a gente precisava, é melhor encarar a empreitada de curtir a nós mesmas acima de tudo e valorizar o nosso profundo.

Que a gente perceba que liberdade mesmo é despir-se de corpo e alma, e que se for só pela metade não vale a pena, não vale a noitada, não toca a nossa verdade e o voo se torna raso, é uma prisão disfarçada...

Então, que só entre na gente (na alma, no corpo, no espírito) o que fizer sentido, o amor que nutre, a liberdade que alivia.