Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas

Tenho medo das manipulações genéticas do amor!

Essa coisa de pensar, de analisar, de jogar, de manipular pessoas, corações, momentos, intenções.

Essa coisa de querer colocar as mãos e as expectativas da mente nos sentimentos, de exigir um formato, de direcionar o percurso, pode ser que desestruture um caminhar sereno de evolução e adaptação.

Será que o tempo, a terra, as transformações do entorno não se ocupam de arrumar os destinos? De fazer com que corações se encaixem ou se distanciem?

Tem semente que vinga, cresce bonita, se ajusta ao solo, ao clima, e tem semente que simplesmente não germina. E assim é a vida.

Forçar a barra para que algo nasça, cresça, se desenvolva no tempo que esperamos, da forma que esperamos; exigir que tenha uma forma, uma cor, um aroma; arrancar os defeitos; manipular as curvas do amor, é colocar agrotóxico, é modificar a essência.

Plante, mas tire os olhos da terra; ame, mas serene o coração.

Ame como quem planta, como quem semeia com as mãos, como quem sabe respeitar as estações, as terras (férteis e inférteis), os períodos de seca e de abundância, as sementes que germinam e as que morrem. Ame como quem planta com poucas ferramentas, mas com muito intento - relaxado, semeando amor, mas sem saber bem de onde virão os frutos, que árvores vingarão. Porque amores novos (e velhos também) precisam de uma dose de carinho e cuidado, mas também de outra grande porção de distração e relaxamento. Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas.

O que é orgânico leva um tempo e uma vontade própria. Deixe que venha ou não venha. Deixe que seja a verdade. Se vier, vai ser para nutrir a alma. Se não vier, é porque não seria bom alimento.

Há sentimentos que não crescem porque não têm energia por dentro.

Respeite os ciclos das sementes, das pessoas e dos corações.

Que o amor seja orgânico e não geneticamente modificado!

'Como assim você se apaixonou por mim?!' - carta de uma alma líquida

Que facilidade e vulnerabilidade a sua de ir abrindo assim o coração! Que fraqueza é essa em me mostrar os olhos vermelhos de choro e dizer que se envolveu?!

Meu bem, quantos anos você tem? Em que mundo vive? Em que tempo parou?

Que coração mole é esse? Que alma entregue é essa? E que conceitos antigos?!

Você não acredita em amor livre?

Como assim você foi se apaixonar por mim?

A gente transou muitas vezes movidos pelo tesão. Foi tudo tão intenso porque a vida é para aproveitar o momento. Eu só disse que te amo olhando nos olhos porque eu gosto de exercer a minha liberdade de expressão.

E você construiu um mundo em cima disso?

Ah, essas suas expectativas, você tem que olhar bem pra elas e tratá-las. Não fazem bem...

Não me leve a mal, você é sim uma pessoa especial para mim, mas agora eu não tenho energia e nem tempo, (tenho que ir ali ver se a minha técnica funciona bem com outra mulher. Tenho que ir ali massagear o meu ego, tenho que fazer sucesso, ficar por cima, tenho que começar do zero...).

Desculpe, não dá tempo de conversar sobre temas essenciais com você. Tenho um mundo para conquistar. Tenho uma carreira para cuidar, tenho coisas importantes para me ocupar.

Não dá tempo de te ouvir, mas você pode vir aqui às vezes, a casa é sua! E o carinho continua. Somos amigos coloridos. Só não gosto da sua TPM, é bom a gente saber... E você vai estar sempre no meu coração, como uma dessas histórias especiais que ficam na memória.

Não chore assim não! Eu não sabia que você era assim tão sensível, nunca foi a minha intenção te fazer sofrer. Se eu insisti tanto para ficar com você foi porque o universo conspirou (e você ficou dando uma de difícil e fechada e virou um desafio). Agora eu já peguei o que eu precisava, e eu pensei que você fosse uma mulher mais forte, livre, moderna... Dona de si!

E agora está assim, na palma da minha mão. Como pode?

Me desculpe, mas eu lavo minhas mãos. Não posso me responsabilizar por ter te conquistado.

A dor é sua.

Fica bem!

Do seu querido Vampiro de Energia.

Eu já não miro as estrelas. Meu alvo na vida está logo ali na esquina.

Tudo o que é grande já não me fascina, todo o esforço que me faz mudar toda o meu entorno e a minha rotina não me ativa por dentro.

Não sei se é velhice de alma, canseira dos passos, mas meus olhos já não se deslumbram com as conquistas homéricas, os amores arrebatadores, as histórias grandiloquentes.

Só de pensar em querer conquistar o que não está ao alcance fácil e genuíno das minhas mãos, dos meus pés e da minha alma simples, eu me canso, eu desisto mesmo antes do início. Porque eu quero o que me cabe e, mais importante, onde eu caibo sem ter que ser mais nem menos, sem ter que estufar esse meu peito franzino.

Só de pensar em me munir de ferramentas, atributos, armas de ataque pra sair à luta e conquistar recompensas grandiosas, corações dificílimos, amizades poderosas, posições profissionais-pessoais-sociais importantíssimas, já me canso e não me arrisco.

Ter um alvo lá nas nuvens, atirar nas estrelas para atingir o Monte Everest, não, isso já não me apetece. Meu alvo é aqui pertinho, está logo ali na esquina, deve se parecer comigo, é algo singelo e tranquilo.

Quero uma conversa boba, um ombro amigo, um amor pela vida mais do que pelos prêmios do mundo. Quero um pijama velho, uma janta simples, um pão com ovo bem feitinho, um chuveiro quente e um travesseiro com sonhos bonitos.

Glória pra mim é ver o manjericão virando arbusto no canteiro, é pagar as contas do mês, é ter tempo para escrever um poema inteiro.

Vida pra mim é a trégua, é o porto seguro onde minha alma pousa serena. Amor pra mim é o respiro de alívio, é uma companhia com menos exigências e mais carinho.

Eu já não me debato para conquistar algo mais alto, não quero nem o castelo nem o príncipe encantado. Eu já não me puno por sair de perto quando me sinto insegura, eu já não me saboto e me engano achando que eu tenho que cumprir tantos planos para me sentir mais satisfeita comigo mesma.

Está tão perto a minha riqueza. É o que cresce e se ajusta sem tanto esforço assim; tudo o que tem cheiro de lar, onde eu posso entrar e ficar à vontade. Onde eu não preciso mudar minha essência para poder me encaixar e merecer fazer parte. Porque o que eu sou já é o bastante.

E por isso eu posso ficar em paz e usar minhas energias para investir mais em crescer como ser humano.

Quando a gente tem medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade

Minha pele é fina, tanta coisa me passa, transpassa, entra, atravessa!

É fácil que o mundo externo encontre contexto nesse meu caos sensível de dentro.

Não é à toa que sou a primeira pessoa a dar um grito no cinema num daqueles filmes de suspense. Às vezes, as dores do mundo parecem passar diretamente dos olhos para o meu coração. Tem dias que as notícias do mundo me atingem como uma punhalada no peito: quanta crueldade, quanta competição, quanta coisa ruim acontecendo. Ai meu Deus, eu não aguento!

Minha pele é fina, me arrepia a energia que chega, mesmo antes de virar pensamento concreto. Será isso sexto sentido? Será essa pele invisível que vive acima da nossa epiderme? Essa coisa de perceber coisas antes de cheirar, de olhar, de escutar... de tocar. Deve ser bruxaria...

Essa pele fina que eu não sabia lidar, palavras facilmente podiam me machucar, assim como um olhar punitivo, um sorriso indefinido, antes de eu entender o porquê, antes de eu saber me proteger, eu me inundava de emoções.

Eu tinha medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade.

Eu temia criar em mim uma capa protetora e viver anestesiada.

Eu tinha medo de que não estar exposta me faria estar fria, cega, caminhando na superfície das experiências.

Eu tinha medo de me prevenir de tudo e assim, esquecer como sentir a vida in natura.

Mas hoje, mesmo com essa pele ainda fina, eu penso diferente. Tento não ser nem 8 nem 80. Eu ando aprendendo:

Posso ser a sensibilidade com a aura intacta. Posso ser a flexibilidade sem perder a estrutura. Posso entender sentimentos e compartilhar deles sem ter que ficar aos cacos.

Eu posso observar as minhas emoções e as dos outros sem imediatamente me confundir com elas. Do baile de carnaval, eu posso sair um pouco da dança e assistir da arquibancada, a escolha de entrar ou não na avenida tem que ser minha.

Às vezes eu danço uma marchinha, aprendendo, passando bem. Às vezes eu entro debaixo de uma chuva para ver o que é que vem.

O que sempre fica de tudo – rasteiras, ou leves brisas – sou eu sem tantos pesos. O que fica sou eu prestando atenção nos ensinamentos de um evento que foi denso para não ter que fazer aula de recuperação depois. Sou eu observando, equilibrando razão e emoções.

Demorou, mas tenho aprendido que é melhor colocar energia e me dedicar de início, investigar as razões do que sinto, me preservar do que não é parte de mim.

Já que é na pele que eu aprendo e apreendo a vida, já que eu só sei evoluir se eu entender e absorver o entorno, já que eu sou, ao mesmo tempo, a cobaia e o cientista na minha vida, que eu preste muita atenção em tudo, que eu pare para processar momentos e acontecimentos, que eu seja uma aluna atenta.

Há quem fica decorando as lições dos livros antigos e dos manuais de instruções, há quem passe de fase assim, por decoreba ou por confiança no que já existia antes.

Eu não, só acredito no que me entra, no que me fica, na experiência da minha pele. Ou eu sinto ou eu não sinto.

Se está certo ou errado esse meu mecanismo, quem é que pode dizer?

Pelo menos (e pelo mais também!) essa minha pele fina já não é esponja, aprendeu a ser filtro!

Não use palavras para convencer. Use palavras para transparecer e transcender!

Não são discursos que me convencem. Não são falas bem embasadas e estruturadas, cheias de teorias e muitas vezes sem tanta prática de coração e alma, não é isso que vai entrar em mim e fazer sentido.

Eu não quero parar para ouvir discussões, argumentos, discursos. Eu não quero ficar perdida, confusa, imersa numa cachoeira de palavras incisivas e vazias tentando preencher a minha dor, o meu momento confuso, a minha dúvida.

Eu não quero participar dessas conversas cheias de egos, cheias de vampirismos energéticos e politicagens, que encontram na minha fragilidade alimento.

Antes eu prefiro o silêncio. Eu prefiro o respiro, a ausência de companhia, a melodia do vento. Eu prefiro compartilhar a vibração sem verbete, sem nome, sem explicação. Só a sensação.

Eu não acredito mais no que sai das bocas ávidas e viciadas, amparadas em verdades de fora, que precisam se enterrar em palavras para não sentir algo além, mais profundo. Antes eu acredito no olhar que mergulhou, que flexibilizou, desestruturou, questionou tudo o que vem pronto.

Percebe os olhos falando mais que as falas? Os ‘não atos’ significando mais que os atos? O respeito às diferenças fazendo mais sentido do que o radicalismo das ideias?

Às vezes o sentimento mais genuíno se expressa em pequenos gestos, quase que involuntários, ou na delicadeza do silêncio que surge naturalmente quando dois ou mais seres se sentem humanamente confortáveis. Às vezes o que faz sentido na vida vem sem tanto esforço, sem tanto entendimento, sem nenhum convencimento; surge, agrada, encaixa e pronto.

Eu não acredito mais nos baralhos e barulhos dos meus pensamentos, nos jogos que eles encontram nessas palavras de cascas bonitas e conteúdo duvidoso.

Eu estouro, como bolha de sabão, cada um desses verbos, advérbios, adjetivos e nomes, para ver o que há realmente nessas caixinhas de presente. E eu tento, ainda que nessa fase de aprendiz, absorver para dentro desse peito o que realmente tem tutano, recheio, miolo, âmago.

Sentindo essas forças que vibram no corpo antes do pensamento, a energia que acalma e fortalece, o que toca essa pele fina de forma transparente; é isso o que busco, é isso que me aquece.

Que o que me persuada, convença, transforme, seja a luz boa, a fruta em semente, a criatividade das ideias frescas, a verdade sem entendimento.

Feliz dia das mães pra nós que cuidamos de gatos, cachorros, adultos, idosos, filhos dos outros e os nossos.

Feliz dia das mães pra nós que ajudamos, amparamos, educamos o marido, o amigo, o vizinho. Que temos colo e ouvido, palavras sábias e um copo de vinho, que damos suporte, atenção, carinho pra qualquer ser vivo necessitado que cruzar o nosso caminho.

Feliz dia das mães pra nós homens, mulheres, crianças, que temos sentimentos reais e incondicionais, que compartilhamos boas energias, que cuidamos da casa, das plantas, da comida, que sofremos com as despedidas, que aceitamos as partidas e que pensamos que cada pessoa nesse mundo, por mais querida e próxima que seja, deve seguir a própria vida.

Feliz dia das mães pra esse nosso instinto que cuida do mundo como um filho bem-vindo.

Voltei! Vim aqui para testar esse meu novo eu nessa velha história.

Voltei!

Aqui estou eu de novo: na sua casa, no seu entorno, na sua vida.

Você que não me deixou ir e nem me pediu pra ficar. Você com quem eu construí uma história que se despedaçou tantas vezes até eu desistir de acreditar que juntando os nossos cacos surgiria alguma estrutura harmônica.

Então, eu recolhi os meus próprios cacos e parti. Mas agora eu voltei, e ‘voltar’ não é um verbo muito bom para descrever o que eu estou fazendo aqui. Porque eu não vim buscar uma parte minha que ficou para trás, eu não vim para reviver o que a gente foi, eu não vim por saudades dos nossos momentos – bem na verdade, muitos deles eu não quero reviver nunca mais.

Meu querido, dos meus cacos existências eu não me reconstituí, eu não saí andando e me lamentando pelo que eu perdi, pelo que eu deixei de ser. Eu estou agora refeita sim, reconstruída, reeditada, atualizada na minha melhor e mais moderna versão. Eu me pesquisei, eu me observei, eu te escutei esse tempo todo não apenas com os ouvidos das emoções. Sai da minha própria pele e vi a história de fora, fora de mim, fora de nós, fora dos meus mitos, fora dos meus medos.

Da solidão encontrei minha força e meu amor próprio. Descobri o que eu gosto, o que eu quero, o que eu não quero. Aprendi a falar não, a dizer sim, a pedir, a dar opinião em voz alta, a discordar, a sair andando, a quebrar ciclos de sofrimentos. Aprendi a dar rizada de mim mesma, da gente. Que suor danado essas andanças em mim, quantas peles troquei, quantos dias meditei, quantos corações encontrei. Aprendizado intensivo de vida.

E agora voltei, você me pediu tanto e eu podia ser só orgulho e descrença e continuar no meu caminhar feminino. Mas eu resolvi parar aqui na sua porta, na sua casa, te fazer essa visita que não sei quanto tempo e espaço do meu coração vai durar. Eu voltei pra sentir que verdade vai surgir no nosso olhar.

Vim aqui não porque acredito que você mudou, que a gente vai resgatar um amor. Vim aqui pois eu resolvi testar esse meu novo eu nessa velha história.

Antes eu esperava que você adivinhasse os meus segredos, mas agora eu sou PhD em mim mesma. Antes eu esperava que você me amasse quando eu era dor, agora eu peço colo e cuidado e só fico se assim for. Antes eu esperava que você mudasse, me olhasse, parasse de ser egoísta, agora eu tenho as rédeas da minha própria vida. Antes eu estava sempre aqui pra você, agora eu estou por mim, para ver se eu caibo inteira, para ver se essa mulher madura tem lugar nesse seu pomar. Para ver se você me quer mesmo, essa minha inteireza, ou se queria o que eu era antes – frágil, apaixonada e manipulável.

Vai ser bom, muito bom esse reencontro, esse encontro novinho em folha dos nossos novos eus. Que beleza vai ser se você amar o que eu sou agora (festa nas estrelas!). E que beleza também se você não se adaptar a mim –  eu partirei, então, sem deixar passos, sem dúvidas, sem pensar no que a gente poderia ter sido e não foi.

E assim é. Então, abra a porta, estou aqui tocando a campainha do seu coração! Voltei!

Eu não quero nenhum homem comendo na palma da minha mão

Dia desses uma amiga veio me dizer: não me leve a mal, você é uma mulher evoluída, que busca tanta coisa bonita, mas às vezes deveria agir com mais razão e estratégia, por exemplo com homens, você podia dar um gelo, ser dominadora, ativa, altiva, fria, e fazê-los comer na palma da sua mão.

Eu fiquei pensando: é, eu sei, a gente pode ter esse poder, eu até sei ter se eu quiser, talvez as pessoas precisem dessas encenações para criarem ilusões, para construírem mais uma historinha para encherem as vidas, talvez o ser humano queira suprir o vício de jogos e dramas que todas essas novelas e músicas dor-de-cotovelo implantaram na nossa alma.

Eu podia fazer joguinho, dar uma de fria, controlar minhas emoções, não expressar sentimentos e sensações. Eu podia armar esquemas, traçar planos, não sair do salto, ficar num plano superior. Eu podia me mostrar sempre linda e equilibrada, poderosa e bem resolvida. Eu podia conquistar alguém por tudo isso aí e mais um pouco, por tudo isso que eu sei ser muito bem, mas... não é o que eu realmente sou.

E só de pensar no ‘fria, poderosa e bem resolvida’, só de pensar em não expressar o que eu sinto e expressar o que eu não sinto, só de pensar em medir as mensagens, em ajeitar o cabelo, em veladamente mostrar meu currículo tão bonito de vida, me dá uma preguiça!

Eu que sou a louca, que hoje esqueci a chapinha, que parei de pintar a raiz do cabelo e tive dor de barriga por duas semanas. Eu que ainda choro como criança quando baixa a TPM, eu que às vezes falo mais do que a boca e me empolgo com uma brincadeira a dois, eu que outras vezes sou silêncio absoluto, imersa num universo paralelo desconhecido.

Que preguiça eu tenho de por o salto-alto se eu sei que vou tropeçar (mesmo no salto-alto metafórico), que preguiça eu tenho de ignorar aquilo que me faz acender toda. Que preguiça eu tenho de engolir o choro e a risada, de colocar embaixo no sutiã, do corretivo e das segundas intenções tudo o que eu deveria ter vergonha de mim, ou tudo que poderia ser escondido para que uma missão fosse cumprida com êxito.

Que preguiça só de pensar em querer fazer qualquer coisa ou pessoa comer na palma da minha mão. E quantas chances boas eu perco por não querer jogar o jogo, entrar na dança? Todas aquelas que num futuro próximo trariam insegurança, e frases do tipo: você não gosta de mim, do que eu realmente sou!

Afinal, tudo que se esconde, cedo ou tarde vem à tona.

Eu não quero que ninguém coma na minha mão porque eu não quero me apertar para caber numa ilusão.

Que a gente coma sim, e de mãos dadas, que a gente coma numa mesa, numa varanda, num piquenique, lado a lado, de almas estiradas ao sol e imperfeições à céu aberto. Que a gente coma com as mãos, com as bocas, com os corpos, desde que haja vontade de comer, desde que seja um na mão do outro, um no corpo do outro, um na alma nua do outro.

Pois, pra falar bem a verdade, essa babaquice toda de conquista já não me fascina faz tempo. E quanta gente fugiu ao ver de perto a minha cara lavada de louca, muita gente mesmo! Já estou até acostumada. Mas o tesouro disso tudo é que quem ainda tem vontade de ficar por perto, é quem vale muito, mas muito a pena!

Fica aí pensando pensando enquanto eu vou ali viver

É meu querido, há tanta coisa pra se pensar antes de amar, antes de viver. Há tanta coisa pra resolver, pra passar a limpo, pra entender. Há tantos cálculos a serem feitos – medir a profundidade do mergulho, analisar se vai ser mais uma queda, uma dor, um erro. Há tantas análises psicológicas a serem feitas – será que vai ser mais uma mágoa? Será que estamos preparados? Será que ainda não é cedo demais?

É meu querido, você precisa de um tempo maior para ter certeza, você precisa de mais ingredientes para ter coragem, você precisa de mais compreensão para estar preparado para amar de novo. Mas pode ser que quando, finalmente, você tiver tudo aí na sua alma e coração, o passarinho do amor terá voado, solto, sozinho.

Enquanto você fica aí na beirada desse rio de experiências que é a vida, eu já mergulhei de cabeça e coração, fui até a outra borda, senti se dava pé, te acenei de dentro e passei de fase. Enquanto você fica aí arrumando seus aparatos para se assegurar de tudo, para salvaguardar a sua pele e dos outros (como se fosse um deus, como se isso prevenisse sofrimento), eu já me joguei, cai, aprendi com a dor dos joelhos ralados, aproveitei o vento de liberdade no meu corpo nu, deixei a energia vital transcorrer todo o meu ser.

Ah, se as coisas pudessem ser prevenidas! Ah, se o excesso de cuidado e zelo facilitasse mesmo o nosso caminhar! Ah, se a gente soubesse mesmo encontrar a hora certa de amar, se a vida se abrisse limpinha para que o que é novo pudesse entrar e o que é velho adormecesse em paz!

Mas a vida é roteiro de acasos e sustos, surpresas e imprevistos. Quem cria redomas para si mesmo não anda, não ama, não amadurece. Precisamos abrir janelas para que ventos novos nos sacudam, nos desestabilizem, nos tragam sombras e luzes. E que a gente possa ver, viver, amar de olhos abertos, aprendendo com o que é dor e aproveitando ao máximo o que é alegria. Porque, por essa mesma janelas que entram tufões, chegam doces calmarias.

Que obrigação é essa de querer só fazer escolhas certas? Que jeito de viver é esse que se apega mais aos medos do queà alegria de amar? Que desperdício de vida é esse, que prefere observar de fora, limpinho, sequinho, do que se jogar na lama, na chuva, na brincadeira?

Quando a gente anda e ama e perde os medos, a gente aprende que a nossa bagagem, o que nos fortalece e protege são as nossas experiências. A única forma de libertação é se permitindo participar da dança da vida. Quem vive com coragem, continua caindo e levantando, amando e reamando, chorando e sorrindo, e aprende que tudo é positivo, tudo é crescimento, tudo é transitório e belo. Tudo vem para agregar conteúdo e enriquecer a alma.

O medo já não existe mais, no lugar dele fica serenidade, amor e confiança.

Então, meu querido, segura minha mão e salta comigo. Tudo o que temos é esse momento divino, tudo o que podemos fazer é aprender juntos e crescer com esse encontro. Tudo o que sentimos transborda nesse presente momento e inunda a vida toda e o nosso entorno.

E que seja intenso enquanto dure!

Se você quer viver sua verdade, apenas cuide-se e relaxe. Confia!

Se você quer viver a verdade na vida, a sua verdade, não deveria se importar muito em querer saber o que vai surgir pra você depois daquela esquina, aquela curva que você ainda não consegue ver e entender.

Não adianta se preocupar em prever, não adianta agir tentando moldar situações, pessoas, sentimentos... Tudo tem o seu jeito e momento. Também não adianta se prevenir demais. O que vale sim é se cuidar, de si mesmo e do seu entorno. O que vale é encarar os medos, olhá-los nos olhos e ver quão pequenos e tolos na verdade eles são, fundamentados em ilusões de controle, apoiados em estruturas sólidas que não existem nessa vida. Tudo é efêmero e movimento, o universo tem um ritmo que a gente desconhece.

Se você quer viver sua verdade, apenas cuide-se e relaxe. Confia!

O que surgir pra você será um presente bom, porque quando a gente quer o que é de verdade e se abre para isso, o que nos chega é cristalino e bom. Talvez seja diferente dos seus planos, dos seus ideais, dos ideais de mundo, dos sonhos concretos que insuflaram no seu peito e você nem sabe mesmo se são seus.

Mas quando a gente confia e se abre para a verdade, o universo conspira a nosso favor. Então, talvez pessoas que a gente não imaginava vão embora, sentimentos que pareciam fortes volatizem no ar, estruturas grandes desmoronem, talvez nasça uma flor em um cantinho que você nem costumava olhar. Talvez surjam coisas pra você que você nem imaginava. Então deixe de dar tanto peso e importância às suas expectativas. Deixe de valorizar tanto pessoas e coisas.

Valorize a sua presença, o seu estar no mundo, o seu dia.

Se você deu o seu melhor, é isso que vale. Se coisas se afastam é porque não entrariam confortavelmente na sua dança, no seu momento de alma. E que dor seria viver, investir energias num evento, num sentimento, numa pessoa que não faz parte naturalmente do seu caminho! Você só pode ser sua verdade e seguir em frente, e continuar andando nos seus passos.

Pare sim, às vezes, para admirar as paisagens, acampe um pouco num momento se for o caso, mas não se apegue, ande, seu lar de amor vai junto com você.

Que as mãos dadas que possam surgir venham espontaneamente e voem quando quiserem, ou parem um pouco para olhar os próprios medos. Mas você não precisa entrar junto, continue no seu próprio rumo.

Relaxado e em paz. Confia.

Que tudo é surpresa e verdade em cada passo que você der.

A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo

Esses dias eu tive a sorte de presenciar a linda e forte cena de uma borboleta saindo do casulo.

Já havia visto antes um passarinho saindo do ovo. E, em ambas as situações, o sentimento que me surgiu ao assistir assim tão de perto foi dor, a dor da transformação, a dor do nascimento. Uma lagarta não vira borboleta de uma hora para outra, uma borboleta não sai de um casulo com a facilidade e a leveza que suas asas simbolizam. Vendo assim de perto, noto que é um processo longo e doloroso.

Devagarzinho a borboleta vai se despindo do casulo, com as maõzinhas cria uma fresta e vai sentindo o ar de fora, vai abrindo uma janelinha, e vai empurrando o próprio corpo ainda encolhido para fora de seu confortável abrigo. É tudo muito lento, com pausas no percurso, um passo de cada vez para se acostumar com o novo. E quando o corpo todo deixa o casulo, a borboleta ainda está toda encasulada, seu corpo comprimido, suas asas dobradas, mesmo fora da casca, sua estrutura ainda está apegada. É devagar que as asas vão se esticando, se abrindo, revelando o colorido e as dimensões.

Quanta coragem e força precisou ter esse ser intermediário entre lagarta e borboleta para poder encontrar o mais pleno de si? Quanta luta consigo mesma precisou a borboleta desempenhar para entender que mesmo que tão quentinho, confortável, familiar era a sua situação de lagarta no casulo, era menos do que ela veio ser neste mundo?

Chega uma hora de maturação que as leis do universo nos impulsionam a rompermos nossos casulos. Vai haver dor? Sim, mas ficar já não é mais uma opção.

Ah, mas e essa persona de lagarta que a gente já sabe ser? E esses territórios já tão conhecidos, os ambientes conquistados, essa facilidade de ficar nos galhos?... E essa hibernação no casulo, é tudo tão confortável (e duro!)? É mais fácil continuar sendo o que se é... Não é? Como podemos querer abrir frestas para uma nova versão de nós mesmos? E deixar para trás as nossas firmes verdades, e reaprender a andar (ou a voar!), e nos olhar no espelho e nos desconhecermos por completo?!

Como podemos querer inaugurar em nós mesmos uma nova versão de ser no mundo? Se essa que eu uso hoje já me cai bem, já conhece os caminhos (e os esconderijos). Pra que passar por uma dolorosa transformação, se eu não mais serei eu, se eu vou perder o chão que com tanto custo cultivei?! Que monstro é esse que mora em mim e que quer ser eu em meu lugar? Como eu vou deixar? Como vou parar para escutar esses ecos que vão me matar?!

Não! É melhor a gente ligar alto a televisão, é melhor se afundar no trabalho, e chegar em casa cansado pra não ter que encarar nada disso. É melhor tomar um comprimido, reclamar o tempo todo como um disco riscado e não parar para olhar o que realmente está errado e martelando na nossa alma. É melhor acreditar nessas paixões que nos machucam, nessa solidão como destino, nessa nossa condição de vítima. É melhor curvar as costas, reprimir a alma, fazer vista grossa para o que na gente quer ser grande! É melhor não escutar o silêncio e não encarar-se no espelho por muito tempo.

É melhor mesmo?

A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo...

Está nas mãos dela, está na ousadia de suas asas.

Ninguém é tão precioso assim para ser carregado nos ombros

Se algo em sua rotina te desconforta, te aperta o peito, te exige tantas adaptações que fazem você nem se reconhecer mais direito, talvez seja hora de desafrouxar a alma e mudar o roteiro.

Se há mais choros do que sorrisos, já é um grande motivo para repensar tudo. Se há mais discussões do que abraços, desate os laços. Se está mais complicado do que simples, não se preocupe em entender, deixe para trás, se há muita luta, desfaça tudo e sinta o alívio de seguir em frente.

Se você teve que engolir muitos sapos, conter os gritos, guardar as mágoas, esquecer das risadas, vomite tudo, despeje tudo, abandone, deixe as bagagens, desapegue-se dos velhos cartões postais de sua história e queira começar um novo livro.

Se pesa demais e sempre, dispa-se. Se a vida sempre está melhor nos momentos de solidão. Se fica mais leve quando você só tem que lidar consigo mesmo, se a dor que você anda sentindo não está fazendo ninguém evoluir, não traz conversas profundas, auto-observações, vontade de mudar pelo amor, daí pode ser que você está apenas repetindo um círculo vicioso, pode ser que sua vida tenha entrado num looping do eterno retorno que já não renova muito as energias, é um movimento estagnado. Aí, talvez você vá precisar de um tanto de coragem, sensatez e ousadia para colocar o corpo e a alma fora de um destino reprisado.

Ninguém é tão precioso assim para ser levado a tiracolo. Ninguém é tão importante assim que mereça um atraso no seu caminho existencial. Ninguém é tão dependente assim que não pode encontrar o próprio sustento emocional, ninguém é tão limitado assim que não pode achar as ferramentas para a própria evolução e maturidade.

Não cabe mais ninguém nos seus ombros cansados, caberia sim alguém ao seu lado, de mãos dadas. Não cabem vozes duras ofuscando seus pensamentos livres, não cabem âncoras na sua vontade de navegar, não cabem verdades irrefutáveis e inflexíveis nos seus olhos cheios de amor à vida.

Não dá para carregar alguém no lombo e ainda ser guiado para um lado que você desconfia, por valores que você desacredita. Você é o senhor do seu destino, você já sabe como renovar suas energias, você se equilibra sozinho. E não dá mais para ficar tentando balancear pessoas que se acostumaram a viver acoplados e dependentes.

Perto de você, cabem pessoas que vêm para compartilhar, para dar e receber, para ensinar e ouvir, para entender, aceitar e respeitar. Não é sendo convencido, não é se desconstruindo inteiro para poder ficar ou entrar numa história que você encontrar amor e paz.

Bem no fundo (ou talvez já no raso), você bem que já sabe por onde quer voar.

Ela é uma ave de rapina em terras de rinocerontes

Ela não ama mais como antigamente, com o brilho do romantismo ofuscando a submissão, mas ela também não ama ainda de um jeito novo, está numa fase de transição.

Ela ama pessoas acima de intenções, vê sem o filtro dos deuses, abriu a caixa de pandora, liberou os pecados e percebeu que nenhum ser humano é herói ou vilão.

Ela vive na passagem, desfez os nós das posses e ainda acredita no brilho dos olhares.

Não sonha mais com pessoas, não acredita na salvação por outras mãos, sonha com um mundo mais consciente. Quer ser respeitada em suas escolhas, inclusive na de ser solta e espontânea num país que não escuta e respeita o jeito de ser de uma versão pós moderna de mulher, pós uma era, pós conceitos que já não vingam no peito dela.

Ela é uma mulher de tantos ‘nãos’ porque aprendeu a dizer ‘sim’ para si mesma. Mulher de lutas, mesmo silenciosas, conta com as próprias mãos e tantas vezes caminha sozinha por não encontrar parceiros de desideologia.

Ela é uma ave de rapina em terras de rinocerontes, traz notícias de outros mundos em suas asas, espalha suas visões do além nos olhares acostumados.

Ela cansa, mas segue sendo presa das próprias experiências. Se usa para entender um mundo sem entendimentos, segue nua, despida de mitos em terras de zumbis agarrados à valores cegos. Acha que o mundo está intoxicado de excesso de sentidos, flerta com a possibilidade de viver sem eles.

Ela é uma criança desarmada sobrevivendo e perambulando num campo de guerras. Distribui gotas de simplicidade nos olhares viciados.

Ela é uma mulher do século XXI, ainda humana, descrente, sobrevivente, desmistificando-se mas ainda despertando mitos nos olhares, paciente com o caos de um mundo que ainda não aceitou a própria morte e justo por isso ainda não renasceu. 

Que saudade que eu estava de mim mesma!

Que saudade que eu estava de mim mesma!

Que alegria esse reencontro depois de um longo luto cego. Uma dor sem nome na alma que se esparramava e eu não sabia de onde vinha e nem sabia como voltava para os tempos em que eu era rudimentarmente eu.

Que saudade eu estava de mim mesma. Revivendo-me agora sorrio boba, com as mãos sujas de terra, com a roupa velha escolhida pela minha necessidade de liberdade e movimento.

Que saudade eu estava das minhas mãos na massa do meu próprio destino, construindo histórias e legados, que saudade do cabelo emaranhado, do sentimento de segurança e importância por ser rainha do meu umbigo e saber comandar um mundo de sonhos, por devagar e sempre e sorridente, galho por galho, pedra por pedra, saber modificar o meu entorno.

Que bonito esse reencontro que quase sem querer propiciei a mim mesma.

Que bom me esquecer dos espelhos, dos jogos, dos rótulos, dos medos. Que bom chorar por não querer parar o dia e pular da cama com vontade de viver. Que bom me vincular às pessoas pelas vontades de alma. Que bom não esperar mais de mim, dos outros, por não querer ser outra.

Que beleza esses meus braços abertos para mim mesma! Celebrando essa redescoberta quase impossível. Me reencontrando na alegria que me permiti nos dias. E dizendo-me: ‘bem-vinda! Bem-vinda! Até que enfim voltaste!’

Que saudade menina, que saudade!

Te abro as portas e janelas, te dou o tempo, as tardes, os sóis, as tempestades... Te deixo solta no seu mundo. Me ensina, me ensina! Porque eu já sabia viver, mas havia me esquecido. Porque eu já existia, mas havia morrido. Me refresque o peito, os olhos, os ouvidos... renasça alegremente em mim!

Me ajude a existir mesmo que eu não caiba neste mundo, menina.

Que saudade eu estava de ser eu mesma!

2016 – ano que exigiu da gente coragem

2016, eu não sei que dança maluca de astros foi essa, mas é fato que 10 de 10 pessoas que eu pergunto como foi o ano respondem algo como: tenso, denso, intenso.

Parece que nesse ano a vida pegou pesado com a gente, exigindo aprendizados e evoluções, pedindo que cumpríssemos lições antigas, que entendêssemos um pouco melhor nossa missão, que fechássemos ciclos e nos reinventássemos.

Aqueles velhos desafios, aquelas provas que a gente deixava pra depois, aquele contato com o nosso profundo que não ousávamos ter, desculpando-nos com a falta de tempo e com o acúmulo das tarefas importantes da vida, neste ano não tivemos como prorrogar de novo. A vida foi incisiva: evolua logo pessoa de Deus! Agora é a sua verdade ou o mundo te atropelando.

Ano que exigiu da gente coragem: os mais humildes tiveram que aprender a impor limites, a falar não, a amar mais a si próprios, a expressar opiniões, a mostrar a voz.

Como nunca, o mundo precisou ouvir os que têm a alma mais serena e andaram se escondendo nas sombras dos grandes egos.

Também exigiu coragem dos mais vaidosos e imodestos: esses tiveram que aprender a ouvir, a flexibilizar suas verdades, a ver que tudo é relativo.

A vida deu tantas chances, muitas vezes nada fáceis, mas as possibilidades de crescimento estavam aí. Muita gente empacou no espaço sem forma entre as mortes de hábitos e personalidades e o renascimento de si mesmo. Mas a vida estava aí disposta a ajudar nessa evolução, pelo amor ou pela dor. Algumas pessoas tiveram coragem de atravessar os próprios desafios.

Ano de tantos lutos este, de fechamento de ciclos. Feliz de quem, apesar das lutas, das dores, das mudanças inevitáveis e difíceis, escolheu sair do casulo e borboletar-se, e experimentar as novas asas. Feliz de quem se descobriu, despiu e libertou. Feliz de quem perdeu um pouco a noção do próprio umbigo e desenvolveu um olhar mais consciente para o íntimo.

2016 nos pediu para sermos rápidos, foi curso intensivo sem férias, foi o agora ou nunca pra tanta coisa.

O universo político deu tantas voltas e reviravoltas, e teve gente que começou a perceber que antes de revolucionar o mundo, precisamos revolucionar a nós mesmos. A micropolítica despontou mais forte, as atuações nos pequenos grupos, como cidadãos, como entidades dividindo este planeta com tantos outros seres, como a importância de olhar para fora da própria bolha de proteção e fazer o que se pode no seu metro quadrado de existência.

Foi o ano do salve-se quem puder, e quem sacou que primeiro deve-se colocar a máscara de oxigênio em si mesmo, pôde ajudar melhor ao próximo, quem aprendeu a autoconectar-se e parou com a corrente elétrica de sugação energética, termina o ano de alma lavada.

Quem parou de buscar no outro e no mundo complementos para o próprio vazio e percebeu que as fontes são internas, evoluiu.

2016 foi um ano de passagem, foi escuro, mas com o vislumbre da luz no fim do túnel, teve gente que preferiu parar no meio do caminho, fechar os olhos e se agarrar nas paredes daquilo que já não são mais. Outros, no entanto, estão colhendo os frutos de suas coragens, acompanhando a dança de um mundo que se transforma por completo.

Ano do desapego, que gerou grandes dores mas também grandes libertações porque nos empurrou mais pra perto da nossa própria verdade essencial.

 

Se for amar, não cobre e nem espere recompensas. Voe!

Se for amar, ame na presença, derrame-se no instante, não espere recompensas, não projete planos em outra alma, não cobre na mesma moeda, não ostente mais do que o momento.

Se quiser, faça um belo café da manhã e ofereça para o seu bem. Se quiser, ouça o que ele tem a contar. Se quiser, cuide, beije, presenteie, passeie, curta, aproxime-se. Se quiser, receba o choro, o silêncio, os desencontros, a tristeza.

Se quiser fique perto, fique dentro de um amor, fique na sintonia bonita que tocou seu coração. Fique o tempo que quiser, à vontade, sem pressa, intensamente sentindo.

Se quiser se entregue. Entre de cabeça nisso que lhe invade a alma, deixe que afete seus sentidos, deixe que se quebre o controle. Se quiser se jogue no precipício. Ame. Caia. Voe.

Se for amar, faça o que quiser, dê o que quiser, ofereça-se o quanto quiser. Mas não cobre nada! Não espere nada, não calcule as dívidas, não equilibre os sentimentos dados e não recebidos. Não se sinta em prejuízo. Não dê nem um simples sorriso buscando amarrar uma alma, buscando aprisionar uma realidade.

Não faça o café da manhã para outra pessoa, se amanhã você sentir que investiu e não recebeu, que cuidou e não conquistou, que ofereceu o mundo e viu no outro ser os olhos inflados de liberdade.

Não faça o café da manhã, se amanhã você for a vítima do seu próprio sentimento. Se a atitude não foi gratuita, se não foi apenas para celebrar o momento. Se foi pensando em merecer atenção, se foi querendo chantagear e criar culpa.

Não faça nada se por trás do ato houver um jogo de poder querendo controlar e fazer do outro propriedade da sua insegurança. Não faça promessas e não as espere serem feitas.

Você pode se compartilhar, você pode compartilhar seu amor, sua felicidade. Você pode fazer o café da manhã com gratuidade e desprendimento. Você pode entregar-se inteiramente àquele momento. Você pode receber um sorriso e ficar feliz com isso, e nutrir-se do que dois corpos e almas sem segundas ou terceiras intenções são capazes de produzir juntos.

Você pode fazer a eternidade durar alguns minutos. Você pode aprender a amar o passageiro, aprender a desapegar do medo de não ter, de não viver mais, de não possuir. Curtir as visitas que surgem como beija-flores pousando na floreira de sua janela.

Deixar as delicadas surpresas colorirem a sua rotina sem aventuras.

Você pode amar, enfim, sozinho ou acompanhado, gratuitamente, livremente, sem medos e sem cuidados. Amar sem escravizar e querer ser escravizado.

Perder o medo da chuva e aprender o segredo da vida.

Vem, segura a sua xícara de café fresco enquanto eu seguro a minha. Senta ao meu lado na varanda, respira sem pensar em nada. Somos apenas duas crianças brincando sem culpa.

Sou assim, uma mistura exótica de medos infantis e coragens extraordinárias.

Tenho medo de tanta coisa boba, tenho fobias em situações que muitas pessoas dão risada e tiram de letra.

Por exemplo, tenho pavor de tirar sangue. Mesmo tentando controlar a ansiedade, quando sento naquela cadeira, cai a pressão, suo frio, viro só fragilidade.

Às vezes, pareço boneca de porcelana prestes a espatifar.

Mas, tantas outras vezes, sou pura coragem e ousadia.

Tenho coragem, por exemplo, de ouvir meu coração e transformar a minha vida por inteiro só para seguir uma paixão.

Tenho coragem de desapegar do que já não me faz bem, mesmo de um grande amor, mesmo de uma vida construída, eu abro as janelas da minha alma e deixo os novos ares me renovarem.

Tenho medo de viagens de avião, de turbulências, dos pousos naquelas pistas tão pequenas dos aeroportos das grandes capitais. Nessas horas, lembro das rezas que aprendi na infância, peço proteção aos deuses, deusas e orixás. Volto a acreditar em tudo que andei duvidando.

Mas, apesar disso, eu tenho coragem de despir minha alma, de tirar minhas máscaras e mostrar por aí as minhas fraquezas, as minhas dúvidas, os meus medos, de segurar na mão do desconhecido da poltrona do lado.

Tenho coragem de falar o que penso, de ser ridícula, ingênua, louca... Tenho coragem de expor minha vulnerabilidade feminina num mundo que presa e prega a lei da força, da luta e da estabilidade emocional masculina.

Eu tenho coragem de não acreditar nas verdades que o inconsciente coletivo coloca dentro da gente. Tenho coragem de ser mais emoção do que razão e de consultar minha intuição sempre para que essa força não se perca dentro de mim.

Tenho coragem de ouvir meu ritmo interno e de acreditar na poesia e não ser submissa de um trabalho, do dinheiro, de uma convenção social.

Isso porque, acima de tudo, eu tenho muito medo de perder a vida, de deixar ela passar por mim como uma segunda-feira cheia de burocracias e tarefas banais.

Eu ainda tenho que dizer, que tenho sim muito medo de altura, daquelas subidas longas, daquelas escadas loucas, se eu olho pra baixo, sinto tontura, parece que meu corpo flerta com a vontade de me jogar. Ai eu tremo.

Deve ser porque minha alma aérea tem as asas longas e abertas e nunca teve medo de se jogar nos precipícios do amor. Nunca teve medo de se arriscar em novas paisagens quando um sentimento forte a invade.

Enquanto meu corpo treme, minha alma se expande e ri da cara do proibido.

Tenho medo do mar, das ondas que me pegam desprevenida, das matas fechadas e desconhecidas. Mas não tenho medo de mergulhar de cabeça num sonho, de amar sempre e mais, de fazer morada em corações baldios e explorar almas fechadas e de natureza selvagem.

Tenho medo sim e não me arrisco a praticar esportes radicais. O meu corpo desastrado tende a cair, quebrar, desequilibrar.

Mas enquanto isso, sou toda coragem para viver sentimentos avassaladores, explorar minhas trilhas de dentro. Minha alma dança, faz acrobacias, nua e leve, samba nos sentimentos negativos, pinta careta nas invejas, quebra as pernas das competições.

Por tudo isso (e muito mais), sou assim, essas mistura exótica de medos infantis e coragens extraordinárias. 

Sou assim, uma mistura exótica de medos infantis e coragens extraordinárias.

Tenho medo de tanta coisa boba, tenho fobias em situações que muitas pessoas dão risada e tiram de letra.

Por exemplo, tenho pavor de tirar sangue. Mesmo tentando controlar a ansiedade, quando sento naquela cadeira, cai a pressão, suo frio, viro só fragilidade.

Às vezes, pareço boneca de porcelana prestes a espatifar.

Mas, tantas outras vezes, sou pura coragem e ousadia.

Tenho coragem, por exemplo, de ouvir meu coração e transformar a minha vida por inteiro só para seguir uma paixão.

Tenho coragem de desapegar do que já não me faz bem, mesmo de um grande amor, mesmo de uma vida construída, eu abro as janelas da minha alma e deixo os novos ares me renovarem.

Tenho medo de viagens de avião, de turbulências, dos pousos naquelas pistas tão pequenas dos aeroportos das grandes capitais. Nessas horas, lembro das rezas que aprendi na infância, peço proteção aos deuses, deusas e orixás. Volto a acreditar em tudo que andei duvidando.

Mas, apesar disso, eu tenho coragem de despir minha alma, de tirar minhas máscaras e mostrar por aí as minhas fraquezas, as minhas dúvidas, os meus medos, de segurar na mão do desconhecido da poltrona do lado.

Tenho coragem de falar o que penso, de ser ridícula, ingênua, louca... Tenho coragem de expor minha vulnerabilidade feminina num mundo que presa e prega a lei da força, da luta e da estabilidade emocional masculina.

Eu tenho coragem de não acreditar nas verdades que o inconsciente coletivo coloca dentro da gente. Tenho coragem de ser mais emoção do que razão e de consultar minha intuição sempre para que essa força não se perca dentro de mim.

Tenho coragem de ouvir meu ritmo interno e de acreditar na poesia e não ser submissa de um trabalho, do dinheiro, de uma convenção social.

Isso porque, acima de tudo, eu tenho muito medo de perder a vida, de deixar ela passar por mim como uma segunda-feira cheia de burocracias e tarefas banais.

Eu ainda tenho que dizer, que tenho sim muito medo de altura, daquelas subidas longas, daquelas escadas loucas, se eu olho pra baixo, sinto tontura, parece que meu corpo flerta com a vontade de me jogar. Ai eu tremo.

Deve ser porque minha alma aérea tem as asas longas e abertas e nunca teve medo de se jogar nos precipícios do amor. Nunca teve medo de se arriscar em novas paisagens quando um sentimento forte a invade.

Enquanto meu corpo treme, minha alma se expande e ri da cara do proibido.

Tenho medo do mar, das ondas que me pegam desprevenida, das matas fechadas e desconhecidas. Mas não tenho medo de mergulhar de cabeça num sonho, de amar sempre e mais, de fazer morada em corações baldios e explorar almas fechadas e de natureza selvagem.

Tenho medo sim e não me arrisco a praticar esportes radicais. O meu corpo desastrado tende a cair, quebrar, desequilibrar.

Mas enquanto isso, sou toda coragem para viver sentimentos avassaladores, explorar minhas trilhas de dentro. Minha alma dança, faz acrobacias, nua e leve, samba nos sentimentos negativos, pinta careta nas invejas, quebra as pernas das competições.

Por tudo isso (e muito mais), sou assim, essas mistura exótica de medos infantis e coragens extraordinárias.

 

‘Eu te amo’ está mais rodado que nota de 2 reais

O que cabe dentro do ‘eu te amo’?

Quantas vezes dizemos essas três palavrinhas querendo significar tanta coisa menos carinho, amor, gratidão?

‘Eu te amo’ virou ‘bom dia’, ‘boa noite’, ‘tchau’...

‘Eu te amo’ virou pedido de desculpa esfarrapada, naquelas situações que a pessoa pisou feio na bola pela 15ª vez e vem com aquelas frases do tipo: ‘apesar de tudo o que fiz, eu te amo’. ‘Eu te machuquei, mas eu te amo’. ‘Não te dou mais atenção, mas eu te amo tanto’.

‘Eu te amo’ também é tantas vezes usado para assegurar propriedade. Você mal conhece a pessoa, se encontraram poucas vezes, e ela vem dizendo ‘eu te amo’, aí sem perceber você assinou um contrato invisível de posse. Agora, de certa forma, você pertence à ela. Afinal, a pessoa disse até ‘eu te amo’, agora você tem que cuidar do sentimento dela, você selou um contrato de responsabilidade.

‘Eu te amo’ pode ser jogo de poder, pode ser chantagem emocional, naqueles momento em que vem cheia de lágrimas nos olhos, diz um ‘eu te amo’ e amolece mais uma vez seu coração cansado.

‘Eu te amo’ tapa buracos, fica no lugar dos momentos não vividos, soluciona a falta de tempo com o parceiro, com a família, com os filhos. ‘Eu te amo’ preenche os espaços da nossa falta de criatividade, naqueles cartãozinho de aniversário, naquela mensagem morna que chega à tarde.

‘Eu te amo’ virou ‘tudo bem’, mesmo naqueles dias que estamos péssimos e alguém pergunta ‘como vai você?’, e respondemos ‘ta tudo bem’ por educação e para evitar contar nosso conflito. ‘Eu te amo’ também serve pra isso, para mascarar um ‘não ta tudo bem e eu não te amo mais’.

‘Eu te amo’ está mais rodado que nota de 2 reais.

Ah, como a gente gastou o ‘eu te amo’! Ele inflacionou, ele anda por todas as bocas, mas poucos olhares encaram um ‘eu te amo’ de frente, entregue, firme, verdadeiro. Ele sai assim sem empolgação, pela metade, meio sujinho. Ele sai com tantas emoções – choro, desespero, descaso – e poucas vezes com a emoção verdadeira do amor.

O ‘eu te amo’ está banalizado. Faz tempo que a gente já nem toma cuidado, já nem se dá conta. Vamos dizendo ‘eu te amo’ politicamente por aí, vamos usando como arma para tantas coisas. Vamos criando laços de afeto quando não estamos preparados, e rompendo conflitos que deveríamos deixar surtir efeitos em nós para colhermos os aprendizados.

Os ‘eu te amo’ falsos atrasam o florescer do nosso amor próprio, e também do amor verdadeiramente partilhado. Aquele que tem momentos de puro ‘eu te amo’ e outros de silêncio, contenção e ‘não, agora não te amo’, dessa forma, desse jeito, neste momento.

Essa coisa de ser bom o suficiente mata a gente

Muitas vezes, tudo o que a gente quer na vida é fazer parte: pertencer a um grupo, se adequar a um ritmo, caber em uma profissão, estar dentro de um amor. Queremos ser bons o bastante para merecermos recompensas.

Criamos metas na vida e seguimos em frente, em busca, mas qual é o caminho que temos que atravessar para sermos o que devemos ser?

Que coisas e seres tivemos que atropelar? Quais sentimentos e características tivemos que matar dentro de nós? Quantos sapos a gente teve que engolir? E quantas puxadas de tapetes tivemos que dar?

O que o nosso caminhar fez a gente se tornar para que pudéssemos chegar aonde gostaríamos? Que adaptações tivemos que desenvolver para caber num amor, num trabalho, numa amizade?

Eu acho que se adaptar demais faz mal.

Eu acho que o medo do não ter, do não ser, de ficar pra trás, de ficar sozinho pode nos fazer entrar em barcos furados na pressa de não perder a viagem. 

A gente entra despreparado, cego, cru em situações, e depois fica se limitando, se podando, se moldando, se adequando ao que não se ajusta à nossa alma.

Quantas vezes nessa vida a gente tem que se espremer para cabe, silenciar para evitar conflitos, engolir dores por medo, ficar para não desagradar, fazer vista grossa até que nossos sentidos fiquem anestesiados?

Mas, muito pior do que não arranjar conflitos é o incomodo do que não foi dito.

Muito pior do que a solidão, é estar perdido dentro de si mesmo perto do outro. Muito pior do que perder as garantias é ter todas e não ter a vida.

Existe uma paz genuína em quem tem a coragem de não sabotar a si mesmo.

E eu desejo e espero que a gente aprenda a não se moldar pela força da mente, pela conveniência da situação, pelo ritmo insano do mundo, pelo medo de perder tudo. Que a gente não se molde pela carência, pelos olhares alheios, pelas aparências.

Que o que nos guie seja uma força maior e tão mais simples, que vem aqui de dentro. Que a gente se encontre no encaixe dos olhares, na intimidade das mãos, na fluidez do caminhar.

Que a gente não pode demasiadamente nossas asas e nem perca completamente o próprio chão. Que a gente não empaque no meio do caminho e não saia correndo desenfreadamente para qualquer direção.

Que a gente não se limite. Que a gente contemple o caminho que andamos e desenvolvamos a nossa melhor versão.

Que a gente grite, transpire, pire, desmistifique, se assim for preciso.

E toda vez que percebermos que estamos demais ou de menos numa situação, mesmo que seja um sopro bem lá no fundo nos dizendo, que a gente se ‘desinvente’ e se reinvente até sentirmos que a vida é mesmo isso: uma grande transformação.