essa maldita empatia exacerbada

Eu sempre entendi os encantamentos dos outros olhos, os amores compartilhados, o distanciamento repentino e a voracidade de uma aproximação. Eu entendi as necessidades do outro, os atropelos por uma honestidade consigo mesmo, entendi a dor, o sofrimento. Eu olhei com olhos humanos as despedidas bruscas, as chegadas inesperadas. Fechei as portas quando só ouvia o barulho de um vento gelado e nada mais entrava. Abri as janelas para primaveras insistentes, dancei a dança da súbita felicidade quando meus olhos vagos miravam o chão. Eu entendi a dúvida em forma de silêncio, os ecos da não comunicação, eu entendi o peso da indiferença, a falta de energia, a rejeição. Entendi a substituição dos protagonismos, os cortes nas participações. Entendi o atraso da percepção, o arrependimento quando já era tarde, a luta para colar os cacos esfarelados de um coração. Eu senti a irritação na presença, a sede de novidade, o sopro de morte amargando os cafés da manhã. Senti as costas doloridas pelo peso existencial da vida de um homem. Senti o ancorar de cada lágrima, a absorção impune da pele, a barba crescendo e o álcool entrando nas veias machucadas. Senti seu travesseiro virando meu colo, as novas mulheres que causavam ainda mais irritação. Senti a raiva, a fúria, a vontade de pegar o primeiro avião. E porque senti tudo o que não era meu, e porque os olhares de dor são como punhais em meu peito, e porque seus pesadelos invadiam o meu momento de meditação; a minha luta de seguir os meus passos, cruzar a maré, nadar na contramão, de romper os nós e seguir a intuição foi sempre um esforço sem tamanho. 
Essa coisa de sentir pelos dois lados, de absorver doçuras e toxinas, de entender que tudo é parte do humano, de ter piedade nos gestos. Essa coisa de ser empático demais, de ouvir demais, de não saber não se importar e andar sem olhar pra trás. Essa coisa de não ter aprendido a deixar que cada um viva sua própria alegria ou ruína... essa coisa toda sem pés nem cabeças, sem heróis ou vilão. Como é que se relaxa os ombros quando o mundo pulsa na minha vibração?

Outro dia desses eu me divorciei

Outro dia desses eu me divorciei.

Saí da casa, da vida, da rotina.

O luto foi longo sim, luto de separação é sempre complexo. Vem a culpa, vêm os medos, as questões morais, a solidão, a loucura, a saudade, os apegos e os desapegos, os heróis e vilões, as roupas sujas expostas na sala de visitas.

Outro dia eu me divorciei.

E tanta gente me perguntou o porquê.

Me disseram que relacionamentos são complexos, difíceis mesmo. Que a gente tem que enfrentar os desafios diariamente. Que a gente tem que passar por cima de tanta coisa, fazer vista grossa, tem que reconstruir, perdoar, recomeçar inúmeras vezes.

Mas ninguém diz como é mais difícil ainda ser outro dentro de um ciclo vicioso, ninguém conta como é quase impossível mudar as células viciadas em padrões, quebrar os comodismos culturais dentro de um acordo pré-estabelecido. Ninguém diz que normalmente o equilíbrio pende mais para um lado, que os corpos se ajustam às injustiças dos espaços mal divididos, que as mentes se aquietam para poderem ter energia para concretizar o desafio de pagar as contas no fim do mês.

Ninguém diz que esse passar por cima de tudo é na verdade tantas vezes um passar por baixo, é esconder atrás dos cômodos e das almas as dores e as alegrias. É passar por baixo de si mesmo. É voltar, é continuar, é engolir melhor os sapos que vão denunciar os coachados dois meses (ou semanas) depois dos elos reatados e dos perigos amenizados.

É tudo muito sério para deixar de lado.

Dói, é verdade.

Mas, mesmo assim, outro dia desses eu me divorciei.

Porque depois de ser adulta por tantos anos, eu quis voltar a ser espontânea.

Quais os motivos? Me pergunta alguém.

Eu não sei bem... mas sabe quando a gente é criança e a brincadeira está tão boa que a gente se esquece de sentir fome, de olhar as horas, de trocar de carro, e pensar na pós-graduação do filho mais novo?

Sabe quando a gente é criança e encontra um amigo do peito bom de brincar e a gente nem pensa em saber qual é o passado dele, a profissão, as visões de futuro, o dia de amanhã... A gente nem lembra de notar a cor dos olhos dele, eles apenas brilham, a gente não repara nas diferenças, a gente apenas se perde na alegria, no momento.

A gente entra na terra úmida, sobe na árvore, joga a bola alto.

Se o amigo for bom de brincadeira, a gente sem querer querendo fica perto.

Mas, se o amigo é chato, cheio de regras, de competições e conversas, chorão, reclamão, a gente anda, voa, desencana daquela energia. Uma hora a água da vida bate na bunda e a gente desatina. 

A gente se divorcia.

Dia desses eu me divorciei e até o mito de abrir o vidro de azeitonas e a garrafa de vinho se desfez, deve ser porque até meus músculos estão mais despertos.

E não levanto a solidão como bandeira não. Apenas celebro a coragem, a vida, a possibilidade de ser dona de mim. E os amores mais genuínos que virão.

A gente é feito de pele e osso, mas também de remendos dourados

Dói um pouco mais depois passa.

Não há como evitar pequenos traumas na vida, não dá pra fugir de alguns joelhos ralados, do sol que queimou a pele, do frio que cortou os lábios.

A gente é feito de pele e osso mas também de remendos, de regenerações, de células que renascem, se reestabelecem e se reinventam.

O coração quebra às vezes, mas vai virando uma obra de arte mais bela e resistente, como a arte japonesa de kintsugi. Somos um mosaico de porcelana remendados com fios dourados.

Nossos olhos, depois de tantos tombos e tropeços, deixam de ser ingênuos, ficam espertos, mas depois de mais alguns dessabores e anestesias que criamos para nos proteger, deixamos de ser espertos também e decidimos voltar a ser sensíveis para poder degustar bem a vida.

Nessa fase a gente se torna sábio – somamos a bondade e a alegria de viver com a firmeza nos passos. Mergulhamos na vida sem tantas máscaras e amarras, com intenções verdadeiras, mas filtrando o que não agrega, o que limita os voos mais altos.

Olhamos com doçura, já não evitamos quedas, não queremos viver numa bolha que nos furtaria a própria vida, mas já sabemos nos cuidar sozinhos. Respiramos fundo, temos paciência com o tempo de cicatrização de uma ferida, tropeçamos e levantamos de imediato, limpando a poeira do corpo e seguindo em frente. A gente já não tem mais medo de se machucar, a gente tem medo de tornar a vida menor do que poderia.

Dói um pouquinho, não há como evitar.

Pra gente aprender a andar de bicicleta sem rodinhas, a gente cai algumas vezes, a gente chora, mas depois a gente pode voar.

Ficam marcas na pele, emendas nos ossos, cicatrizes nos músculos. Ficam histórias na memória, aventuras e aprendizados. Fica coragem, amor e gratidão no nosso coração.

É melhor que doa um pouco alguns desses nossos passos e tropeços, é melhor que, por vezes, a gente arme nossa alma em cima de um formigueiro, e logo perceba, feche o acampamento e vá embora encontrar uma paragem em que a nossa alma possa ficar um pouco mais e se perder na imensidão de si mesma.

É melhor que a gente erre para depois acertar, é melhor que a gente experimente antes de evitar, é melhor que a gente ame antes de se transformar num autômato que passa pela vida sem se sujar.

Dói um pouco mais depois passa.

Não é que eu não te perdoei, é que você não passou no meu filtro

Chega uma hora em que a gente quer seguir com passos firmes na vida, quer olhar pra frente e seguir pelos caminhos que valem a pena. Chega uma hora que a gente aprende a ter um olhar observador, que a gente se conhece um pouco melhor e sabe como não cair tão facilmente nas armadilhas dos medos, das culpas, das ilusões amorosas. 

Chega uma hora em que a gente quer viver coisas de verdade, conviver com pessoas de verdade, entrar em aventuras para evoluir e não para se divertir e se estrepar; a gente sabe que o tempo é curto, que a vida é rara, que não dá para parar e prestar atenção em tudo, não dá para ouvir o que estão pensando e falando da gente, não dá para pegar no colo dores emocionais que já não nos dizem respeito.

Tem uma hora que a gente decide não tentar consertar o que não tem mais jeito, que a gente já não quer discutir com pessoas que estão em caminhos tão diferentes, que a gente não acredita em gastar tanta energia para mudar uma pessoa - seja um amigo, um namorado, um parente...

Chega uma hora em que a gente não quer gastar tempo e coração remoendo, tentando viver de novo algo que não encaixou bem, a gente não quer mais se explicar, não quer mais se culpar por ter abandonado uma causa, não quer mais se sentir mal por amar mas decidir seguir o que nos engrandece e não o que nos limita e escraviza.

E a gente deixa sim pessoas que foram importantes para trás, a gente já não tem interesse em responder mensagens, em se sentir mal por já não cuidar como antes. Podem chamar isso de egoísmo, mas eu acho que é um altruísmo na verdade – não querer atrasar o próprio caminhar e também deixar que a outra pessoa desperte para o seu propósito.

É um momento em que gente já não quer ser muleta, ouvido, colo... A gente quer ser troca; a gente não quer ceder energia, a gente quer reciprocidade. A gente não quer fazer por merecer, a gente quer ser a nossa verdade e sabe que para pessoas que valem a pena, isso basta, o que somos é suficiente e bom.

Por isso eu acredito em ter os olhos abertos e seletivos, e o coração também. Que o meu coração saiba se respeitar em sua amplitude e necessidades.

Eu acredito que a gente pode aprender a ver o que vale a pena seguir do nosso lado e o que a gente tem que deixar de lado.

Eu acredito que a gente tem que filtrar, abandonar, perdoar sim, mas não querer mais participar de danças que nos limitam, irritam, fragilizam.

E eu ouvi por aí esses dias de um amigo:
‘mas você não me perdoou?’
e eu disse:
‘não foi isso querido, eu perdoei sim, mas você não passou no meu filtro.’

Que loucura falar isso, que loucura fazer isso – pode parecer. Mas pra mim, liberdade mesmo é isso: seguir minha vida e ser dona do meu próprio umbigo. E o que vale a pena vem junto comigo!

O que chamam de ‘amor livre’ pode ser um machismo disfarçado

Dizem por aí que amor livre é quebrar os moralismos, ser dona de si, não se prender a nada e a ninguém.

Mas eu acho que nisso tudo há alguns poréns.

Se por um lado tantas crenças do passado faziam a mulher ter o corpo fechado, nessa nossa liberdade anunciada de agora, em que a gente se abre totalmente, não se cuidar, se proteger, se conhecer e se amar, torna esse outro extremo da realidade tão ruim quanto antes.

Pode ser que viver o amor livre seja uma forma mais moderna de exercitar o machismo e tornar o corpo da mulher ainda mais território público, já pensou nisso?

Por mais que a gente saiba o que quer, do que gosta. Por mais que a gente veja e tenha consciência. Para se cuidar, se respeitar e realmente ser livre, é preciso uma observação profunda, é preciso encarar medos e quebrar mitos. É preciso primeiro viver por dentro a mudança e depois estar (diferente) no mundo.

Não adianta sair de nariz empinado, mostrar segurança nos passos, soltar o corpo e a mente, se no dia seguinte a gente chora sozinha, a gente espera a mensagem que não chega, a gente quer um carinho, a gente se torna possessiva, competitiva, insegura...

E eu não estou defendendo a síndrome de princesa e muito menos querendo voltar no tempo!

Eu acho que a gente tem que ser o que bem queira: rainha, gatinha, tigresa...

Mas desde que a gente se conheça. Porque me parece que ainda hoje, entre tantas mulheres que se dizem evoluídas, soltas e livres, a briga é competitiva e é pela conquista do troféu fálico.

E, na minha opinião, deveria ser bem o contrário.

Se fosse liberdade mesmo isso que a gente vive, as pessoas estariam sorrindo, se amando, se curtindo, se respeitando mais do que se machucando.

As mulheres podem ter conquistado muita coisa, mas a gente ainda busca ser amada, respeitada e livre. Ainda é tão forte essa luta.

Tanto faz se poderosa ou fracassada, sozinha ou acompanhada. Ao invés da gente alimentar nossas carências, nos abrindo para qualquer mané ou cara e não receber nem um terço do que a gente precisava, é melhor encarar a empreitada de curtir a nós mesmas acima de tudo e valorizar o nosso profundo.

Que a gente perceba que liberdade mesmo é despir-se de corpo e alma, e que se for só pela metade não vale a pena, não vale a noitada, não toca a nossa verdade e o voo se torna raso, é uma prisão disfarçada...

Então, que só entre na gente (na alma, no corpo, no espírito) o que fizer sentido, o amor que nutre, a liberdade que alivia.

Não podemos querer que alguém saia do seu próprio caminho para seguir o nosso

A gente não pode se frustrar com o caminho dos outros.

A gente não pode punir alguém por suas escolhas, seu jeito de encarar a vida, seu modo de estar no mundo.

A gente só pode observar com amor e seguir o nosso próprio rumo.

A gente não pode se doer porque o outro não é como gostaríamos, porque a outra pessoa está num momento diferente, num outro passo, numa outra paisagem, num outro aprendizado.

A gente não pode ficar bravo porque, na nossa visão, uma pessoa parece não ver o óbvio, porque ela não desperta na mesma primavera que a gente, porque ela não escolhe o mesmo canteiro para cultivar, porque ela não se interessa pela mesma luz que vemos. A gente não pode dizer ‘venha ver o sol, que daqui da minha janela é tão lindo!’ Se a pessoa está no outro polo admirando a lua.

A gente não pode se revoltar com uma vida que não é nossa, com escolhas de outras almas, por sintonias diferentes. A gente não pode esperar que as frequências se igualem, ou melhor, podemos esperar, mas sem almejar, sem lutar, sem controlar. Qualquer luta destrói a delicadeza da liberdade.

A gente não pode achar que o nosso caminho é melhor, a gente não pode querer cuidar, se a pessoa não quer ser cuidada, a gente não pode esperar que regando uma flor ela se abra. A força da natureza das coisas é maior do que a de nossas mãos sedentas.

A gente só pode observar com amor e seguir o nosso próprio caminho.

A gente também não precisa parar e esperar, olhando para ver no que vai dar, acompanhando outro caminhar e torcendo para que ele possa, enfim, nos encontrar.

A gente não precisa saber o que se passa em outras cabeças. A gente não precisa entender os quebra-cabeças de outras almas.

A gente só pode olhar com amor, sem se envolver, respeitar e seguir o próprio caminho.

Liberdade é seguir, mesmo que sozinho, e encontrar belezas e surpresas que chegam sem esforço, sem empenho.

A gente só pode se empenhar em viver o próprio caminho.

Pra que se revoltar, sofrer se frustrar com alguém que não veio, que não viu, que não percebeu, que não entrou quando estávamos dentro? Pra que se esforçar para ensinar a lição que já sabemos de cor e salteado? Pra que exigir, reclamar, julgar, criticar as cenas do caminhar dos outros?

Livre arbítrio é andar no próprio ritmo, sendo o que se é sem medo de ferir, ajudando e sendo ajudado sim, mas com amor, com aceitação, com liberdade. Incondicionalmente.

Relaxar e deixar que cada um seja a própria escolha, a própria escola, a própria visão de mundo, a própria necessidade do momento.

Foto - Elizabeth Gadd

Tudo o que eu quero para esta noite é um miojinho

Como é bom aquela noite no mês em que a gente se arruma toda, coloca o vestido decotado, a lingerie de renda, o batom carmim, o rímel importado, escolhe um lugar especial para ir jantar com o namorado. Pesquisa com cuidado um restaurante bonito, requintado, que serve comida diferente, cheia de detalhes, um vinho importado, uma sobremesa incrementada.

Uma noite especial pra gente quebrar a rotina, gastar o salário, e sentir agradando a si mesma, como se fosse uma noite de princesa.

E para ser princesa, para viver essa ilusão toda, a gente se esforça, se transforma, a gente cria a atmosfera e espera o melhor de cada momento. Assim a gente valoriza mais a vida.

Mas, sinceramente, numa noite como esta de hoje (e como tantas outras), é bom eu deixar aqui registrado, falar alto, e agradecer ao bendito chinesinho que inventou esse macarrãozinho! Que a minha felicidade de hoje é comer um miojo quentinho debaixo do cobertor.

Ah, o meu miojinho! Ele está ali sempre que eu preciso, pra matar a fome, pra quebrar um galho, pra tapar o meu buraco no estômago. Ele é a resposta mais fácil, acessível, rápida. Vira uma sopa que me conforta o corpo, traz sabor da infância, nem muita louça suja.

Vai bem na frente da TV, combina com a minha calça velha (e mais confortável) de moletom, combina com filme ruim, com cabeça que não quer pensar em nada, com final de domingo.

Ele pode não ser nada requintado, criativo, mas ele sabe me esquentar por dentro.

Ele não liga para o prato, para a mesa, para o talher, para a mulher que segura o bow, ele não se importa se a calcinha é velha, se é madrugada ou meio da tarde. Ele é companheiro, para o que der e vier!

Não precisa de luta, não precisa de jogo de cintura, não precisa de grande investimento de tempo, dinheiro e energia.

Talvez ele não alimente com muitos nutrientes os meus sonhos indecisos.
Mas ele sacia a fome do meu corpo e ampara a carência da minha alma.

De vez em quando é bom um jantar de gala. Mas para todos os dias, bom mesmo é o que está bem ali no armário da cozinha. E que minhas mãos não precisam fazer força nenhuma para alcançar!

Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas

Tenho medo das manipulações genéticas do amor!

Essa coisa de pensar, de analisar, de jogar, de manipular pessoas, corações, momentos, intenções.

Essa coisa de querer colocar as mãos e as expectativas da mente nos sentimentos, de exigir um formato, de direcionar o percurso, pode ser que desestruture um caminhar sereno de evolução e adaptação.

Será que o tempo, a terra, as transformações do entorno não se ocupam de arrumar os destinos? De fazer com que corações se encaixem ou se distanciem?

Tem semente que vinga, cresce bonita, se ajusta ao solo, ao clima, e tem semente que simplesmente não germina. E assim é a vida.

Forçar a barra para que algo nasça, cresça, se desenvolva no tempo que esperamos, da forma que esperamos; exigir que tenha uma forma, uma cor, um aroma; arrancar os defeitos; manipular as curvas do amor, é colocar agrotóxico, é modificar a essência.

Plante, mas tire os olhos da terra; ame, mas serene o coração.

Ame como quem planta, como quem semeia com as mãos, como quem sabe respeitar as estações, as terras (férteis e inférteis), os períodos de seca e de abundância, as sementes que germinam e as que morrem. Ame como quem planta com poucas ferramentas, mas com muito intento - relaxado, semeando amor, mas sem saber bem de onde virão os frutos, que árvores vingarão. Porque amores novos (e velhos também) precisam de uma dose de carinho e cuidado, mas também de outra grande porção de distração e relaxamento. Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas.

O que é orgânico leva um tempo e uma vontade própria. Deixe que venha ou não venha. Deixe que seja a verdade. Se vier, vai ser para nutrir a alma. Se não vier, é porque não seria bom alimento.

Há sentimentos que não crescem porque não têm energia por dentro.

Respeite os ciclos das sementes, das pessoas e dos corações.

Que o amor seja orgânico e não geneticamente modificado!

'Como assim você se apaixonou por mim?!' - carta de uma alma líquida

Que facilidade e vulnerabilidade a sua de ir abrindo assim o coração! Que fraqueza é essa em me mostrar os olhos vermelhos de choro e dizer que se envolveu?!

Meu bem, quantos anos você tem? Em que mundo vive? Em que tempo parou?

Que coração mole é esse? Que alma entregue é essa? E que conceitos antigos?!

Você não acredita em amor livre?

Como assim você foi se apaixonar por mim?

A gente transou muitas vezes movidos pelo tesão. Foi tudo tão intenso porque a vida é para aproveitar o momento. Eu só disse que te amo olhando nos olhos porque eu gosto de exercer a minha liberdade de expressão.

E você construiu um mundo em cima disso?

Ah, essas suas expectativas, você tem que olhar bem pra elas e tratá-las. Não fazem bem...

Não me leve a mal, você é sim uma pessoa especial para mim, mas agora eu não tenho energia e nem tempo, (tenho que ir ali ver se a minha técnica funciona bem com outra mulher. Tenho que ir ali massagear o meu ego, tenho que fazer sucesso, ficar por cima, tenho que começar do zero...).

Desculpe, não dá tempo de conversar sobre temas essenciais com você. Tenho um mundo para conquistar. Tenho uma carreira para cuidar, tenho coisas importantes para me ocupar.

Não dá tempo de te ouvir, mas você pode vir aqui às vezes, a casa é sua! E o carinho continua. Somos amigos coloridos. Só não gosto da sua TPM, é bom a gente saber... E você vai estar sempre no meu coração, como uma dessas histórias especiais que ficam na memória.

Não chore assim não! Eu não sabia que você era assim tão sensível, nunca foi a minha intenção te fazer sofrer. Se eu insisti tanto para ficar com você foi porque o universo conspirou (e você ficou dando uma de difícil e fechada e virou um desafio). Agora eu já peguei o que eu precisava, e eu pensei que você fosse uma mulher mais forte, livre, moderna... Dona de si!

E agora está assim, na palma da minha mão. Como pode?

Me desculpe, mas eu lavo minhas mãos. Não posso me responsabilizar por ter te conquistado.

A dor é sua.

Fica bem!

Do seu querido Vampiro de Energia.

Eu já não miro as estrelas. Meu alvo na vida está logo ali na esquina.

Tudo o que é grande já não me fascina, todo o esforço que me faz mudar toda o meu entorno e a minha rotina não me ativa por dentro.

Não sei se é velhice de alma, canseira dos passos, mas meus olhos já não se deslumbram com as conquistas homéricas, os amores arrebatadores, as histórias grandiloquentes.

Só de pensar em querer conquistar o que não está ao alcance fácil e genuíno das minhas mãos, dos meus pés e da minha alma simples, eu me canso, eu desisto mesmo antes do início. Porque eu quero o que me cabe e, mais importante, onde eu caibo sem ter que ser mais nem menos, sem ter que estufar esse meu peito franzino.

Só de pensar em me munir de ferramentas, atributos, armas de ataque pra sair à luta e conquistar recompensas grandiosas, corações dificílimos, amizades poderosas, posições profissionais-pessoais-sociais importantíssimas, já me canso e não me arrisco.

Ter um alvo lá nas nuvens, atirar nas estrelas para atingir o Monte Everest, não, isso já não me apetece. Meu alvo é aqui pertinho, está logo ali na esquina, deve se parecer comigo, é algo singelo e tranquilo.

Quero uma conversa boba, um ombro amigo, um amor pela vida mais do que pelos prêmios do mundo. Quero um pijama velho, uma janta simples, um pão com ovo bem feitinho, um chuveiro quente e um travesseiro com sonhos bonitos.

Glória pra mim é ver o manjericão virando arbusto no canteiro, é pagar as contas do mês, é ter tempo para escrever um poema inteiro.

Vida pra mim é a trégua, é o porto seguro onde minha alma pousa serena. Amor pra mim é o respiro de alívio, é uma companhia com menos exigências e mais carinho.

Eu já não me debato para conquistar algo mais alto, não quero nem o castelo nem o príncipe encantado. Eu já não me puno por sair de perto quando me sinto insegura, eu já não me saboto e me engano achando que eu tenho que cumprir tantos planos para me sentir mais satisfeita comigo mesma.

Está tão perto a minha riqueza. É o que cresce e se ajusta sem tanto esforço assim; tudo o que tem cheiro de lar, onde eu posso entrar e ficar à vontade. Onde eu não preciso mudar minha essência para poder me encaixar e merecer fazer parte. Porque o que eu sou já é o bastante.

E por isso eu posso ficar em paz e usar minhas energias para investir mais em crescer como ser humano.

Quando a gente tem medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade

Minha pele é fina, tanta coisa me passa, transpassa, entra, atravessa!

É fácil que o mundo externo encontre contexto nesse meu caos sensível de dentro.

Não é à toa que sou a primeira pessoa a dar um grito no cinema num daqueles filmes de suspense. Às vezes, as dores do mundo parecem passar diretamente dos olhos para o meu coração. Tem dias que as notícias do mundo me atingem como uma punhalada no peito: quanta crueldade, quanta competição, quanta coisa ruim acontecendo. Ai meu Deus, eu não aguento!

Minha pele é fina, me arrepia a energia que chega, mesmo antes de virar pensamento concreto. Será isso sexto sentido? Será essa pele invisível que vive acima da nossa epiderme? Essa coisa de perceber coisas antes de cheirar, de olhar, de escutar... de tocar. Deve ser bruxaria...

Essa pele fina que eu não sabia lidar, palavras facilmente podiam me machucar, assim como um olhar punitivo, um sorriso indefinido, antes de eu entender o porquê, antes de eu saber me proteger, eu me inundava de emoções.

Eu tinha medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade.

Eu temia criar em mim uma capa protetora e viver anestesiada.

Eu tinha medo de que não estar exposta me faria estar fria, cega, caminhando na superfície das experiências.

Eu tinha medo de me prevenir de tudo e assim, esquecer como sentir a vida in natura.

Mas hoje, mesmo com essa pele ainda fina, eu penso diferente. Tento não ser nem 8 nem 80. Eu ando aprendendo:

Posso ser a sensibilidade com a aura intacta. Posso ser a flexibilidade sem perder a estrutura. Posso entender sentimentos e compartilhar deles sem ter que ficar aos cacos.

Eu posso observar as minhas emoções e as dos outros sem imediatamente me confundir com elas. Do baile de carnaval, eu posso sair um pouco da dança e assistir da arquibancada, a escolha de entrar ou não na avenida tem que ser minha.

Às vezes eu danço uma marchinha, aprendendo, passando bem. Às vezes eu entro debaixo de uma chuva para ver o que é que vem.

O que sempre fica de tudo – rasteiras, ou leves brisas – sou eu sem tantos pesos. O que fica sou eu prestando atenção nos ensinamentos de um evento que foi denso para não ter que fazer aula de recuperação depois. Sou eu observando, equilibrando razão e emoções.

Demorou, mas tenho aprendido que é melhor colocar energia e me dedicar de início, investigar as razões do que sinto, me preservar do que não é parte de mim.

Já que é na pele que eu aprendo e apreendo a vida, já que eu só sei evoluir se eu entender e absorver o entorno, já que eu sou, ao mesmo tempo, a cobaia e o cientista na minha vida, que eu preste muita atenção em tudo, que eu pare para processar momentos e acontecimentos, que eu seja uma aluna atenta.

Há quem fica decorando as lições dos livros antigos e dos manuais de instruções, há quem passe de fase assim, por decoreba ou por confiança no que já existia antes.

Eu não, só acredito no que me entra, no que me fica, na experiência da minha pele. Ou eu sinto ou eu não sinto.

Se está certo ou errado esse meu mecanismo, quem é que pode dizer?

Pelo menos (e pelo mais também!) essa minha pele fina já não é esponja, aprendeu a ser filtro!

Não use palavras para convencer. Use palavras para transparecer e transcender!

Não são discursos que me convencem. Não são falas bem embasadas e estruturadas, cheias de teorias e muitas vezes sem tanta prática de coração e alma, não é isso que vai entrar em mim e fazer sentido.

Eu não quero parar para ouvir discussões, argumentos, discursos. Eu não quero ficar perdida, confusa, imersa numa cachoeira de palavras incisivas e vazias tentando preencher a minha dor, o meu momento confuso, a minha dúvida.

Eu não quero participar dessas conversas cheias de egos, cheias de vampirismos energéticos e politicagens, que encontram na minha fragilidade alimento.

Antes eu prefiro o silêncio. Eu prefiro o respiro, a ausência de companhia, a melodia do vento. Eu prefiro compartilhar a vibração sem verbete, sem nome, sem explicação. Só a sensação.

Eu não acredito mais no que sai das bocas ávidas e viciadas, amparadas em verdades de fora, que precisam se enterrar em palavras para não sentir algo além, mais profundo. Antes eu acredito no olhar que mergulhou, que flexibilizou, desestruturou, questionou tudo o que vem pronto.

Percebe os olhos falando mais que as falas? Os ‘não atos’ significando mais que os atos? O respeito às diferenças fazendo mais sentido do que o radicalismo das ideias?

Às vezes o sentimento mais genuíno se expressa em pequenos gestos, quase que involuntários, ou na delicadeza do silêncio que surge naturalmente quando dois ou mais seres se sentem humanamente confortáveis. Às vezes o que faz sentido na vida vem sem tanto esforço, sem tanto entendimento, sem nenhum convencimento; surge, agrada, encaixa e pronto.

Eu não acredito mais nos baralhos e barulhos dos meus pensamentos, nos jogos que eles encontram nessas palavras de cascas bonitas e conteúdo duvidoso.

Eu estouro, como bolha de sabão, cada um desses verbos, advérbios, adjetivos e nomes, para ver o que há realmente nessas caixinhas de presente. E eu tento, ainda que nessa fase de aprendiz, absorver para dentro desse peito o que realmente tem tutano, recheio, miolo, âmago.

Sentindo essas forças que vibram no corpo antes do pensamento, a energia que acalma e fortalece, o que toca essa pele fina de forma transparente; é isso o que busco, é isso que me aquece.

Que o que me persuada, convença, transforme, seja a luz boa, a fruta em semente, a criatividade das ideias frescas, a verdade sem entendimento.

Feliz dia das mães pra nós que cuidamos de gatos, cachorros, adultos, idosos, filhos dos outros e os nossos.

Feliz dia das mães pra nós que ajudamos, amparamos, educamos o marido, o amigo, o vizinho. Que temos colo e ouvido, palavras sábias e um copo de vinho, que damos suporte, atenção, carinho pra qualquer ser vivo necessitado que cruzar o nosso caminho.

Feliz dia das mães pra nós homens, mulheres, crianças, que temos sentimentos reais e incondicionais, que compartilhamos boas energias, que cuidamos da casa, das plantas, da comida, que sofremos com as despedidas, que aceitamos as partidas e que pensamos que cada pessoa nesse mundo, por mais querida e próxima que seja, deve seguir a própria vida.

Feliz dia das mães pra esse nosso instinto que cuida do mundo como um filho bem-vindo.

Voltei! Vim aqui para testar esse meu novo eu nessa velha história.

Voltei!

Aqui estou eu de novo: na sua casa, no seu entorno, na sua vida.

Você que não me deixou ir e nem me pediu pra ficar. Você com quem eu construí uma história que se despedaçou tantas vezes até eu desistir de acreditar que juntando os nossos cacos surgiria alguma estrutura harmônica.

Então, eu recolhi os meus próprios cacos e parti. Mas agora eu voltei, e ‘voltar’ não é um verbo muito bom para descrever o que eu estou fazendo aqui. Porque eu não vim buscar uma parte minha que ficou para trás, eu não vim para reviver o que a gente foi, eu não vim por saudades dos nossos momentos – bem na verdade, muitos deles eu não quero reviver nunca mais.

Meu querido, dos meus cacos existências eu não me reconstituí, eu não saí andando e me lamentando pelo que eu perdi, pelo que eu deixei de ser. Eu estou agora refeita sim, reconstruída, reeditada, atualizada na minha melhor e mais moderna versão. Eu me pesquisei, eu me observei, eu te escutei esse tempo todo não apenas com os ouvidos das emoções. Sai da minha própria pele e vi a história de fora, fora de mim, fora de nós, fora dos meus mitos, fora dos meus medos.

Da solidão encontrei minha força e meu amor próprio. Descobri o que eu gosto, o que eu quero, o que eu não quero. Aprendi a falar não, a dizer sim, a pedir, a dar opinião em voz alta, a discordar, a sair andando, a quebrar ciclos de sofrimentos. Aprendi a dar rizada de mim mesma, da gente. Que suor danado essas andanças em mim, quantas peles troquei, quantos dias meditei, quantos corações encontrei. Aprendizado intensivo de vida.

E agora voltei, você me pediu tanto e eu podia ser só orgulho e descrença e continuar no meu caminhar feminino. Mas eu resolvi parar aqui na sua porta, na sua casa, te fazer essa visita que não sei quanto tempo e espaço do meu coração vai durar. Eu voltei pra sentir que verdade vai surgir no nosso olhar.

Vim aqui não porque acredito que você mudou, que a gente vai resgatar um amor. Vim aqui pois eu resolvi testar esse meu novo eu nessa velha história.

Antes eu esperava que você adivinhasse os meus segredos, mas agora eu sou PhD em mim mesma. Antes eu esperava que você me amasse quando eu era dor, agora eu peço colo e cuidado e só fico se assim for. Antes eu esperava que você mudasse, me olhasse, parasse de ser egoísta, agora eu tenho as rédeas da minha própria vida. Antes eu estava sempre aqui pra você, agora eu estou por mim, para ver se eu caibo inteira, para ver se essa mulher madura tem lugar nesse seu pomar. Para ver se você me quer mesmo, essa minha inteireza, ou se queria o que eu era antes – frágil, apaixonada e manipulável.

Vai ser bom, muito bom esse reencontro, esse encontro novinho em folha dos nossos novos eus. Que beleza vai ser se você amar o que eu sou agora (festa nas estrelas!). E que beleza também se você não se adaptar a mim –  eu partirei, então, sem deixar passos, sem dúvidas, sem pensar no que a gente poderia ter sido e não foi.

E assim é. Então, abra a porta, estou aqui tocando a campainha do seu coração! Voltei!

Eu não quero nenhum homem comendo na palma da minha mão

Dia desses uma amiga veio me dizer: não me leve a mal, você é uma mulher evoluída, que busca tanta coisa bonita, mas às vezes deveria agir com mais razão e estratégia, por exemplo com homens, você podia dar um gelo, ser dominadora, ativa, altiva, fria, e fazê-los comer na palma da sua mão.

Eu fiquei pensando: é, eu sei, a gente pode ter esse poder, eu até sei ter se eu quiser, talvez as pessoas precisem dessas encenações para criarem ilusões, para construírem mais uma historinha para encherem as vidas, talvez o ser humano queira suprir o vício de jogos e dramas que todas essas novelas e músicas dor-de-cotovelo implantaram na nossa alma.

Eu podia fazer joguinho, dar uma de fria, controlar minhas emoções, não expressar sentimentos e sensações. Eu podia armar esquemas, traçar planos, não sair do salto, ficar num plano superior. Eu podia me mostrar sempre linda e equilibrada, poderosa e bem resolvida. Eu podia conquistar alguém por tudo isso aí e mais um pouco, por tudo isso que eu sei ser muito bem, mas... não é o que eu realmente sou.

E só de pensar no ‘fria, poderosa e bem resolvida’, só de pensar em não expressar o que eu sinto e expressar o que eu não sinto, só de pensar em medir as mensagens, em ajeitar o cabelo, em veladamente mostrar meu currículo tão bonito de vida, me dá uma preguiça!

Eu que sou a louca, que hoje esqueci a chapinha, que parei de pintar a raiz do cabelo e tive dor de barriga por duas semanas. Eu que ainda choro como criança quando baixa a TPM, eu que às vezes falo mais do que a boca e me empolgo com uma brincadeira a dois, eu que outras vezes sou silêncio absoluto, imersa num universo paralelo desconhecido.

Que preguiça eu tenho de por o salto-alto se eu sei que vou tropeçar (mesmo no salto-alto metafórico), que preguiça eu tenho de ignorar aquilo que me faz acender toda. Que preguiça eu tenho de engolir o choro e a risada, de colocar embaixo no sutiã, do corretivo e das segundas intenções tudo o que eu deveria ter vergonha de mim, ou tudo que poderia ser escondido para que uma missão fosse cumprida com êxito.

Que preguiça só de pensar em querer fazer qualquer coisa ou pessoa comer na palma da minha mão. E quantas chances boas eu perco por não querer jogar o jogo, entrar na dança? Todas aquelas que num futuro próximo trariam insegurança, e frases do tipo: você não gosta de mim, do que eu realmente sou!

Afinal, tudo que se esconde, cedo ou tarde vem à tona.

Eu não quero que ninguém coma na minha mão porque eu não quero me apertar para caber numa ilusão.

Que a gente coma sim, e de mãos dadas, que a gente coma numa mesa, numa varanda, num piquenique, lado a lado, de almas estiradas ao sol e imperfeições à céu aberto. Que a gente coma com as mãos, com as bocas, com os corpos, desde que haja vontade de comer, desde que seja um na mão do outro, um no corpo do outro, um na alma nua do outro.

Pois, pra falar bem a verdade, essa babaquice toda de conquista já não me fascina faz tempo. E quanta gente fugiu ao ver de perto a minha cara lavada de louca, muita gente mesmo! Já estou até acostumada. Mas o tesouro disso tudo é que quem ainda tem vontade de ficar por perto, é quem vale muito, mas muito a pena!

Fica aí pensando pensando enquanto eu vou ali viver

É meu querido, há tanta coisa pra se pensar antes de amar, antes de viver. Há tanta coisa pra resolver, pra passar a limpo, pra entender. Há tantos cálculos a serem feitos – medir a profundidade do mergulho, analisar se vai ser mais uma queda, uma dor, um erro. Há tantas análises psicológicas a serem feitas – será que vai ser mais uma mágoa? Será que estamos preparados? Será que ainda não é cedo demais?

É meu querido, você precisa de um tempo maior para ter certeza, você precisa de mais ingredientes para ter coragem, você precisa de mais compreensão para estar preparado para amar de novo. Mas pode ser que quando, finalmente, você tiver tudo aí na sua alma e coração, o passarinho do amor terá voado, solto, sozinho.

Enquanto você fica aí na beirada desse rio de experiências que é a vida, eu já mergulhei de cabeça e coração, fui até a outra borda, senti se dava pé, te acenei de dentro e passei de fase. Enquanto você fica aí arrumando seus aparatos para se assegurar de tudo, para salvaguardar a sua pele e dos outros (como se fosse um deus, como se isso prevenisse sofrimento), eu já me joguei, cai, aprendi com a dor dos joelhos ralados, aproveitei o vento de liberdade no meu corpo nu, deixei a energia vital transcorrer todo o meu ser.

Ah, se as coisas pudessem ser prevenidas! Ah, se o excesso de cuidado e zelo facilitasse mesmo o nosso caminhar! Ah, se a gente soubesse mesmo encontrar a hora certa de amar, se a vida se abrisse limpinha para que o que é novo pudesse entrar e o que é velho adormecesse em paz!

Mas a vida é roteiro de acasos e sustos, surpresas e imprevistos. Quem cria redomas para si mesmo não anda, não ama, não amadurece. Precisamos abrir janelas para que ventos novos nos sacudam, nos desestabilizem, nos tragam sombras e luzes. E que a gente possa ver, viver, amar de olhos abertos, aprendendo com o que é dor e aproveitando ao máximo o que é alegria. Porque, por essa mesma janelas que entram tufões, chegam doces calmarias.

Que obrigação é essa de querer só fazer escolhas certas? Que jeito de viver é esse que se apega mais aos medos do queà alegria de amar? Que desperdício de vida é esse, que prefere observar de fora, limpinho, sequinho, do que se jogar na lama, na chuva, na brincadeira?

Quando a gente anda e ama e perde os medos, a gente aprende que a nossa bagagem, o que nos fortalece e protege são as nossas experiências. A única forma de libertação é se permitindo participar da dança da vida. Quem vive com coragem, continua caindo e levantando, amando e reamando, chorando e sorrindo, e aprende que tudo é positivo, tudo é crescimento, tudo é transitório e belo. Tudo vem para agregar conteúdo e enriquecer a alma.

O medo já não existe mais, no lugar dele fica serenidade, amor e confiança.

Então, meu querido, segura minha mão e salta comigo. Tudo o que temos é esse momento divino, tudo o que podemos fazer é aprender juntos e crescer com esse encontro. Tudo o que sentimos transborda nesse presente momento e inunda a vida toda e o nosso entorno.

E que seja intenso enquanto dure!

Se você quer viver sua verdade, apenas cuide-se e relaxe. Confia!

Se você quer viver a verdade na vida, a sua verdade, não deveria se importar muito em querer saber o que vai surgir pra você depois daquela esquina, aquela curva que você ainda não consegue ver e entender.

Não adianta se preocupar em prever, não adianta agir tentando moldar situações, pessoas, sentimentos... Tudo tem o seu jeito e momento. Também não adianta se prevenir demais. O que vale sim é se cuidar, de si mesmo e do seu entorno. O que vale é encarar os medos, olhá-los nos olhos e ver quão pequenos e tolos na verdade eles são, fundamentados em ilusões de controle, apoiados em estruturas sólidas que não existem nessa vida. Tudo é efêmero e movimento, o universo tem um ritmo que a gente desconhece.

Se você quer viver sua verdade, apenas cuide-se e relaxe. Confia!

O que surgir pra você será um presente bom, porque quando a gente quer o que é de verdade e se abre para isso, o que nos chega é cristalino e bom. Talvez seja diferente dos seus planos, dos seus ideais, dos ideais de mundo, dos sonhos concretos que insuflaram no seu peito e você nem sabe mesmo se são seus.

Mas quando a gente confia e se abre para a verdade, o universo conspira a nosso favor. Então, talvez pessoas que a gente não imaginava vão embora, sentimentos que pareciam fortes volatizem no ar, estruturas grandes desmoronem, talvez nasça uma flor em um cantinho que você nem costumava olhar. Talvez surjam coisas pra você que você nem imaginava. Então deixe de dar tanto peso e importância às suas expectativas. Deixe de valorizar tanto pessoas e coisas.

Valorize a sua presença, o seu estar no mundo, o seu dia.

Se você deu o seu melhor, é isso que vale. Se coisas se afastam é porque não entrariam confortavelmente na sua dança, no seu momento de alma. E que dor seria viver, investir energias num evento, num sentimento, numa pessoa que não faz parte naturalmente do seu caminho! Você só pode ser sua verdade e seguir em frente, e continuar andando nos seus passos.

Pare sim, às vezes, para admirar as paisagens, acampe um pouco num momento se for o caso, mas não se apegue, ande, seu lar de amor vai junto com você.

Que as mãos dadas que possam surgir venham espontaneamente e voem quando quiserem, ou parem um pouco para olhar os próprios medos. Mas você não precisa entrar junto, continue no seu próprio rumo.

Relaxado e em paz. Confia.

Que tudo é surpresa e verdade em cada passo que você der.

A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo

Esses dias eu tive a sorte de presenciar a linda e forte cena de uma borboleta saindo do casulo.

Já havia visto antes um passarinho saindo do ovo. E, em ambas as situações, o sentimento que me surgiu ao assistir assim tão de perto foi dor, a dor da transformação, a dor do nascimento. Uma lagarta não vira borboleta de uma hora para outra, uma borboleta não sai de um casulo com a facilidade e a leveza que suas asas simbolizam. Vendo assim de perto, noto que é um processo longo e doloroso.

Devagarzinho a borboleta vai se despindo do casulo, com as maõzinhas cria uma fresta e vai sentindo o ar de fora, vai abrindo uma janelinha, e vai empurrando o próprio corpo ainda encolhido para fora de seu confortável abrigo. É tudo muito lento, com pausas no percurso, um passo de cada vez para se acostumar com o novo. E quando o corpo todo deixa o casulo, a borboleta ainda está toda encasulada, seu corpo comprimido, suas asas dobradas, mesmo fora da casca, sua estrutura ainda está apegada. É devagar que as asas vão se esticando, se abrindo, revelando o colorido e as dimensões.

Quanta coragem e força precisou ter esse ser intermediário entre lagarta e borboleta para poder encontrar o mais pleno de si? Quanta luta consigo mesma precisou a borboleta desempenhar para entender que mesmo que tão quentinho, confortável, familiar era a sua situação de lagarta no casulo, era menos do que ela veio ser neste mundo?

Chega uma hora de maturação que as leis do universo nos impulsionam a rompermos nossos casulos. Vai haver dor? Sim, mas ficar já não é mais uma opção.

Ah, mas e essa persona de lagarta que a gente já sabe ser? E esses territórios já tão conhecidos, os ambientes conquistados, essa facilidade de ficar nos galhos?... E essa hibernação no casulo, é tudo tão confortável (e duro!)? É mais fácil continuar sendo o que se é... Não é? Como podemos querer abrir frestas para uma nova versão de nós mesmos? E deixar para trás as nossas firmes verdades, e reaprender a andar (ou a voar!), e nos olhar no espelho e nos desconhecermos por completo?!

Como podemos querer inaugurar em nós mesmos uma nova versão de ser no mundo? Se essa que eu uso hoje já me cai bem, já conhece os caminhos (e os esconderijos). Pra que passar por uma dolorosa transformação, se eu não mais serei eu, se eu vou perder o chão que com tanto custo cultivei?! Que monstro é esse que mora em mim e que quer ser eu em meu lugar? Como eu vou deixar? Como vou parar para escutar esses ecos que vão me matar?!

Não! É melhor a gente ligar alto a televisão, é melhor se afundar no trabalho, e chegar em casa cansado pra não ter que encarar nada disso. É melhor tomar um comprimido, reclamar o tempo todo como um disco riscado e não parar para olhar o que realmente está errado e martelando na nossa alma. É melhor acreditar nessas paixões que nos machucam, nessa solidão como destino, nessa nossa condição de vítima. É melhor curvar as costas, reprimir a alma, fazer vista grossa para o que na gente quer ser grande! É melhor não escutar o silêncio e não encarar-se no espelho por muito tempo.

É melhor mesmo?

A gente não pode ajudar, com as próprias mãos, uma borboleta a sair do casulo...

Está nas mãos dela, está na ousadia de suas asas.

Ninguém é tão precioso assim para ser carregado nos ombros

Se algo em sua rotina te desconforta, te aperta o peito, te exige tantas adaptações que fazem você nem se reconhecer mais direito, talvez seja hora de desafrouxar a alma e mudar o roteiro.

Se há mais choros do que sorrisos, já é um grande motivo para repensar tudo. Se há mais discussões do que abraços, desate os laços. Se está mais complicado do que simples, não se preocupe em entender, deixe para trás, se há muita luta, desfaça tudo e sinta o alívio de seguir em frente.

Se você teve que engolir muitos sapos, conter os gritos, guardar as mágoas, esquecer das risadas, vomite tudo, despeje tudo, abandone, deixe as bagagens, desapegue-se dos velhos cartões postais de sua história e queira começar um novo livro.

Se pesa demais e sempre, dispa-se. Se a vida sempre está melhor nos momentos de solidão. Se fica mais leve quando você só tem que lidar consigo mesmo, se a dor que você anda sentindo não está fazendo ninguém evoluir, não traz conversas profundas, auto-observações, vontade de mudar pelo amor, daí pode ser que você está apenas repetindo um círculo vicioso, pode ser que sua vida tenha entrado num looping do eterno retorno que já não renova muito as energias, é um movimento estagnado. Aí, talvez você vá precisar de um tanto de coragem, sensatez e ousadia para colocar o corpo e a alma fora de um destino reprisado.

Ninguém é tão precioso assim para ser levado a tiracolo. Ninguém é tão importante assim que mereça um atraso no seu caminho existencial. Ninguém é tão dependente assim que não pode encontrar o próprio sustento emocional, ninguém é tão limitado assim que não pode achar as ferramentas para a própria evolução e maturidade.

Não cabe mais ninguém nos seus ombros cansados, caberia sim alguém ao seu lado, de mãos dadas. Não cabem vozes duras ofuscando seus pensamentos livres, não cabem âncoras na sua vontade de navegar, não cabem verdades irrefutáveis e inflexíveis nos seus olhos cheios de amor à vida.

Não dá para carregar alguém no lombo e ainda ser guiado para um lado que você desconfia, por valores que você desacredita. Você é o senhor do seu destino, você já sabe como renovar suas energias, você se equilibra sozinho. E não dá mais para ficar tentando balancear pessoas que se acostumaram a viver acoplados e dependentes.

Perto de você, cabem pessoas que vêm para compartilhar, para dar e receber, para ensinar e ouvir, para entender, aceitar e respeitar. Não é sendo convencido, não é se desconstruindo inteiro para poder ficar ou entrar numa história que você encontrar amor e paz.

Bem no fundo (ou talvez já no raso), você bem que já sabe por onde quer voar.

Ela é uma ave de rapina em terras de rinocerontes

Ela não ama mais como antigamente, com o brilho do romantismo ofuscando a submissão, mas ela também não ama ainda de um jeito novo, está numa fase de transição.

Ela ama pessoas acima de intenções, vê sem o filtro dos deuses, abriu a caixa de pandora, liberou os pecados e percebeu que nenhum ser humano é herói ou vilão.

Ela vive na passagem, desfez os nós das posses e ainda acredita no brilho dos olhares.

Não sonha mais com pessoas, não acredita na salvação por outras mãos, sonha com um mundo mais consciente. Quer ser respeitada em suas escolhas, inclusive na de ser solta e espontânea num país que não escuta e respeita o jeito de ser de uma versão pós moderna de mulher, pós uma era, pós conceitos que já não vingam no peito dela.

Ela é uma mulher de tantos ‘nãos’ porque aprendeu a dizer ‘sim’ para si mesma. Mulher de lutas, mesmo silenciosas, conta com as próprias mãos e tantas vezes caminha sozinha por não encontrar parceiros de desideologia.

Ela é uma ave de rapina em terras de rinocerontes, traz notícias de outros mundos em suas asas, espalha suas visões do além nos olhares acostumados.

Ela cansa, mas segue sendo presa das próprias experiências. Se usa para entender um mundo sem entendimentos, segue nua, despida de mitos em terras de zumbis agarrados à valores cegos. Acha que o mundo está intoxicado de excesso de sentidos, flerta com a possibilidade de viver sem eles.

Ela é uma criança desarmada sobrevivendo e perambulando num campo de guerras. Distribui gotas de simplicidade nos olhares viciados.

Ela é uma mulher do século XXI, ainda humana, descrente, sobrevivente, desmistificando-se mas ainda despertando mitos nos olhares, paciente com o caos de um mundo que ainda não aceitou a própria morte e justo por isso ainda não renasceu.