Deixo prosperar os pés de tomates selvagens que brotaram no meu caprichoso canteiro de rosas

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A vida tem me ensinado sobre a fragilidade das situações idealizadas, sobre a vulnerabilidade da crença um tanto racional que muitas vezes temos de que podemos moldar os destinos, planejar cada detalhe, organizar perfeitamente, manipular os nossos passos e ter tudo sob controle.

A vida tem me mostrado sua dança própria, suas mudanças repentinas, suas curvas inesperadas no horizonte já traçado.

Por mais cuidadosos e perfeccionistas que sejamos, por mais conhecedores dos caminhos, sabedores do nosso íntimo e das nossas prioridades, a vida acontece mesmo é no passo, é no presente, é no seu tempo e ritmo. A força da natureza não para pra olhar as páginas cheias das nossas agendas e as datas importantes dos nossos calendários.

Às vezes chove forte dez minutos depois de termos estendido as roupas no varal embaixo de um sol intenso e de um céu aberto... quem esperaria...

Depende da gente lamentar ou sorrir, achar graça ou desgraça. 

Às vezes a gente pensa que fechou definitivamente uma porta e os ventos do destino escancaram as nossas janelas naquela mesma paisagem, bem no auge da nossa desproteção.

Depende da gente aceitar e celebrar as surpresas ou virar as costas para o que nos tira o chão.

Acontece da gente encontrar o que procurávamos: o emprego certo, o amante ideal, a moradia que sonhávamos... mas aí, quantas vezes a gente chega nos nossos sonhos e já somos outra pessoa, bastante diferente.

A vida é volátil, balança a gente. No meio do caminho conhecido sempre pode surgir uma curva impremeditada. E eu ando acreditando em confiar mais e manipular menos. Em deixar que os ventos me levem, em aceitar as venturas do dia. Em tentar ver o bright side, o lado luminoso, em tudo que se apresenta, em todo inesperado que nasce.

Eu deixo prosperar os pés de tomates selvagens que brotaram no meu caprichoso canteiro de rosas. Porque nem sempre o melhor a fazer é arrancar o que nasceu com tanta força e exuberância em prol do plano bonitinho previamente estabelecido.

Eu assisto pela janela as roupas encharcadas e dançantes no varal desses verões que chacoalham tudo. E eu me deixo encharcar e chacoalhar alegremente junto com elas.

Eu acredito mais em gente que se testou na própria pele

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Eu acho que tudo o que teve dúvida se constrói mais forte do que aquilo que parece ter tido sempre certeza.

Já percebeu que quem está mais perto de si mesmo, se desconstruiu muito?
Parou, questionou, avançou, mas também hesitou, recuou...

 Eu sempre desconfio de quem tem as respostas na ponta da língua – afiadas, certas, prontas. Desconfio de quem sempre soube de si, de quem compra ideias prontas (sem nem olhar a data de validade), desconfio de quem não erra muito, de quem coloca tantas coisas no nome de Deus, de quem decora as respostas prontas.

 Eu não sei... deve ser porque existem por ais muitas ‘universidades de vida’, talvez de vários tipos, mas penso que nesse caso – se tratando da própria vida – não acho que ensino 100% à distância seja a melhor das opções. Existem por aí muitas ‘faculdades de vida’, e algumas delas propagam que é só você decorar a apostila, e você esquece de perceber que o estudo de campo é tão ou mais importante quanto...

 Eu não sei por que, mas eu acredito mais em gente que testou na própria pele, e isso não tem nada a ver com não ter se prevenido, se respeitado e se cuidado (a pele estica e absorve, mas também protege). Porque eu acho que por mais que a gente possa fazer as melhores ‘faculdades de vida’, com as melhores bibliotecas (bem importante na ajuda), com os melhores amigos e psicanalistas, o caminho do próprio coração é só seu. E lá no silêncio do seu profundo tem algo que fala, é preciso aprender a fazer o mundo calar pra conseguir se ouvir. E é preciso entrar e sair, sem ficar decorando o dicionário das vivências.

 É importante aprender a ver e ouvir os ruídos do mundo, se distanciar deles (quando finalmente conseguir um pouco) e observar e observar-se sendo no meio de tudo.

 Mas, no percurso, a gente suja a pele, a gente constrói verdades que ficam tortas e depois temos que demolir as paredes e recomeçar do zero. No percurso, a gente ama errado, se ama de menos, ama demais ilusões, mas a gente lava a alma e vai renascendo. No percurso, a gente machuca a si mesmo e algumas pessoas próximas e depois vai aprendendo a arte de se aceitar humano, de se auto perdoar e de perdoar.

 Por isso, eu desconfio mesmo de tudo que já nasceu muito limpo, muito belo, apoiado em mastros de fora de si. Eu acredito mais em quem se ralou, se lavou, se perdeu, se achou, se construiu, enfim, mais forte justo por ter acessado as próprias fragilidades, por ter encontrado corajosamente a verdade íntima, e por ter encontrado a paz muito mais consistente de ter chegado em si mesmo.

O amor pra mim é um conceito que desconceitualizei

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O amor pra mim é um conceito que desconceitualizei. Um estado de ser e estar que anda perdendo tantas castas, uma camada atrás da outra.

 Por que você já percebeu que a palavra amor parece impune? Por causa do amor tanta coisa é válida, dentro do amor cabem tantos pequenos absurdos que são banalizados pelo nosso olhar. O amor suporta bagagens muitas vezes nada fáceis de carregar.

 Quanta coisa a gente aguenta em nome do amor, quanta coisa a gente vive como se fizesse parte do amor, quanta coisa a gente encara, a gente faz, a gente passa, a gente morre, a gente deixa, esquece, esconde... para estar dentro do amor.

 Desculpa dizer, mas eu ando achando que só começa a aprender amar quem passou pela solidão. E não por uma solidão doída, pedinte, excluída, de alma sedenta. Não é a solidão dos que clamam e não têm, dos que buscam e perdem, dos que passam os domingos à tarde escrevendo cartas para um futuro amor.

 É a solidão. Matéria que nos constituí. É o que somos. Talvez algo entre o desmamar do desamparo materno e a coragem de voar com as próprias asas e de olhos abertos ver a beleza do que você se tornou: um adulto, dono do seu corpo e da sua alma.

 É uma solidão do ‘tudo bem’, do fazer o dia, do não remoer os passados, e não ansiar pelos futuros. Solidão da presença, do estado presente. Quem chega aí sabe que é sozinho que se chega. E que bom chegar! Não tem tanto perigo como parece, como pregam os marketings digitais do instagram.

 Eu acho que amor, amor próprio, amor a dois, amor a três, amor que flui, amor de diferentes formas, refletido em diferentes coisas, só existe quando a gente vive em paz com a solidão. E isso é quase um pleonasmo. Porque solidão, dessas que ando falando, é paz.

E aí talvez amar seja quase como brincar.

Às vezes me questiono sobre essa estrada da vida... na infância a gente já tinha tanta sabedoria... percebeu? Mas vamos aprendendo e vamos reaprendendo os jeitos de estar no mundo. Até esse amor maluco nos foi ensinado, até o amor bom nos foi desinstalado (talvez não totalmente, talvez a gente consiga amar uma planta quase como na infância, ou algo assim). 

Apesar que nem sei mais se a infância ainda é uma boa referência para o que eu estou tentando dizer. Talvez o que eu esteja tentando dizer é que amor é agora, é troca com um amigo que chegou com uma bola na mão, com uma ideia na cabeça, com energia no corpo e coisas em comum com as minhas vontades de vida, desta vida, deste momento.

É sintonia, quando o santo bate numa tarde ensolarada e a gente se esquece das horas e das presenças (e as tardes podem virar anos sim, mas isso [e outro assunto). À noite a gente dorme, pode ser que as brincadeiras continuem, pode ser que não.

Mas a nossa vida, com ou sem amigo para brincar, continua, e continua com presenças, com chegadas e partidas, com fins de verões e inícios de invernos.

Não que não exista saudades, mas não é uma sensação de perder a alma, de perder o chão. Não pesa nas costas, não esvazia o corpo. Amor não completa algo que nos falta, não manipula, não preenche, não esvazia. Vem e junta, vai e não tira.

Talvez teria sido melhor se eu não tivesse questionado tanto

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Talvez teria sido melhor se eu não tivesse questionado tanto.

 Talvez teria sido melhor se eu tivesse calado (com algum placebo psicológico) uma voz interna. Talvez teria sido melhor eu não ter sido, desde criança, alguém que tentasse entender o porquê das coisas do mundo (não tivesse inventado uma lupa de olhar pelas fechaduras).

 Talvez teria sido melhor eu ter abafado esse olhar que nasceu empático. Talvez teria sido melhor eu ter permanecido na superfície das pessoas, dos sentimentos, das situações.

 Talvez teria sido melhor eu ter vestido papéis que me ensinaram (mas sempre me pinicaram a pele). Talvez teria sido melhor eu ter sentado na bolha protetora, dentro da zona de conforto do mundinho redondo e raso que sabe bem anestesiar as dores e inflar os egos do grupinho dos privilegiados.

 Talvez teria sido melhor eu não ter notado num horizonte (mesmo que distante, e de caminho árduo de percorrer) a liberdade.

 Talvez teria sido melhor se eu não tivesse aberto caixas de pandoras, armários que guardam segredos, se eu não tivesse dado espaço para selvagerias da alma.

 Talvez teria sido melhor se eu tivesse me comportado (mesmo com uma dorzinha sempre latente no fundo da alma). Se eu tivesse feito da minha vida um roteiro óbvio a ser seguido (era só pegar o livro das grandes verdades), se eu tivesse confundido a mim mesma com os rótulos disponíveis por aí.

 Se eu não tivesse brincado de ser legista de tudo que cai na minha mão.

 Talvez teria sido melhor...

 Só que não.... só que nunca.

 A vida sempre pulsou (mesmo quando tentou ser ofuscada).
A vida sempre pulsa.

 (E meus olhos sempre souberam que por mais que eu fingisse, meu caminho seria esse mesmo – árduo, profundo, corajoso, rumo à autolibertação).

 E cá
e aqui estou.

Já encontrei bruxas por aí, que em 2019 eu encontre várias!

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Desejo neste 2019 (e na vida toda) que nós mulheres nos tornemos fortes, ainda mais fortes. Que a gente seja voz e luz, consciência e coragem, desconstrução e integridade no nosso mais íntimo.

 Que a gente conviva com outras mulheres, encontre muitas amigas, desenvolva espaços de abertura em que possamos falar sem regras, sem medos, sem culpas, sobre nossas dores, sobre nossos descaminhos. Que a gente encontre amparo em outros corações humanos, colo daqueles que nos deixam ser quem a gente realmente é, sem ter que fingir, sem ter que esconder, sem ter que sentir vergonha das nossas ‘fraquezas’ e dúvidas.

 Que a gente encontre mestras, bruxas e sábias, mulheres que possam nos ensinar, inspirar e fortalecer. Mulheres que são exemplos de resistência e bravura, que fazem de suas vidas um desbravamento da própria verdade, um abrir caminhos para a autolibertação. Mulheres que geram seus espaços no mundo sem trair seus instintos, seus sentimentos, sem massacrar alguns lados femininos.

 Que nós mulheres convivamos e possamos conversar, chorar, sorrir, falar e ouvir sempre. Porque nossos corações femininos quando abertos são pura empatia e se reconhecem só pelo sentir, pelo estar perto. Que nossos corações se unam para que o mundo não nos confunda tanto, para que nossas referências internas sejam mais fortes do que as externas.

Que a gente não tenha medo de deixar de ser submissão, propriedade privada, objeto sexual, fantoche de desejos dos outros. Que o nosso corpo seja nosso, que as nossas vontades sejam nossas e livres, que o nosso autorespeito cresça juntamente com o nosso autoconhecimento.

 Que a gente perceba que podemos ser o nosso próprio amparo, o nosso próprio lar, o nosso próprio amor, o nosso próprio bem-estar.

 Que a gente despolua tantas coisas tortas que nos foram ensinadas. Que o ato sexual, quando houver, seja prazeroso, seja troca boa. Que a gente possa encontrar referências de como ser, de como seguir, referências de mulheres de verdade, de pessoas de verdade... essas pessoas que questionaram, que saíram das zonas de conforto, dos ciclos viciosos.

 Que a gente aprenda a não acreditar em tudo que nos dizem a respeito de nós mesmas. Que a gente saiba se valorizar ao ponto de nenhuma palavra masculina nos denegrir ou repercutir negativamente no nosso interior. Que saibamos do nosso valor, que diariamente renovemos esses votos com a gente mesma.

 Que a gente saiba diferenciar elogios de chantagens emocionais (às vezes eles estão no mesmo saco), carinho de contratos, trocas de obrigações.

 Não é fácil não, ser mulher é uma luta diária. É uma construção diária, de autoestima, de empoderamento, de identidade, de amor próprio.

 Por isso desejo mais do que nunca que neste ano nossas mãos estejam juntas. Que nossos caminhos se cruzem com muitas almas femininas que estão nessa mesma jornada.

  Desejo um 2019 para as mulheres.

Eu não acredito em conversas bonitas, eu acredito na energia do encontro

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Dia desses uma bruxinha velha amiga minha disse uma simples frase que me fez pensar bastante e me pareceu tão real. Ela disse algo assim: ‘se você quiser conhecer uma pessoa de verdade, faz um test drive, coloca ela dentro de casa por um mês e convive com ela’.

Demos muita risada, e isso me fez lembrar também de uma conversa com outra amiga. Essa amiga contava que há um tempo atrás fez uma viagem com um crush e ambos estavam apaixonados e empolgados, mas foi só passar uma semana viajando com ele, decidindo sobre alimentação, hospedagem, roteiros e pequenas coisas do dia a dia, que tudo desandou e eles perceberam que não tinham muito em comum.

Eu havia acompanhado de perto o desenrolar todo dessa história amorosa de minha amiga, e ela sempre me falava das inúmeras declarações que o cara fazia, ele escrevia muitas coisas bonitas, mandava mensagens apaixonadas, eles estavam realmente empolgados.

Fiquei pensando no poder das palavras... Fiquei pensando que fazer declarações, usar bem do discurso, escolher expressões impactantes é um dom, um dom que pode inclusive ser usado para criar ilusionismo ao redor.

Fiquei pensando que palavras podem encantar, podem criar universos, sentimentos, histórias. Palavras podem inclusive convencer, podem nos fazer ver coisas que nem sempre realmente estão ali... Talvez algumas paixões se iniciem ou se desenvolvam por palavras, por frases e discursos, por ideias bem apresentadas. Palavras podem mascarar as reais energias, os reais sentimentos.

Tenho visto por aí tanta gente caindo no que eu defini como ‘paixões whatsapianas’. Nessas histórias de amor que acontecem muito mais no universo online das mensagens de áudio e texto, nesse universo em que as pessoas podem se inventar e ser maiores ou melhores...  Espaço que também pode ser propício para desenrolar joguinhos de sedução... Uma hora recebemos (ou damos) muita atenção, outra esperamos um dia para responder uma mensagem. Tenho visto por aí discussões e grandes conversas de temas profundos acontecendo na telinha do celular por palavras digitadas... Não que eu invalide tudo isso, é ótima esta ferramenta, e as conversas também podem ser um começo de algo. Mas, quando a coisa fica 80% nesse veículo e deixa de ser olho no olho e contato, aí então algo estranho acontece...

Aí não sabemos mais se estamos nos envolvendo com uma pessoa ou com uma ideia, um conceito de pessoa, de paixão, de amor... 

E sim, mesmo no contato real, as palavras têm muito poder. Há pessoas que falam mais do que agem, há pessoas que falam muito para ofuscar uma ação, há pessoas que falam com retórica para convencer, há pessoas que falam sem parar porque têm medo do que o silêncio pode trazer.

Porque o silêncio traz os corpos se encontrando ou não. O silêncio deixa que as energias sejam por si só, o silêncio cria espaço para que as mãos se encontrem ou se afastem. O silêncio abre janelas para as atitudes.

E é nas pequenas coisas que a gente vê a verdade de um sentimento, de uma vontade, de uma intenção, de um coração, de um encontro. É nas pequenas coisas que a gente saca se as vibrações combinam.

Porque, no deixar ser das coisas os egos tiram férias e as almas conversam.

Aí que eu tenho concordado plenamente com essa minha bruxinha amiga que aconselhou o test drive. Passe um mês com uma pessoa em casa, ou encontrando-a sempre que puder, façam atividades juntos, viagem se conseguirem... Conviva muito, converse sim, mas preste atenção nas pequenas coisas, nos pequenos atos, veja se você se sente mais tenso ou mais confortável. Perceba mais os gestos do que os verbos.

Deixe o silêncio entrar e os corpos falarem.

Quanto mais a gente fica perto de uma pessoa, e faz atividades juntos, menos máscaras ela consegue usar ou preservar, porque ficar na máscara cansa.

E no fundo no fundo a gente não quer amar através de máscaras e palavras bem embasadas, a gente quer amar na nudez de almas que se encontraram.

A paciência e a urgência

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Neste fim de ano, alguns aprendizados – talvez maturando em mim por meses e anos – pipocaram e amadureceram na minha vida, no meu ser. Por mais maluco que isso possa parecer, na mesma caixa que veio o entendimento da PACIÊNCIA, veio também a necessidade da URGÊNCIA.

Parece meio contraditório, mas não é.

A paciência veio ensinar a me autoperdoar, a aceitar melhor o meu ritmo (tão lento pra algumas coisas, diga-se de passagem), veio me ensinar a esperar os tempos dos processos dentro e fora de mim. Veio me acalmar e dizer que não adiantam comparações e projeções externas, às vezes a gente se demora num caminho, às vezes demoram a cair as fichas, e é devagar que alguns sentidos se revelam. Às vezes levam-se anos para desatrofiar um músculo adormecido, pra abrir um caminho de vida, pra largar um vício. Paciência não é entrega, mas é dar meu passo e também confiar no caminho, é fazer a lição de casa e perceber que não vou me tornar PhD da noite pro dia, da água pro vinho. Paciência é continuar evoluindo, pegando no colo as minhas dificuldades também, dissolvendo minhas sombras à medida que minhas mãos aprendem a tocá-las. É destruir as falsas deadlines e me deixar seguir quanto tempo for necessário, mesmo que levem vidas. Porque a busca é por uma verdade, e os caminhos do autoconhecimento muitas vezes são profundos e escuros. É devagar que encontramos as verdadeiras luzes.

Não é fácil, mas vou com paciência.

E concomitantemente me surgiu a urgência. Uma urgência que de nenhuma forma é contraditória à paciência, porque não é urgência de ações, não é urgência de tarefas a serem desempenhadas. Não é urgência de conquistas, de acúmulos, de coisas, de sentimentos, de pessoas...

A minha urgência é a vida. A vida se faz urgente. Viver é urgente, amar é urgente. É urgente que meus dias não se preenchem com 90% de coisas que não contam, que não somam, que não valem a pena.

É urgente ter meus amigos por perto, não necessariamente fisicamente, mas nas intenções, nos pensamentos, nas conversas, nos compartilhamentos. É urgente constatar o que é real nos dias. É urgente amar mais do que odiar, gastar mais tempo plantando do que derrubando, seguindo em frente do que remoendo. É urgente ancorar e ser resistência na minha própria base em tempos de marés revoltosas.

É urgente desacelerar se for preciso, fugir se for preciso. É urgente me alegrar hoje e agradecer e não perder tempo com o que pesa mais do que eleva, desgasta mais do que acrescenta, cria mais problemas do que ajuda a abrir caminhos.

É urgente que emaranhados de nós sem resoluções sejam deixados de lado, é urgente não carregar nos ombros histórias de vida que não são minhas, é urgente ouvir mas não se confundir. É urgente tirar o corpo fora quando o ser não cabe inteiro, e despovoar desertos e mergulhar nas cachoeiras abundantes de pequenos momentos de felicidades inesperadas.

E no entanto, a minha urgência é paciente e a minha paciência é urgente.

E isso tudo me fez lembrar um poema de Eugénio de Andrade, que deixo aqui com o coração cheio e ao mesmo tempo tranquilo:

 

Urgentemente

É urgente o amor 
É urgente um barco no mar 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanecer. 

 

 

 

Caiu na rede é peixe, se não é vira ou vai pra longe!

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Caiu nesta rede aqui é peixe, se não é vira ou vai pra longe!

Ta sendo assim a vida, ou a minha peneirança de pessoas, sentimentos e vivências. Se cair na rede é peixe! Pelo menos é assim que gosto de pensar e é assim que tenho colocado minhas intenções.

O que cai na minha rede é peixe bom, é fruto, é sorriso, é leveza, é alegria. Claro que vez ou outra ainda entra um pedaço de galho, uma garrafa vazia, um peixe de borracha... Mas dura pouco, fica pouco, não segue por muito tempo no meu barco, na minha vida, nos meus pensamentos...

Deve ser porque desenvolvi olhos de pescadora, misturo intuição com observação cuidadosa, autoconhecimento com sabedoria de vida. Percebo mais rapidamente o que só chega para encher linguiça, ocupar espaço, tirar a paz, percebo rapidamente a ilusão de ótica e o que não cai bem no estômago. Percebo rapidamente (ta certo, às vezes leva algumas semanas) o que é pouso para o coração e o que é maremoto de alma.

Talvez por ter cansado de colocar meu barquinho em oceanos desconhecidos e sair para experimentar as marés e voltar às vezes cheia e às vezes devastada. Talvez por ter cansado de sair vivendo antes de me conhecer. Por ter cansado de comer tanta alga pensando que fosse salmão. Eu finalmente parei, respirei, refiz minha embarcação e resolvi compreender pela observação dos ventos (de dentro e de fora) em que mares eu deveria navegar.

Hoje eu vou devagar a vagar por aí, navego em águas mais claras e tranquilas, nado no grupo dos cardumes que têm mais a ver comigo, fujo dos excitantes tubarões. Não caio nas iscas das palavras bonitas e das histórias eloquentes. Não mergulho de cabeça se não consigo ver meus pés debaixo d’água, não sigo muito longe nos mares muito agitados e turvos.

É porque eu gosto mesmo é de me tratar bem, eu gosto do que é bom, eu gosto de entrar por inteiro e sair mais inteira ainda, bem nutrida de lembranças, abraçada por paisagens agradáveis.

Então eu tenho aprendido a peneirar meus peixes, a cuidar quando brilham, a jogar longe quando fedem.

Eu lavo a alma e sigo em frente.

Ah, se adiantasse viver a dor do outro...

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Ah, se adiantasse viver a dor do outro...

Se adiantasse gastar tanta da nossa energia vital para entender, para sentir, para tentar acalentar outro coração. Ah, se adiantasse a gente se transportar para outra pele e tentar fazer mudanças naquela alma e, por vezes até, entregar a própria vida tentando salvar outra...

 Acho que existe uma linha tênue entre ser empático, amigo, afetuoso.... e se deixar confundir com o que dói na outra pessoa, a ponto até de, sem perceber, virarmos a razão, a causa daquela angústia.

 Sim, porque se a gente chega muito perto de alguém se afogando e estamos desprevenidos, a gente se afoga junto. Ou a gente vira o motivo do que puxa pra baixo.

 É que por mais que a gente ame e queira o bem, por mais que a gente ame e queira retirar os pesos, as dificuldades, os sofrimentos... a gente nunca pode vestir os sapatos alheios, assumir outro corpo, carregar no colo uma outra história de vida.

 A gente pode sim dar a mão, ouvir, estar por perto... até o ponto em que ajudamos, mas ainda estamos fortes e íntegros; até o ponto em que ouvimos, mas ainda não somos atingidos diretamente; até o ponto em que compreendemos, mas não deixamos de cuidar de nós mesmos e da nossa própria vida.

 Até o ponto em que não deixamos de seguir o nosso próprio caminho para adentrar a missão de salvar outra existência.

 Cada um tem o seu próprio roteiro, o seu aprendizado particular. Eu penso que a gente pode sim tentar melhorar o olhar do outro, se o nosso já aprendeu a ser mais leve. Mas eu acho que isso se dá mais pela postura com que conduzimos a nossa própria vida, com a forma de sentir que escolhemos pra gente. Acho que a gente pode mais inspirar do que ensinar com palavras e preocupações. Acho que a gente pode perceber que vibrar numa energia melhor no mundo é a melhor ajuda que podemos dar.

 Demorou para eu perceber, mas parece que compaixão demais pela dor alheia não ajuda a amenizar o sofrimento, pelo contrário, o aumenta.

 Talvez porque sentir junto agregue pensamentos e forças àquele martírio, e o torne mais real e duradouro. Talvez porque sofrendo juntos a gente emane essas vibrações para o universo.

 Pode ser que a gente pense que se carregarmos em dois aqueles momentos difíceis, vai ser mais fácil, vamos dividir os pesos. Mas nem sempre é assim, às vezes ao fazer isso estamos interferindo num processo que não é nosso e que era importante que existisse dentro do outro.

Afinal, uma dor sempre traz um aprendizado mais profundo.

Não é fácil perceber isso, e agir assim, mas tem horas que o melhor que a gente pode faze é cuidar de si mesmo, por vezes se afastar, e sair de perto das enxurradas de choros e raivas.

 Às vezes o melhor que podemos fazer é serenar o nosso próprio coração, deixar de se preocupar tanto com outros universos e ir cuidar dos canteiros do nosso quintal.

Hoje prefiro os carrosséis às montanhas russas

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Eu sempre tive medo de altura, mas quando se tratava de envolvimentos amorosos, eu era sempre a que encarava excitadíssima todos os bungee jumps.

Eu era mestre em me enfiar nos voos mais altos e nas quedas mais violentas. Entrava com coragem e coração escancarado nas empreitadas mais repentinas e malucas. Quantas barracas furadas no meio do nada eu me meti. Quantos paraquedas mal resolvidos eu me envolvi. Quantos loopings e montanhas russas gigantes eu entrei...

Tudo pelo frio na barriga?

Tudo pelo excesso de vida?

Tudo pelo vício na adrenalina? Ou pelo vício na minha habilidade de amar e ver brilho nas pessoas e querer mergulhar nas doces marés dos encantamentos e experimentar na própria pele a celebração dos encontros?

E vale a pena, e valeu a pena. Mas mais ou menos na mesma proporção dos risos e gargalhadas que me acometiam, haviam os choros, as frustrações, as rejeições... E a vida é feita disso tudo, eu sei. De altos e baixos, quer coisa mais certa e clichê...

E sim, depois de um tempo e de tantas empreitadas, a gente aprende a lidar com mais familiaridade com as quedas. A gente levanta mais rápido, remenda o coração mais uma vez, não se demora numa paisagem que já passou... A gente coleciona cicatrizes e histórias malucas, conexões fenomenais e fossas profundas. A gente decora a ‘cartilha do como recomeçar’... e já pode até dar aula disso se quiser, a gente já sabe surfar nas ondas que nos descabelam.

Mas eu cansei... cansei de me descabelar. Eu cansei de cair fundo no brilho de um olhar, cansei de deixar as janelas abertas para convites mirabolantes. Cansei de dizer sim para aventuras sem pé nem cabeça, cansei de acreditar que grandes emoções sempre valem a pena.

Hoje eu vejo uma onda gigante me surgindo e eu já sei, eu a furo no ato, e saio do outro lado, ilesa. Eu comecei a preferir os brinquedos mais seguros do parque de diversões. Fico num carrossel sem sustos, fico na monotonia boa dos giros fáceis, fico nas marés mansas que me deixam fechar os olhos em paz.

Onde, também talvez, eu possa ser a versão mais sem graça de mim mesma, ou não tão cheia de vivacidade. Me gasto menos nos dias, e justo por isso, vivo-os melhores. Subo menos alto no amor, e justo por isso tenho fôlego para esparramá-lo ao longo e ao longe das horas.

Porque pra mim, a paz na alma se tornou a maior graça de todas as graças que poderiam existir nos jardins da vida.

Às vezes eu fico louca, porque a delicadeza nem sempre me define

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Às vezes eu fico louca.

Ou é esse o nome que eu mesma e outras pessoas usamos para definir uma amplitude de características ou reações que me tiram do eixo, da linha reta, do equilíbrio, do pacifico, do racional...

Às vezes eu fico louca porque eu ainda não sei apenas observar os assuntos do mundo sem misturá-los com as minhas emoções. Porque eu não sei observar a vida fora de mim. Porque eu não tenho olhos de fazer vista grossa. Porque eu ainda não tenho maturidade espiritual para ver coisas que fazem o meu sangue ferver e controlar essa fervura no mesmo momento com uma boa dose de ‘sou superior a isso’, ou ‘isso não me pertence’, ou ‘nada importa, o meu dia não será perturbado’...

Às vezes fico louca, fico cheia... de revoltas, de dores, de amores, de sentimentos. Fico sem verbo para expressar a mistura dos oceanos íntimos. Mas fico cheia de rugidos, de gestos, de vontades, de energias...  Fico mais pra bicho do que pra gente, sem entender as mensagens subliminares do meu subconsciente. Não saio por aí manifestando por todos os lados, mas eu também não tomo uma pílula para camuflar a minha maluquice.

Quantas vezes o meu grau de loucura, diga-se de passagem, ainda aceitável socialmente, foi definido como tpm, sensibilidade exacerbada, coisas de mulher num dia ruim...

Eu fico louca e não apenas porque sou cíclica. Eu fico louca e não apenas por causa da minha biologia.

Eu fico louca porque algumas vezes não há mais o que me defina, porque a delicadeza e a mansidão que me foram ensinadas a enfrentar os dias muitas vezes não revelam a minha inteireza e escondem as minhas dores, sonhos e gozos, ou seja, grande parte de quem sou.

Fico louca porque dentro de mim há sim algo que ainda não foi domesticado e não tem nome. Chamam isso de loucura. E incluem dentro desse verbete, tudo o que não é permitido. Pejorativamente lhe dão um nome, que diga-se de passagem, tem conotação negativa.

A loucura.

Eu fico louca e escrevo um poema, eu fico louca e mudo os rumos da minha vida. Eu fico louca e percebo coisas que antes não percebia. Eu abro os olhos e os instintos. A loucura é a minha porta para a minha própria saída.

Deve ser por isso que a loucura é tão combatida. Deve ser por isso que tudo se justifica. Deve ser por isso que sempre acaba certo e protegido quem foi menos louco na vida. Há um perigo iminente em quem defende esse nosso magnífico estado de ser.

A gente se atropela

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Quantas vezes nessa vida a gente se atropela...
...atropela o corpo, atropela a alma, atropela o tempo de maturação de um experiência, de uma sensação.

A gente atropela os dias, com todas as tarefas que temos, com os deveres mais importantes, com as coisas mais relevantes, a gente não guarda 10 minutos para sentar, respirar e pensar nos passos dados, na direção dos voos. Não dá tempo de parar o atropelo para meditar sobre nós mesmos.

A gente atropela os sinais do corpo, coloca mais um antiácido no estômago, deixa o xixi pra depois, melhor responder a emergência dos e-mails primeiro. A gente atropela a mastigação do almoço com digitações no celular. A gente atropela o momento de conversa com o parceiro por coisas que temos que postar. A gente atropela um olhar, uma flor, um filosofar mais profundo com um vomitar nossas dores e falar sobre a vida dos outros.

A gente atropela nossos aprendizados diários com pensamentos que não vêm ao caso, a gente atropela a possibilidade de outros entendimentos, de outras interpretações, com a nossa raiva instaurada, com a nossa dor pré-concebida, com os nossos vícios de ser o que já sabemos ser.

A gente se atropela dando ouvido demais para o que, no fim das contas, não interessa nada na nossa estrada. A gente atropela um olhar bonito, um cheiro bom, um momento único com a vontade de que as coisas cresçam e vinguem no momento seguinte.

A gente atropela um momento de chegada, uma fase de alívio, uma veia rasgada, um coração rompido. A gente atropela o luto e o sentimento recém-nascido.

A gente atropela um abraço de uma criança, a gente atropela tantas árvores todos os dias, a gente atropela as boas ideias, a poesia. A gente atropela as soluções com um excesso de problemas, a gente atropela a maré mansa de dentro com imposições e expectativas. A gente atropela quem não se atropela e senta um pouco todos os dias teimosamente no meio da estrada dos atropelados.

A gente atropela os dias, a geografia, a nossa história de vida. A gente atropela o te amo da mãe no telefone, a gente atropela as presenças com a nosso constante foco na falta, a gente atropela os pequenos significados com expressões gigantes que vivemos esperando aterrissar na nossa janela.

A gente atropela o silêncio, o nosso e o dos outros, atropela o futuro com nossos medos bobos, atropela o passado, manchando com nossos apegos e desgostos, atropela o presente com a acidez do desconforto de não saber mais estar na própria pele.

... a gente se atropela

 

Saia do armário, vista as fantasias, tire os sapatos, ao invés de esperar que alguém venha te massagear os pés e te reconstruir o mundo

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Não precisa mexer tanto nos pensamentos, ponderar tantos os passos, evitando tropeços, fazer listas de prós e cons., titubear tanto nas decisões (como se houvesse um caminho certo), se preocupar demais em escolher o futuro que melhor se encaixa na sua personalidade multifacetada.

Vai apenas sendo, hoje, neste dia, o que te anima, o que te infla, o que te enche de curiosidade, beleza, poesia. Me parece que mais importante do que escolher o caminho “correto”, tentar não desagradar sua alma e o mundo ao mesmo tempo, é perceber que todos os roteiros são válidos, e mais do que querer saber os rumos e os resultados, a gente quer mesmo é experimentar a vida em todas as suas possibilidades.

A gente quer dançar tantas danças, experimentar comidas, lugares, sentimentos, mergulhar em diferentes olhares, conversar com o silêncio, abrir os livros, misturar os capítulos, não saber o que vem depois da esquina.

A gente não precisa de tantas garantias, não precisa olhar em volta, pensar que muita coisa poderia ser diferente, a gente não precisa fazer bonito para uma plateia imaginária chamada família, amigos, mundo, a gente não precisa suprir e nem criar expectativas enormes, baseadas em meras ilusões de felicidade.

Vai apenas aí vivendo seu dia. Coloca amor no café que você coa, abre a porta, que o sol ainda entra por menos que você perceba.  Anda na rua, veja que tem gente que ainda diz bom dia.  Larga mão de manipular os sentidos da sua história, pensa menos nos leitores, pensa menos nos clímax, nos conflitos, nos romances. Vai trilhando seus capítulos experimentais, quebrando regras, sendo mais Bergman do que Allen. Deixa que as coisas pousem sem nomes. Saia da linearidade que te norteia...

Saia do armário, vista as fantasias, solte os cabelos, tire os sapatos, ao invés de esperar que alguém venha te massagear os pés e te reconstruir o mundo.

Passeie pelos seus próprios jardins, porque se a flor do vizinho sempre te parece mais bela, deve ser porque sua velha alma se esqueceu como se auto cultivar.

Então reaprenda-se! Liga o foda-se, e desliga todas essas falas bestas que teimam em te colorir os dias.

sobre aquele velho vício de acinzentar os dias

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Quero falar um pouco sobre a tristeza.

E começo cheia de dedos pois não sou nenhuma PHD dos estados da alma humana, sou apenas uma poeta empática que observa a si mesma neste mundo e as pessoas em volta. E é nesse pé que eu quero falar sobre a tristeza.

A tristeza pode ter diversas formas, intensidades, colorações. Talvez hoje eu quero apenas divagar sobre um tipo de tristeza, uma melancolia que já me tomou tantas vezes os dias, que foi morar nos meus olhos, que me fez pensar que esse era o jeito adulto de estar na vida.

Todos sentimos tristeza, independente de classe, gênero, idade...
Mas há um tipo de tristeza rotineira, há um tipo de tristeza (sutil e forte) que cria um espaço tão bem definido na nossa alma, que parece constituir a nossa essência e o nosso estar no mundo. Não é que a gente não saiba mais sorrir, mas os nossos olhos carregam um peso que podem desabar em lágrimas ou desânimos com qualquer descuido pequeno no caminho. A gente desaprende a relaxar num momento, a ligar o foda-se para os assuntos grandiloquentes, a dar risada dos pensamentos negativos. A gente sempre tem uma sombra de tristeza por dentro que quando nota o nosso relaxamento, vem cochichar nos nossos ouvidos ‘olha, não fique assim tão satisfeito, porque você ainda não resolveu isso, aquilo e aquele outro, porque as pessoas te machucam, porque o mundo é cruel e o amor não lhe está disponível...’

E a tristeza vem acinzentar os nosso momentos sem importância. Vem colocar significado nos nossos afazeres simples do dia a dia. Vem dar um belo toque dramático no nosso temperinho simples de rotina.

Pra mim tristeza assim pode ser um vício. Vício nosso de querer colocar notas a mais na simplicidade da vida, vício de acreditar que carregamos culpas sem fim, vício de achar que não podemos relaxar os ombros e deixar que as marés da vida atuem silenciosamente nos nossos destinos.

Desaprendemos a sutil capacidade de ser feliz por nada. Porque a gente se cobra muito, porque a gente mede as consequências de tudo, porque a gente vive o dia de amanhã e a vida dos outros.

Às vezes essa tristeza nos coloca de cama, sem coragem pra nada, perdemos a força para fazer coisas que gostamos, nos entregamos a esse estado de espírito. Eu sei, ele aparece e às vezes é mesmo maior que tudo. Mas a gente precisa começar a, devagar e sempre, resgatar a nossa infância perdida, o nosso gosto por fazermos as tarefas do dia sem tantos pesos no corpo e na mente.

A gente pode pegar uma vassoura, ligar uma música, sorrir para o gato que passa, dar uma volta no bairro, espantar a responsabilidade de ser grande, navegar numa maré mais tranquila.

A gente esqueceu disso, mas é permitido não saber do dia de amanhã, seguir roteiros diferentes do que a maioria, exigir menos da gente mesmo e das pessoas, puxar o tapete de quem só sabe reclamar.

A gente pode focar em cuidar do próprio jardim, desativar as expectativas. Abrir as asas, respirar fundo, quebrar as pernas das muletas e deixar a alma ser livre no mundo.

Parece que seguindo assim, mais leve no sentir o mundo, devagar a gente vai mudando o tom da vida, vai corrigindo a postura da alma, vai acreditando mais na luz do sol que entra inevitavelmente pela janela do que nos pântanos que ocuparam os nossos jardins internos.

Prefiro pessoas cruamente humanas à pacotes de encantamento

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Uma certa luz entrou pelas frestas do meu corpo e começou, silenciosamente, a retirar as sombras de ilusões que em mim sempre fizeram morada.

Este é um momento em que a gente começa sutilmente a não confundir mais tanto o nosso verdadeiro eu com as nossas projeções e idealizações. É quando a gente começa a ver além e aquém das necessidades inventadas e ensinadas. Que começamos a não cair em tantos dramas pessoais, em conflitos e dualidades, porque entendemos o que é ilusão e o que é amor e onde eles moram dentro da gente e como são acessados e que energia despertam.

E começamos a escolher o que nos faz realmente bem e não mais as caixas encantadas de fogos de artifício que explodem rapidamente na nossa alma e depois se dissipam no céu das possibilidades infinitas.

A gente começa a preferir conviver e a perceber as pessoas mais íntegras do que aquelas que trazem pacotes de encantamento.

Não precisamos mais passar horas pensando em qual sonho se encaixa mais nas nossas projeções futuras, ou na vida ideal que queremos ter.

Já não medimos mais racionalmente o aceitável e o inaceitável. Rasgamos as listas das nossas prioridades mundanas. Deixamos de acreditar em tudo o que vemos para acreditar no sentir. Deixamos de ouvir e nos abalar por tantas falas para que o silêncio ganhe espaço. Deixamos de dar tanto peso às verdades ditas em voz alta e nos sentimos mais atraídos por pessoas e estilos de vida mais coerentes com a nossa natureza humana.

Porque as ilusões tendem a ser lindas, mas muitas vezes também desconfortáveis (mesmo quando a gente já está muito condicionado a andar de salto alto, hora ou outra , ilusões voltam a apertar nossos calos inconscientes).

Então a gente entra numa outra sutil energia de querer apenas decidir o dia de hoje, e isso é a maior glória.

A gente percebe que felicidade é uma construção bem mais simples do que as complexas pirâmides de sonhos em que nascemos imersos.

Começamos a querer ficar perto de pessoas que não têm medo ou vergonha de despirem a alma. Que têm coragem de se acessar mesmo que isso possa quebrar estruturas sociais.

Aprendemos que nenhuma situação e ninguém vai salvar nossas vidas e que o único jeito de fazer isso é abrindo-nos para a nossa verdade mais íntima.

Começamos, nós mesmos, a não mais vestir tantas fantasias porque não queremos atrair pessoas e histórias pela nossa falsas cascas, posturas, status... Desmontar todos esses ruídos de encantamento leva tempo, é mais fácil caminhar sendo o mais simples de você e assim filtrar, estar perto, desde o início, do que interessa.

A vida é muito curta pra gente viver entrando e saindo de salões de máscaras de egos encontrando egos.

E mesmo que a gente já saiba ter a fantasia mais bonita da noite, a gente deveria escolher andar nu, vestido da própria pele - frágil, livre, segura e cheia de si.

Dançando na vibração de poder estar aqui e agora em plenitude.

 

 

Solteira, eu sou um desastre

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Eu solteira sou um desastre.

Talvez porque eu fique plantando rosas em solos aquáticos.

Ou talvez eu seja a única a despir a alma no meio do quarto. E a mostrar quão complexamente simples é uma pessoa que se recusa a vestir a fantasia dos jogos.

Talvez, em certo momento, tudo em mim vire um presente muito facilmente desembrulhável e então é deixado de lado depois de algumas brincadeiras.

Talvez eu seja peteca em terras de jogos digitais: tão singela, tão inútil, tão difícil de entender o uso nos dias de hoje... sem sentido, talvez, mas de alguma forma despertando alguma nostalgia nos corações.

Solteira, eu sou um desastre.

Fico pisando em ovos para não ser atingida por irresistíveis investidas. Fico cheia de dedos, tateando o escuro das almas desconhecidas. Fico fora do meu coração, tentando captar sentidos e significados nos gestos, antes de deixar um alguém criar em mim frestas.

Fico fechada, buscando mais paz do que amor.

Até que... até que bate uma atenção cuidadosa, até que olhos parecem chegar perto, até que, pela posição da lua, pelas garrafas de vinho vazias, pela necessidade de arejar o mofo das minhas paredes de pedras, eu, sem perceber, decida escancarar minhas portas, devagar, mas completamente.

E aí meu filho, não é pouca gente que não queira quase que de imediato sair correndo.

Alguns vão de fininho, outros bruscamente, tem gente que ainda fica, vez ou outra traz uma marmita.

E eu fico mal, fico bem, ligo o foda-se, fico zen. Orgulhosamente remendando meu coração com consolos.

Eu solteira, uma hora caio, uma hora entro, outra hora já nem tento.

Mas sempre desastradamente saindo nada ilesa, talvez mais lesada e desentendida dos funcionamentos alheios.

Fico gastando tempo me recompondo e criando truques para o meu pensamento parar de aportar naquela ilha inventada.

Fico gastando energia para criar, depois destruir; para entrar e depois sair; para amar e depois ignorar.

Comicamente dramática. Desabando lágrima para ver se o oceano de dentro seca de uma vez e para ver se a calmaria pós-ressentimento dá logo as boas-vindas.

É muito desprendimento, é muito dilúvio, são muitas estações chegando nessa minha terra antiga, numa alma que teima em preservar o acreditar.

Eu solteira... penso que qualquer assunto é assunto para uma prosa poética.

 

A humildade de amar e deixar as verdades irem por água abaixo

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Ah, como a gente tem que ser humilde para amar!

Como a gente tem que acolher as dúvidas, as incertezas que nos transpassam e aceitar que nossas verdades, vez ou outra, vão levar rasteiras, vão ir por água abaixo.

Para amar, ah! como a gente tem que, tantas vezes, deixar o orgulho ser desmoronado – tijolinho por tijolinho –  e ficarmos crus e desapegados do que era a nossa mais íntima proteção. Esse orgulho que a gente confundia com amor próprio. Mas era só medo de sofrer demais e de novo.

Porque se a gente, por vezes, não deixar o orgulho de lado, não há espaço para os perdões e os renascimentos. E parece que o amor é planta em constante transformação, se a gente se apega à semente, a gente nunca verá a árvore. Se a gente não se deixa desestruturar, se a gente não sede, até ao que é grande e certo dentro da gente, a gente não dança com a energia do amor.

Ah, como a gente tem que passar dos nossos limites tão minuciosamente estabelecidos, dizer não, sair de perto, ficar só por um longo tempo, meditar, encarar nossas sombras e voltarmos para o mundo mais serenos, menos vitimados e vaidosos.

Porque duas máscaras podem se beijar perfeitamente por algum tempo, mas duas almas nuas precisam sempre de coragem para evoluir. E nem sempre estamos dispostos a isso. Evoluir cansa. Mas o amor precisa disso.

E mesmo com tantos beijos e rasteiras, com tantos desencontros, reencontros, nascimentos e mortes... A gente precisa ter a doçura da maturidade para manter o coração sempre aberto para mais. Porque assim é a vida.

Às vezes tudo se rompe. Às vezes tudo se fortalece.

Mas, em qualquer história que seja, o amor me parece ser o contrário de qualquer jogo de cartas marcadas e de passos bem dados.

O amor parece ser algo como a natureza: caótico, um sem sentido mas com tanto sentido! O amor parece estar neste mundo há muito mais tempo do que nós homo racionales sapiens.

As árvores nos ensinam a amar. Um lagarto estirado no quintal nos ensina a amar. A chuva, que cai com cheiro de terra húmida trazendo cores de outros rios, nos ensina sobre amar. Sobre a inconstância das nuvens, sobre a flexibilidade das almas. Sobre as surpresas inesperadas e as transformações constantes...

Sobre o desencanto das aparências para o reconhecimento de uma essência comum.

Ah! Como a gente tem que ser humilde para receber o amor.

Perceber que de nada temos controle. Mas podemos ter muita vontade de amar, de crescer, de viver, de respirar profundamente as nossas possibilidades de sentir.

A gente pode pegar uma caneta e tentar escrever a própria história, mas que as janelas e portas fiquem abertas para que a gente não se esqueça da força das marés e dos ventos e das surpresas e mistérios que nos invadem.

Muito mais que amar alguém ou algo, é amar a vida, e a vida é isso.

Eu já não me apaixono mais, agora eu apenas me encanto

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Eu já não me apaixono mais, agora eu me encanto.

Paixão é um momento de êxtase, é efeito alucinógeno causado por uma necessidade de vida. Paixão muda a química do corpo, deixa tudo à flor da pele, o sangue corre mais rápido, a vida fica cheia de sensações e de pequenas explosões. Paixão é algo que surge para que as rotinas se quebrem, a monotonia desapareça, e a gente se lembre que ainda está vivo.

A paixão é cega, parece ser uma necessidade de sentir a vida no seu ápice, de sentir vibrações intensas percorrendo as veias; por isso a paixão inventa, é amiga da ilusão, vê mais cor no mundo, transforma o cheiro do ser amado no perfume preferido, acha tudo lindo, louco e imenso, e quer sempre mais uma dose para alimentar essa chama alta e passageira. Pela necessidade de fascinação, vê coisas onde não existem, coloca pessoas no patamar de deuses, chega perto de sentir a perfeição. Mas só pelo tempo que durar... Depois se dissipa em nada e a gente até ri de si mesmo.

Eu já não sinto paixão. Pra mim qualquer ser humano é apenas um ser humano, claro, ainda me admiro com as pessoas, ainda vejo beleza e vontade de ficar perto, de me vincular, ainda sinto arrepios na pele, e tenho sonhos rondando meus pensamentos. Mas, meu coração parece não ficar mais assim cheio de adrenalina a todo momento, é outra vibração o que agora me passa por dentro, é isso o que eu chamo de encantamento.

O encantamento é uma energia mais sutil. No encantamento a gente não vê coisas a mais numa pessoa, a gente não precisa sentir ciúmes, querer saber dos caminhos da vida dela, a gente não precisa ficar inseguro, com medo de que se a gente não chegar muito perto, a queda pode ser muito grande. (Na paixão é assim, porque da ruptura da bolha de ilusão até a realidade, a queda é longa). No encantamento não há queda, pois já estamos com os pés no chão. É um sentimento consciente, lúcido, que não cria coisas extras, fantasias e apetrechos para enfeitar a vida; o encantamento enxerga da pele pra dentro. Quem aprende a se encantar por pessoas, fica empático, vira observador, sorri com detalhes pequenos, essas coisas que quase passam despercebidas, mas revelam tanto do interior de uma pessoa.

O encantamento se interessa por seres que brilham de dentro pra fora. Se interessa pelo jeito de viver, pelo tom de voz, pela forma de olhar. O encantamento sabe ver pessoas de verdade, conecta um humano no outro, rompe grandes expectativas, cria meditação e amizade. A vida vira uma contemplação.

O encantamento é a surpresa boa de encontrar uma pessoa tão bonita no mundo. E isso, por si só, já é uma grande alegria.

Não importa se a pessoa é minha, dela ou de mais ninguém. A felicidade é ter o prazer desse encontro e é saber que ainda existem pessoas que valem a pena sentir.

O encantamento se satisfaz com um aprendizado compartilhado, com momentos de verdade, com carinho, amizade, trocas de qualquer tipo...

No encantamento o coração não fica descompassado, o estômago não queima, as emoções não vão de um extremo à outro dentro da gente. Isso é paixão. No encantamento a gente reaprende a respirar mais profundamente, a não se preocupar com o caminhar de cada um, a gente gosta da troca, e ela é mais saudável e menos exigente.

A paixão é um foguete que se perde no espaço, o encantamento é um pássaro planando no ar.

Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem

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Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem, com rituais exteriores, com votos ditos altos, com símbolos marcados no corpo, mas com almas pouco despertas. Não busco mais viver uma união de cegueiras, um relacionamento em que um ampara a mentira ou a ilusão do outro, em que quase tudo fica na superfície por termos medo de mexer no que assustaria a todos.

Busco sim companhias para a caminhada, amizades corajosas, trocas de aprendizados, amparo mútuo nesse caminho doce e difícil de flexibilizar o olhar e romper condicionamentos e ciclos viciosos.

Não busco mais um colo familiar e confortável, reconhecível pelas minhas células femininas ancestrais, que atraem o que foram educadas por séculos. Não procuro um alguém para eu repousar a mulher que a cultura me ensinou a ser, porque dentro de mim e no espírito do mundo eu ouço que é tempo de transformar, de despertar, de aprender a deixar o propósito maior da vida vir à tona.

Porque eu ando aprendendo que o meu corpo sabe dizer onde ele gosta de se encaixar, que o meu coração pode ficar mais leve, que a minha alma só pertence a mim mesma e quem chega perto é um visitante que eu posso querer ou não receber.

Por isso, às minhas mãos eu quero que se unam mãos desbravadoras, quero olhos ousados como os meus, quero seres que sejam espelhos revelando as minhas sombras que sozinha eu não consigo ver, e que os sustos desses insólitos contatos com os meus porões não me façam sair correndo, mas me insuflem energia para querer desbravar-me mais ainda e limpar as crostas antigas das paredes da minha alma.

Quero também, a companhia que saiba também abrir as minhas janelas e portas e não tenha medo de encontrar a luz radiante dos meus sóis. E que eu esteja preparada para o mesmo! Que a gente possa unir nossa energia vital, essa coisa que é maior que nós e que pode causar tanto medo pois é um gostinho do que seria a morte, já que é exatamente o auge da vida.

Que a gente tenha estômago e coração para ver nossas sombras e luzes, nossas inteirezas e assim nos libertarmos de sermos apenas vultos de nós mesmos.

Que a coragem esteja nos nossos passos, que, com amor, a gente saiba abrir frestas um no outro, para que a nossa essência respire. Que a gente respeite os ritmos, principalmente o nosso próprio, que a gente deixe o amor ser como onda, que vem e vai, que foge ou fica... Que saibamos que nada está nas nossas mãos, por isso mesmo podemos relaxar.

Que sigamos nos desvendando um no outro, um com o outro. Que a vida seja um estudo compartilhado de dois cientistas que aceitam ser as próprias cobaias.

Que a gente possa ficar cansado e titubear, mas que as nossas companhias sejam fortalezas, ponte e inspiração, para que nossos passos, mesmo que hesitantes, sigam sempre em frente.