Eu já não me apaixono mais, agora eu apenas me encanto

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Eu já não me apaixono mais, agora eu me encanto.

Paixão é um momento de êxtase, é efeito alucinógeno causado por uma necessidade de vida. Paixão muda a química do corpo, deixa tudo à flor da pele, o sangue corre mais rápido, a vida fica cheia de sensações e de pequenas explosões. Paixão é algo que surge para que as rotinas se quebrem, a monotonia desapareça, e a gente se lembre que ainda está vivo.

A paixão é cega, parece ser uma necessidade de sentir a vida no seu ápice, de sentir vibrações intensas percorrendo as veias; por isso a paixão inventa, é amiga da ilusão, vê mais cor no mundo, transforma o cheiro do ser amado no perfume preferido, acha tudo lindo, louco e imenso, e quer sempre mais uma dose para alimentar essa chama alta e passageira. Pela necessidade de fascinação, vê coisas onde não existem, coloca pessoas no patamar de deuses, chega perto de sentir a perfeição. Mas só pelo tempo que durar... Depois se dissipa em nada e a gente até ri de si mesmo.

Eu já não sinto paixão. Pra mim qualquer ser humano é apenas um ser humano, claro, ainda me admiro com as pessoas, ainda vejo beleza e vontade de ficar perto, de me vincular, ainda sinto arrepios na pele, e tenho sonhos rondando meus pensamentos. Mas, meu coração parece não ficar mais assim cheio de adrenalina a todo momento, é outra vibração o que agora me passa por dentro, é isso o que eu chamo de encantamento.

O encantamento é uma energia mais sutil. No encantamento a gente não vê coisas a mais numa pessoa, a gente não precisa sentir ciúmes, querer saber dos caminhos da vida dela, a gente não precisa ficar inseguro, com medo de que se a gente não chegar muito perto, a queda pode ser muito grande. (Na paixão é assim, porque da ruptura da bolha de ilusão até a realidade, a queda é longa). No encantamento não há queda, pois já estamos com os pés no chão. É um sentimento consciente, lúcido, que não cria coisas extras, fantasias e apetrechos para enfeitar a vida; o encantamento enxerga da pele pra dentro. Quem aprende a se encantar por pessoas, fica empático, vira observador, sorri com detalhes pequenos, essas coisas que quase passam despercebidas, mas revelam tanto do interior de uma pessoa.

O encantamento se interessa por seres que brilham de dentro pra fora. Se interessa pelo jeito de viver, pelo tom de voz, pela forma de olhar. O encantamento sabe ver pessoas de verdade, conecta um humano no outro, rompe grandes expectativas, cria meditação e amizade. A vida vira uma contemplação.

O encantamento é a surpresa boa de encontrar uma pessoa tão bonita no mundo. E isso, por si só, já é uma grande alegria.

Não importa se a pessoa é minha, dela ou de mais ninguém. A felicidade é ter o prazer desse encontro e é saber que ainda existem pessoas que valem a pena sentir.

O encantamento se satisfaz com um aprendizado compartilhado, com momentos de verdade, com carinho, amizade, trocas de qualquer tipo...

No encantamento o coração não fica descompassado, o estômago não queima, as emoções não vão de um extremo à outro dentro da gente. Isso é paixão. No encantamento a gente reaprende a respirar mais profundamente, a não se preocupar com o caminhar de cada um, a gente gosta da troca, e ela é mais saudável e menos exigente.

A paixão é um foguete que se perde no espaço, o encantamento é um pássaro planando no ar.

Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem

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Não busco mais uma história de amor dessas que os séculos repetem, com rituais exteriores, com votos ditos altos, com símbolos marcados no corpo, mas com almas pouco despertas. Não busco mais viver uma união de cegueiras, um relacionamento em que um ampara a mentira ou a ilusão do outro, em que quase tudo fica na superfície por termos medo de mexer no que assustaria a todos.

Busco sim companhias para a caminhada, amizades corajosas, trocas de aprendizados, amparo mútuo nesse caminho doce e difícil de flexibilizar o olhar e romper condicionamentos e ciclos viciosos.

Não busco mais um colo familiar e confortável, reconhecível pelas minhas células femininas ancestrais, que atraem o que foram educadas por séculos. Não procuro um alguém para eu repousar a mulher que a cultura me ensinou a ser, porque dentro de mim e no espírito do mundo eu ouço que é tempo de transformar, de despertar, de aprender a deixar o propósito maior da vida vir à tona.

Porque eu ando aprendendo que o meu corpo sabe dizer onde ele gosta de se encaixar, que o meu coração pode ficar mais leve, que a minha alma só pertence a mim mesma e quem chega perto é um visitante que eu posso querer ou não receber.

Por isso, às minhas mãos eu quero que se unam mãos desbravadoras, quero olhos ousados como os meus, quero seres que sejam espelhos revelando as minhas sombras que sozinha eu não consigo ver, e que os sustos desses insólitos contatos com os meus porões não me façam sair correndo, mas me insuflem energia para querer desbravar-me mais ainda e limpar as crostas antigas das paredes da minha alma.

Quero também, a companhia que saiba também abrir as minhas janelas e portas e não tenha medo de encontrar a luz radiante dos meus sóis. E que eu esteja preparada para o mesmo! Que a gente possa unir nossa energia vital, essa coisa que é maior que nós e que pode causar tanto medo pois é um gostinho do que seria a morte, já que é exatamente o auge da vida.

Que a gente tenha estômago e coração para ver nossas sombras e luzes, nossas inteirezas e assim nos libertarmos de sermos apenas vultos de nós mesmos.

Que a coragem esteja nos nossos passos, que, com amor, a gente saiba abrir frestas um no outro, para que a nossa essência respire. Que a gente respeite os ritmos, principalmente o nosso próprio, que a gente deixe o amor ser como onda, que vem e vai, que foge ou fica... Que saibamos que nada está nas nossas mãos, por isso mesmo podemos relaxar.

Que sigamos nos desvendando um no outro, um com o outro. Que a vida seja um estudo compartilhado de dois cientistas que aceitam ser as próprias cobaias.

Que a gente possa ficar cansado e titubear, mas que as nossas companhias sejam fortalezas, ponte e inspiração, para que nossos passos, mesmo que hesitantes, sigam sempre em frente.

O sexo é consequência da forma como a gente tece os dias

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O sexo que a gente faz no sábado à noite começa na segunda-feira de manhã.

A transa boa do fim do dia, a vontade que surge na proximidade dos nossos corpos começa bem cedinho, quando você acorda antes de mim e prepara uma água morna com limão, e eu saio para comprar um pãozinho fresco na esquina. A nossa transa boa começa com os olhos e com o silêncio, na leveza que a nossa convivência consegue manter. Faz parte dessa transa as risadas que a gente ainda sabe dar um com o outro, as pequenas gentilezas no cansaço da rotina. O nosso sexo é resultado dos dias que soubemos descansar o corpo e a mente, das noites que dormimos inteiras, das mãos que demos ao atravessar as ruas e os problemas.

É bom como a frase ‘fica tranquila, vai ficar tudo bem!’, naquele dia em que tudo desaba e a gente não vê saída. A energia do nosso ato de fazer amor começa na gratidão que estamos aprendendo a sentir pelo universo, na paixão que a gente preserva pela vida, no café preto que a gente senta na varanda pra tomar quentinho, segue pelo vinho tinto que gostamos de degustar numa quinta-feira monótona.

Nosso fazer amor passa pelos filmes bobos que a gente assiste, pelas mudas de tempero que a gente plantou no quintal, pelos planos compartilhados, pela simplicidade que a gente soube voltar a ter nesse mundo. Nosso sexo é desnudo, é humano, é instintivo, é consequência de uma vibração boa, relaxada. Na nossa cama não tem dinheiro, carros caros, alugueis atrasados, não tem lingerie de luxo, atuações despropositadas. Na nossa cama a gente não deixa entrar ciúmes, celulares, forçação de barra.

Às vezes tem um pinto mole e uma vagina seca. Às vezes tem ronco, mau hálito, sono profundo. Outras vezes tem luz boa da terça-feira de feriado, tem umas horas a mais pra não fazer nada, tem a primavera chegando e animando as nossas almas aventureiras.

Nosso sexo é livre, simples e ousado. Sem regras, sem exigências. É consequência da forma como a gente tece os dias. Às vezes ele é lento, às vezes é rápido, às vezes é intenso, às vezes é mais raso, mas ele é sempre respeito, carinho, amor, bom contato. Às vezes a gente dá risada, às vezes a gente chora juntos.

Nossas transas são coisas boas da vida, imperfeitas como a gente gosta de ser, espontâneas, verdadeiras, criativas e tão manjadas.

Quando a gente briga a gente não quer transar, a gente nunca acaba em pizza, porque pra nós sexo é um manjar dos deuses, é um ritual, é um banquete, mesmo que seja de pão com queijo derretido, sempre faz muito sentido, a gente sempre dá valor e põe boas intenções.

Nossas preliminares (antes das propriamente ditas) são a vida, por isso na hora do vamos ver tudo se encaixa, mesmo que nada entre, mesmo que nada transborde.

Às vezes somos mar em movimento, outras vezes suspiro na praia.

Não que a vida seja só sexo, mas tudo que passa nela vibra na cama, no contato de nossos corpos e almas.

Lembra? da vida que se perdeu..

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Às vezes paro para observar como temos vivido nos dias de hoje e o que me vem à mente são pessoas em suas matrix numa realidade em fast motion.

É tudo tão urgente, é tudo tão rápido, tão abundante e raso – as conversas, as trocas, o jeito de sentir a vida. Me parece que os olhos e o coração não conseguem dar conta de reter as sensações de situações e pessoas que atravessam as nossas vidas.

Vejo encontros que passam e não deixam nem lembranças na pele, historinhas que acontecem e depois de duas semanas já se dissolveram totalmente, foram parar no universo das coisas que se perderam e nunca serão procuradas, foram substituídas por uma versão mais atualizada.

E, no entanto, temos uma ânsia por acumular essas coisas e esses momentos que dificilmente serão reacessados. A gente não vai lembrar das viagens, a gente vai se esquecer dos papos, das transas, das amizades repentinas que fizemos, vamos esquecer o nome da capital daquele país do leste europeu e o sabor da uva do vilarejo do Uruguai – se é que não era na Argentina.

Vamos esquecer de olhar as 500 fotos que tiramos num pôr do sol do pacífico. Não há mais álbuns de memórias, nem fora e nem dentro da gente. A gente não senta mais no sofá numa tarde de domingo para folear a nossa vida e sentir um pouquinho de nostalgia. A gente não precisa sentir nostalgia, todos os amigos de infância estão no nosso facebook, as nossas melhores fotos estão no instagram, as músicas da nossa infância e adolescência estão remixadas no spotfy.

Pra que parar, se há tanto para viver, se o mundo ficou pequeno, se os encontros são fáceis? Pra que deixar o celular de lado numa tarde, se as maiores novidades do dia estão nele? E precisamos consultar a nossa própria existência.

A gente não questiona mais, as nossas filosofias vêm prontas em capsulas nos documentários da netflix. Dizem que devemos ser veganos, comer orgânico, e a gente se adapta, começa a seguir uma nova dieta, mas a gente nunca coloca a mão na terra, não observa o crescimento natural do alecrim, a gente não tenta entender o que é preciso fazer para que uma semente vire muda.

Nos dizem que devemos ser criativos, pois foi descoberto na universidade de Harvard que pessoas criativas são mais felizes, e a gente, então se adapta, cria um espacinho na nossa agenda já tão atribulada e começa a fazer dança, pintura ou arriscar uns versos que ilustram bem a nossa falta de profundidade. Só que a gente não fecha os olhos e deixa uma energia diferente nos desconstruir, a gente não coloca as mãos nos vincos da madeira, a gente não olha nos olhos de uma tela em branco, a gente não silencia e deixa que a poesia venha.

E ainda, por nossas frustrações diárias, por nossas dores e sensações mais difíceis de entender que foram varridas pra debaixo do tapete, a gente procura se espiritualizar. Aprendemos frases feitas, entramos nos grupos dos chás, lemos os mantras do despertar de consciência.

Assim não precisaremos realmente nos acessar, criamos mais um monte de

patuás para virar escudo de nós mesmos, para colorir a nossa bolha protetora.

A gente pega assim tudo sem maturar, sem esperar que germine e crie raízes e chegue até a alma. A gente vive tudo sem adentrar, a gente tem medo de se desestabilizar, tem medo de ficar perto de gente que nos faz questionar, tem medo de amar de verdade, tem medo de mostrar coisas nossas que desconhecemos, tem medo de ficar pra trás, de não curtir o momento, de perder tempo tendo que percorrer inúmeras veredas de autoconhecimento.

Perdemos o tesão de sermos ousados e corajosos, perdemos a audácia de arriscar a pele e o coração, perdemos a vontade íntima de analisar as nossas próprias frustrações. Perdemos o tesão de tocarmos as pessoas com verdade, de ver as coisas fora do nosso umbigo, de nadar num mar sem ter que lembrar de fazer um selfie.

A gente perdeu.

Que o vento leve o que não for leve

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Às vezes, nas nossas relações humanas, a gente tem que ser mais vista grossa do que acolhida, mais silêncio do que escuta, mais distância do que se deixar invadir por dores que não são nossas.

Temos o costume de achar que ser assim é ser desumano, indiferente, frio. Achamos que se a gente não escuta, não acolhe, não participa da dor do outro, dos problemas de alguém, da carência, estamos sendo egoístas. Mas a verdade é que se fechar e se preservar pode ser uma atitude bastante altruísta.

Ignorar falas carregadas, sair de perto de provocações baratas, criar silêncio onde havia uma inundação de dores e palavras é uma forma de quebrar círculos viciosos, romper uma energia que não está se transformando, mas apenas se propagando.

Porque, às vezes uma pessoa se abre, fala, desabafa para receber ajuda, para se observar de fora, para aprender e mudar de energia. Mas, tantas outras vezes, os desabafos não têm esse tom de mudança, eles são apenas apegos na dor, na vitimização, buscando um ouvido, um coração para fazer ninho e validar ainda mais essa verdade, esse apego.

Se a gente ouve e entra na dança, se absorvemos as lágrimas, se nos amargamos com as reclamações desenfreadas, se nos irritamos com provocações baratas, a gente contribui para que a doença se propague e cresça. Ela ganha força, ganha credibilidade, a maré avança.

Às vezes, as pessoas querem se nutrir dessa forma de atenção, às vezes esse peso que trazem é a forma que elas encontraram para se sentir importantes. Mas esta é uma nutrição fraca, sem vitaminas, não alcança os níveis profundos da alma.

Estes são alimentos junk food pra alma. Saciam por algumas horas, ocupam os buracos das dores, os vazios existenciais, mas não trazem transformação e uma paz mais profunda.

É mais fácil comer um cachorro quente na esquina, é mais fácil não questionar os próprios hábitos e vícios. É mais fácil continuar encontrando um ouvido junk food para alimentar a nossa sina.

A escolha de transformar a forma de ver e de ser no mundo, para ser mais leve, independente emocionalmente e com uma boa reserva de amor próprio, requer aprendizado, consciência, vontade, empenho e atenção constantes.

Nem todos estamos dispostos a empreender esse caminhar. Mas se a gente está, se a gente já sabe se autoconectar e sanar as próprias dores, com ajuda sim, mas sem dependência completa, acho que a gente tem também que impor limites, tem que escolher não se doar sempre, tem que lavar as mãos e fechar os olhos para o que não é nosso. Se a gente vê que escutar não está ajudando, que a troca está sendo desequilibrada, que o que está chegando até nós é apenas lixo existencial sem intenção de ser reciclado, é melhor a gente sair do barco, porque ele está furado.

Algumas vezes a gente não consegue contribuir para que as coisas se renovem e boas energias floresçam. Então que a gente abandone, mesmo que por um tempo, que a gente siga em frente, que a gente deixe o vento levar.

Que o vento leve o que não for leve, e se não houver vento, então que a gente mesmo faça ventar.

essa maldita empatia exacerbada

Eu sempre entendi os encantamentos dos outros olhos, os amores compartilhados, o distanciamento repentino e a voracidade de uma aproximação. Eu entendi as necessidades do outro, os atropelos por uma honestidade consigo mesmo, entendi a dor, o sofrimento. Eu olhei com olhos humanos as despedidas bruscas, as chegadas inesperadas. Fechei as portas quando só ouvia o barulho de um vento gelado e nada mais entrava. Abri as janelas para primaveras insistentes, dancei a dança da súbita felicidade quando meus olhos vagos miravam o chão. Eu entendi a dúvida em forma de silêncio, os ecos da não comunicação, eu entendi o peso da indiferença, a falta de energia, a rejeição. Entendi a substituição dos protagonismos, os cortes nas participações. Entendi o atraso da percepção, o arrependimento quando já era tarde, a luta para colar os cacos esfarelados de um coração. Eu senti a irritação na presença, a sede de novidade, o sopro de morte amargando os cafés da manhã. Senti as costas doloridas pelo peso existencial da vida de um homem. Senti o ancorar de cada lágrima, a absorção impune da pele, a barba crescendo e o álcool entrando nas veias machucadas. Senti seu travesseiro virando meu colo, as novas mulheres que causavam ainda mais irritação. Senti a raiva, a fúria, a vontade de pegar o primeiro avião. E porque senti tudo o que não era meu, e porque os olhares de dor são como punhais em meu peito, e porque seus pesadelos invadiam o meu momento de meditação; a minha luta de seguir os meus passos, cruzar a maré, nadar na contramão, de romper os nós e seguir a intuição foi sempre um esforço sem tamanho. 
Essa coisa de sentir pelos dois lados, de absorver doçuras e toxinas, de entender que tudo é parte do humano, de ter piedade nos gestos. Essa coisa de ser empático demais, de ouvir demais, de não saber não se importar e andar sem olhar pra trás. Essa coisa de não ter aprendido a deixar que cada um viva sua própria alegria ou ruína... essa coisa toda sem pés nem cabeças, sem heróis ou vilão. Como é que se relaxa os ombros quando o mundo pulsa na minha vibração?

Outro dia desses eu me divorciei

Outro dia desses eu me divorciei.

Saí da casa, da vida, da rotina.

O luto foi longo sim, luto de separação é sempre complexo. Vem a culpa, vêm os medos, as questões morais, a solidão, a loucura, a saudade, os apegos e os desapegos, os heróis e vilões, as roupas sujas expostas na sala de visitas.

Outro dia eu me divorciei.

E tanta gente me perguntou o porquê.

Me disseram que relacionamentos são complexos, difíceis mesmo. Que a gente tem que enfrentar os desafios diariamente. Que a gente tem que passar por cima de tanta coisa, fazer vista grossa, tem que reconstruir, perdoar, recomeçar inúmeras vezes.

Mas ninguém diz como é mais difícil ainda ser outro dentro de um ciclo vicioso, ninguém conta como é quase impossível mudar as células viciadas em padrões, quebrar os comodismos culturais dentro de um acordo pré-estabelecido. Ninguém diz que normalmente o equilíbrio pende mais para um lado, que os corpos se ajustam às injustiças dos espaços mal divididos, que as mentes se aquietam para poderem ter energia para concretizar o desafio de pagar as contas no fim do mês.

Ninguém diz que esse passar por cima de tudo é na verdade tantas vezes um passar por baixo, é esconder atrás dos cômodos e das almas as dores e as alegrias. É passar por baixo de si mesmo. É voltar, é continuar, é engolir melhor os sapos que vão denunciar os coachados dois meses (ou semanas) depois dos elos reatados e dos perigos amenizados.

É tudo muito sério para deixar de lado.

Dói, é verdade.

Mas, mesmo assim, outro dia desses eu me divorciei.

Porque depois de ser adulta por tantos anos, eu quis voltar a ser espontânea.

Quais os motivos? Me pergunta alguém.

Eu não sei bem... mas sabe quando a gente é criança e a brincadeira está tão boa que a gente se esquece de sentir fome, de olhar as horas, de trocar de carro, e pensar na pós-graduação do filho mais novo?

Sabe quando a gente é criança e encontra um amigo do peito bom de brincar e a gente nem pensa em saber qual é o passado dele, a profissão, as visões de futuro, o dia de amanhã... A gente nem lembra de notar a cor dos olhos dele, eles apenas brilham, a gente não repara nas diferenças, a gente apenas se perde na alegria, no momento.

A gente entra na terra úmida, sobe na árvore, joga a bola alto.

Se o amigo for bom de brincadeira, a gente sem querer querendo fica perto.

Mas, se o amigo é chato, cheio de regras, de competições e conversas, chorão, reclamão, a gente anda, voa, desencana daquela energia. Uma hora a água da vida bate na bunda e a gente desatina. 

A gente se divorcia.

Dia desses eu me divorciei e até o mito de abrir o vidro de azeitonas e a garrafa de vinho se desfez, deve ser porque até meus músculos estão mais despertos.

E não levanto a solidão como bandeira não. Apenas celebro a coragem, a vida, a possibilidade de ser dona de mim. E os amores mais genuínos que virão.

A gente é feito de pele e osso, mas também de remendos dourados

Dói um pouco mais depois passa.

Não há como evitar pequenos traumas na vida, não dá pra fugir de alguns joelhos ralados, do sol que queimou a pele, do frio que cortou os lábios.

A gente é feito de pele e osso mas também de remendos, de regenerações, de células que renascem, se reestabelecem e se reinventam.

O coração quebra às vezes, mas vai virando uma obra de arte mais bela e resistente, como a arte japonesa de kintsugi. Somos um mosaico de porcelana remendados com fios dourados.

Nossos olhos, depois de tantos tombos e tropeços, deixam de ser ingênuos, ficam espertos, mas depois de mais alguns dessabores e anestesias que criamos para nos proteger, deixamos de ser espertos também e decidimos voltar a ser sensíveis para poder degustar bem a vida.

Nessa fase a gente se torna sábio – somamos a bondade e a alegria de viver com a firmeza nos passos. Mergulhamos na vida sem tantas máscaras e amarras, com intenções verdadeiras, mas filtrando o que não agrega, o que limita os voos mais altos.

Olhamos com doçura, já não evitamos quedas, não queremos viver numa bolha que nos furtaria a própria vida, mas já sabemos nos cuidar sozinhos. Respiramos fundo, temos paciência com o tempo de cicatrização de uma ferida, tropeçamos e levantamos de imediato, limpando a poeira do corpo e seguindo em frente. A gente já não tem mais medo de se machucar, a gente tem medo de tornar a vida menor do que poderia.

Dói um pouquinho, não há como evitar.

Pra gente aprender a andar de bicicleta sem rodinhas, a gente cai algumas vezes, a gente chora, mas depois a gente pode voar.

Ficam marcas na pele, emendas nos ossos, cicatrizes nos músculos. Ficam histórias na memória, aventuras e aprendizados. Fica coragem, amor e gratidão no nosso coração.

É melhor que doa um pouco alguns desses nossos passos e tropeços, é melhor que, por vezes, a gente arme nossa alma em cima de um formigueiro, e logo perceba, feche o acampamento e vá embora encontrar uma paragem em que a nossa alma possa ficar um pouco mais e se perder na imensidão de si mesma.

É melhor que a gente erre para depois acertar, é melhor que a gente experimente antes de evitar, é melhor que a gente ame antes de se transformar num autômato que passa pela vida sem se sujar.

Dói um pouco mais depois passa.

Não é que eu não te perdoei, é que você não passou no meu filtro

Chega uma hora em que a gente quer seguir com passos firmes na vida, quer olhar pra frente e seguir pelos caminhos que valem a pena. Chega uma hora que a gente aprende a ter um olhar observador, que a gente se conhece um pouco melhor e sabe como não cair tão facilmente nas armadilhas dos medos, das culpas, das ilusões amorosas. 

Chega uma hora em que a gente quer viver coisas de verdade, conviver com pessoas de verdade, entrar em aventuras para evoluir e não para se divertir e se estrepar; a gente sabe que o tempo é curto, que a vida é rara, que não dá para parar e prestar atenção em tudo, não dá para ouvir o que estão pensando e falando da gente, não dá para pegar no colo dores emocionais que já não nos dizem respeito.

Tem uma hora que a gente decide não tentar consertar o que não tem mais jeito, que a gente já não quer discutir com pessoas que estão em caminhos tão diferentes, que a gente não acredita em gastar tanta energia para mudar uma pessoa - seja um amigo, um namorado, um parente...

Chega uma hora em que a gente não quer gastar tempo e coração remoendo, tentando viver de novo algo que não encaixou bem, a gente não quer mais se explicar, não quer mais se culpar por ter abandonado uma causa, não quer mais se sentir mal por amar mas decidir seguir o que nos engrandece e não o que nos limita e escraviza.

E a gente deixa sim pessoas que foram importantes para trás, a gente já não tem interesse em responder mensagens, em se sentir mal por já não cuidar como antes. Podem chamar isso de egoísmo, mas eu acho que é um altruísmo na verdade – não querer atrasar o próprio caminhar e também deixar que a outra pessoa desperte para o seu propósito.

É um momento em que gente já não quer ser muleta, ouvido, colo... A gente quer ser troca; a gente não quer ceder energia, a gente quer reciprocidade. A gente não quer fazer por merecer, a gente quer ser a nossa verdade e sabe que para pessoas que valem a pena, isso basta, o que somos é suficiente e bom.

Por isso eu acredito em ter os olhos abertos e seletivos, e o coração também. Que o meu coração saiba se respeitar em sua amplitude e necessidades.

Eu acredito que a gente pode aprender a ver o que vale a pena seguir do nosso lado e o que a gente tem que deixar de lado.

Eu acredito que a gente tem que filtrar, abandonar, perdoar sim, mas não querer mais participar de danças que nos limitam, irritam, fragilizam.

E eu ouvi por aí esses dias de um amigo:
‘mas você não me perdoou?’
e eu disse:
‘não foi isso querido, eu perdoei sim, mas você não passou no meu filtro.’

Que loucura falar isso, que loucura fazer isso – pode parecer. Mas pra mim, liberdade mesmo é isso: seguir minha vida e ser dona do meu próprio umbigo. E o que vale a pena vem junto comigo!

O que chamam de ‘amor livre’ pode ser um machismo disfarçado

Dizem por aí que amor livre é quebrar os moralismos, ser dona de si, não se prender a nada e a ninguém.

Mas eu acho que nisso tudo há alguns poréns.

Se por um lado tantas crenças do passado faziam a mulher ter o corpo fechado, nessa nossa liberdade anunciada de agora, em que a gente se abre totalmente, não se cuidar, se proteger, se conhecer e se amar, torna esse outro extremo da realidade tão ruim quanto antes.

Pode ser que viver o amor livre seja uma forma mais moderna de exercitar o machismo e tornar o corpo da mulher ainda mais território público, já pensou nisso?

Por mais que a gente saiba o que quer, do que gosta. Por mais que a gente veja e tenha consciência. Para se cuidar, se respeitar e realmente ser livre, é preciso uma observação profunda, é preciso encarar medos e quebrar mitos. É preciso primeiro viver por dentro a mudança e depois estar (diferente) no mundo.

Não adianta sair de nariz empinado, mostrar segurança nos passos, soltar o corpo e a mente, se no dia seguinte a gente chora sozinha, a gente espera a mensagem que não chega, a gente quer um carinho, a gente se torna possessiva, competitiva, insegura...

E eu não estou defendendo a síndrome de princesa e muito menos querendo voltar no tempo!

Eu acho que a gente tem que ser o que bem queira: rainha, gatinha, tigresa...

Mas desde que a gente se conheça. Porque me parece que ainda hoje, entre tantas mulheres que se dizem evoluídas, soltas e livres, a briga é competitiva e é pela conquista do troféu fálico.

E, na minha opinião, deveria ser bem o contrário.

Se fosse liberdade mesmo isso que a gente vive, as pessoas estariam sorrindo, se amando, se curtindo, se respeitando mais do que se machucando.

As mulheres podem ter conquistado muita coisa, mas a gente ainda busca ser amada, respeitada e livre. Ainda é tão forte essa luta.

Tanto faz se poderosa ou fracassada, sozinha ou acompanhada. Ao invés da gente alimentar nossas carências, nos abrindo para qualquer mané ou cara e não receber nem um terço do que a gente precisava, é melhor encarar a empreitada de curtir a nós mesmas acima de tudo e valorizar o nosso profundo.

Que a gente perceba que liberdade mesmo é despir-se de corpo e alma, e que se for só pela metade não vale a pena, não vale a noitada, não toca a nossa verdade e o voo se torna raso, é uma prisão disfarçada...

Então, que só entre na gente (na alma, no corpo, no espírito) o que fizer sentido, o amor que nutre, a liberdade que alivia.

Não podemos querer que alguém saia do seu próprio caminho para seguir o nosso

A gente não pode se frustrar com o caminho dos outros.

A gente não pode punir alguém por suas escolhas, seu jeito de encarar a vida, seu modo de estar no mundo.

A gente só pode observar com amor e seguir o nosso próprio rumo.

A gente não pode se doer porque o outro não é como gostaríamos, porque a outra pessoa está num momento diferente, num outro passo, numa outra paisagem, num outro aprendizado.

A gente não pode ficar bravo porque, na nossa visão, uma pessoa parece não ver o óbvio, porque ela não desperta na mesma primavera que a gente, porque ela não escolhe o mesmo canteiro para cultivar, porque ela não se interessa pela mesma luz que vemos. A gente não pode dizer ‘venha ver o sol, que daqui da minha janela é tão lindo!’ Se a pessoa está no outro polo admirando a lua.

A gente não pode se revoltar com uma vida que não é nossa, com escolhas de outras almas, por sintonias diferentes. A gente não pode esperar que as frequências se igualem, ou melhor, podemos esperar, mas sem almejar, sem lutar, sem controlar. Qualquer luta destrói a delicadeza da liberdade.

A gente não pode achar que o nosso caminho é melhor, a gente não pode querer cuidar, se a pessoa não quer ser cuidada, a gente não pode esperar que regando uma flor ela se abra. A força da natureza das coisas é maior do que a de nossas mãos sedentas.

A gente só pode observar com amor e seguir o nosso próprio caminho.

A gente também não precisa parar e esperar, olhando para ver no que vai dar, acompanhando outro caminhar e torcendo para que ele possa, enfim, nos encontrar.

A gente não precisa saber o que se passa em outras cabeças. A gente não precisa entender os quebra-cabeças de outras almas.

A gente só pode olhar com amor, sem se envolver, respeitar e seguir o próprio caminho.

Liberdade é seguir, mesmo que sozinho, e encontrar belezas e surpresas que chegam sem esforço, sem empenho.

A gente só pode se empenhar em viver o próprio caminho.

Pra que se revoltar, sofrer se frustrar com alguém que não veio, que não viu, que não percebeu, que não entrou quando estávamos dentro? Pra que se esforçar para ensinar a lição que já sabemos de cor e salteado? Pra que exigir, reclamar, julgar, criticar as cenas do caminhar dos outros?

Livre arbítrio é andar no próprio ritmo, sendo o que se é sem medo de ferir, ajudando e sendo ajudado sim, mas com amor, com aceitação, com liberdade. Incondicionalmente.

Relaxar e deixar que cada um seja a própria escolha, a própria escola, a própria visão de mundo, a própria necessidade do momento.

Foto - Elizabeth Gadd

Tudo o que eu quero para esta noite é um miojinho

Como é bom aquela noite no mês em que a gente se arruma toda, coloca o vestido decotado, a lingerie de renda, o batom carmim, o rímel importado, escolhe um lugar especial para ir jantar com o namorado. Pesquisa com cuidado um restaurante bonito, requintado, que serve comida diferente, cheia de detalhes, um vinho importado, uma sobremesa incrementada.

Uma noite especial pra gente quebrar a rotina, gastar o salário, e sentir agradando a si mesma, como se fosse uma noite de princesa.

E para ser princesa, para viver essa ilusão toda, a gente se esforça, se transforma, a gente cria a atmosfera e espera o melhor de cada momento. Assim a gente valoriza mais a vida.

Mas, sinceramente, numa noite como esta de hoje (e como tantas outras), é bom eu deixar aqui registrado, falar alto, e agradecer ao bendito chinesinho que inventou esse macarrãozinho! Que a minha felicidade de hoje é comer um miojo quentinho debaixo do cobertor.

Ah, o meu miojinho! Ele está ali sempre que eu preciso, pra matar a fome, pra quebrar um galho, pra tapar o meu buraco no estômago. Ele é a resposta mais fácil, acessível, rápida. Vira uma sopa que me conforta o corpo, traz sabor da infância, nem muita louça suja.

Vai bem na frente da TV, combina com a minha calça velha (e mais confortável) de moletom, combina com filme ruim, com cabeça que não quer pensar em nada, com final de domingo.

Ele pode não ser nada requintado, criativo, mas ele sabe me esquentar por dentro.

Ele não liga para o prato, para a mesa, para o talher, para a mulher que segura o bow, ele não se importa se a calcinha é velha, se é madrugada ou meio da tarde. Ele é companheiro, para o que der e vier!

Não precisa de luta, não precisa de jogo de cintura, não precisa de grande investimento de tempo, dinheiro e energia.

Talvez ele não alimente com muitos nutrientes os meus sonhos indecisos.
Mas ele sacia a fome do meu corpo e ampara a carência da minha alma.

De vez em quando é bom um jantar de gala. Mas para todos os dias, bom mesmo é o que está bem ali no armário da cozinha. E que minhas mãos não precisam fazer força nenhuma para alcançar!

Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas

Tenho medo das manipulações genéticas do amor!

Essa coisa de pensar, de analisar, de jogar, de manipular pessoas, corações, momentos, intenções.

Essa coisa de querer colocar as mãos e as expectativas da mente nos sentimentos, de exigir um formato, de direcionar o percurso, pode ser que desestruture um caminhar sereno de evolução e adaptação.

Será que o tempo, a terra, as transformações do entorno não se ocupam de arrumar os destinos? De fazer com que corações se encaixem ou se distanciem?

Tem semente que vinga, cresce bonita, se ajusta ao solo, ao clima, e tem semente que simplesmente não germina. E assim é a vida.

Forçar a barra para que algo nasça, cresça, se desenvolva no tempo que esperamos, da forma que esperamos; exigir que tenha uma forma, uma cor, um aroma; arrancar os defeitos; manipular as curvas do amor, é colocar agrotóxico, é modificar a essência.

Plante, mas tire os olhos da terra; ame, mas serene o coração.

Ame como quem planta, como quem semeia com as mãos, como quem sabe respeitar as estações, as terras (férteis e inférteis), os períodos de seca e de abundância, as sementes que germinam e as que morrem. Ame como quem planta com poucas ferramentas, mas com muito intento - relaxado, semeando amor, mas sem saber bem de onde virão os frutos, que árvores vingarão. Porque amores novos (e velhos também) precisam de uma dose de carinho e cuidado, mas também de outra grande porção de distração e relaxamento. Quando você fecha os olhos é que nascem as mudas.

O que é orgânico leva um tempo e uma vontade própria. Deixe que venha ou não venha. Deixe que seja a verdade. Se vier, vai ser para nutrir a alma. Se não vier, é porque não seria bom alimento.

Há sentimentos que não crescem porque não têm energia por dentro.

Respeite os ciclos das sementes, das pessoas e dos corações.

Que o amor seja orgânico e não geneticamente modificado!

'Como assim você se apaixonou por mim?!' - carta de uma alma líquida

Que facilidade e vulnerabilidade a sua de ir abrindo assim o coração! Que fraqueza é essa em me mostrar os olhos vermelhos de choro e dizer que se envolveu?!

Meu bem, quantos anos você tem? Em que mundo vive? Em que tempo parou?

Que coração mole é esse? Que alma entregue é essa? E que conceitos antigos?!

Você não acredita em amor livre?

Como assim você foi se apaixonar por mim?

A gente transou muitas vezes movidos pelo tesão. Foi tudo tão intenso porque a vida é para aproveitar o momento. Eu só disse que te amo olhando nos olhos porque eu gosto de exercer a minha liberdade de expressão.

E você construiu um mundo em cima disso?

Ah, essas suas expectativas, você tem que olhar bem pra elas e tratá-las. Não fazem bem...

Não me leve a mal, você é sim uma pessoa especial para mim, mas agora eu não tenho energia e nem tempo, (tenho que ir ali ver se a minha técnica funciona bem com outra mulher. Tenho que ir ali massagear o meu ego, tenho que fazer sucesso, ficar por cima, tenho que começar do zero...).

Desculpe, não dá tempo de conversar sobre temas essenciais com você. Tenho um mundo para conquistar. Tenho uma carreira para cuidar, tenho coisas importantes para me ocupar.

Não dá tempo de te ouvir, mas você pode vir aqui às vezes, a casa é sua! E o carinho continua. Somos amigos coloridos. Só não gosto da sua TPM, é bom a gente saber... E você vai estar sempre no meu coração, como uma dessas histórias especiais que ficam na memória.

Não chore assim não! Eu não sabia que você era assim tão sensível, nunca foi a minha intenção te fazer sofrer. Se eu insisti tanto para ficar com você foi porque o universo conspirou (e você ficou dando uma de difícil e fechada e virou um desafio). Agora eu já peguei o que eu precisava, e eu pensei que você fosse uma mulher mais forte, livre, moderna... Dona de si!

E agora está assim, na palma da minha mão. Como pode?

Me desculpe, mas eu lavo minhas mãos. Não posso me responsabilizar por ter te conquistado.

A dor é sua.

Fica bem!

Do seu querido Vampiro de Energia.

Eu já não miro as estrelas. Meu alvo na vida está logo ali na esquina.

Tudo o que é grande já não me fascina, todo o esforço que me faz mudar toda o meu entorno e a minha rotina não me ativa por dentro.

Não sei se é velhice de alma, canseira dos passos, mas meus olhos já não se deslumbram com as conquistas homéricas, os amores arrebatadores, as histórias grandiloquentes.

Só de pensar em querer conquistar o que não está ao alcance fácil e genuíno das minhas mãos, dos meus pés e da minha alma simples, eu me canso, eu desisto mesmo antes do início. Porque eu quero o que me cabe e, mais importante, onde eu caibo sem ter que ser mais nem menos, sem ter que estufar esse meu peito franzino.

Só de pensar em me munir de ferramentas, atributos, armas de ataque pra sair à luta e conquistar recompensas grandiosas, corações dificílimos, amizades poderosas, posições profissionais-pessoais-sociais importantíssimas, já me canso e não me arrisco.

Ter um alvo lá nas nuvens, atirar nas estrelas para atingir o Monte Everest, não, isso já não me apetece. Meu alvo é aqui pertinho, está logo ali na esquina, deve se parecer comigo, é algo singelo e tranquilo.

Quero uma conversa boba, um ombro amigo, um amor pela vida mais do que pelos prêmios do mundo. Quero um pijama velho, uma janta simples, um pão com ovo bem feitinho, um chuveiro quente e um travesseiro com sonhos bonitos.

Glória pra mim é ver o manjericão virando arbusto no canteiro, é pagar as contas do mês, é ter tempo para escrever um poema inteiro.

Vida pra mim é a trégua, é o porto seguro onde minha alma pousa serena. Amor pra mim é o respiro de alívio, é uma companhia com menos exigências e mais carinho.

Eu já não me debato para conquistar algo mais alto, não quero nem o castelo nem o príncipe encantado. Eu já não me puno por sair de perto quando me sinto insegura, eu já não me saboto e me engano achando que eu tenho que cumprir tantos planos para me sentir mais satisfeita comigo mesma.

Está tão perto a minha riqueza. É o que cresce e se ajusta sem tanto esforço assim; tudo o que tem cheiro de lar, onde eu posso entrar e ficar à vontade. Onde eu não preciso mudar minha essência para poder me encaixar e merecer fazer parte. Porque o que eu sou já é o bastante.

E por isso eu posso ficar em paz e usar minhas energias para investir mais em crescer como ser humano.

Quando a gente tem medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade

Minha pele é fina, tanta coisa me passa, transpassa, entra, atravessa!

É fácil que o mundo externo encontre contexto nesse meu caos sensível de dentro.

Não é à toa que sou a primeira pessoa a dar um grito no cinema num daqueles filmes de suspense. Às vezes, as dores do mundo parecem passar diretamente dos olhos para o meu coração. Tem dias que as notícias do mundo me atingem como uma punhalada no peito: quanta crueldade, quanta competição, quanta coisa ruim acontecendo. Ai meu Deus, eu não aguento!

Minha pele é fina, me arrepia a energia que chega, mesmo antes de virar pensamento concreto. Será isso sexto sentido? Será essa pele invisível que vive acima da nossa epiderme? Essa coisa de perceber coisas antes de cheirar, de olhar, de escutar... de tocar. Deve ser bruxaria...

Essa pele fina que eu não sabia lidar, palavras facilmente podiam me machucar, assim como um olhar punitivo, um sorriso indefinido, antes de eu entender o porquê, antes de eu saber me proteger, eu me inundava de emoções.

Eu tinha medo de engrossar o couro e perder a sensibilidade.

Eu temia criar em mim uma capa protetora e viver anestesiada.

Eu tinha medo de que não estar exposta me faria estar fria, cega, caminhando na superfície das experiências.

Eu tinha medo de me prevenir de tudo e assim, esquecer como sentir a vida in natura.

Mas hoje, mesmo com essa pele ainda fina, eu penso diferente. Tento não ser nem 8 nem 80. Eu ando aprendendo:

Posso ser a sensibilidade com a aura intacta. Posso ser a flexibilidade sem perder a estrutura. Posso entender sentimentos e compartilhar deles sem ter que ficar aos cacos.

Eu posso observar as minhas emoções e as dos outros sem imediatamente me confundir com elas. Do baile de carnaval, eu posso sair um pouco da dança e assistir da arquibancada, a escolha de entrar ou não na avenida tem que ser minha.

Às vezes eu danço uma marchinha, aprendendo, passando bem. Às vezes eu entro debaixo de uma chuva para ver o que é que vem.

O que sempre fica de tudo – rasteiras, ou leves brisas – sou eu sem tantos pesos. O que fica sou eu prestando atenção nos ensinamentos de um evento que foi denso para não ter que fazer aula de recuperação depois. Sou eu observando, equilibrando razão e emoções.

Demorou, mas tenho aprendido que é melhor colocar energia e me dedicar de início, investigar as razões do que sinto, me preservar do que não é parte de mim.

Já que é na pele que eu aprendo e apreendo a vida, já que eu só sei evoluir se eu entender e absorver o entorno, já que eu sou, ao mesmo tempo, a cobaia e o cientista na minha vida, que eu preste muita atenção em tudo, que eu pare para processar momentos e acontecimentos, que eu seja uma aluna atenta.

Há quem fica decorando as lições dos livros antigos e dos manuais de instruções, há quem passe de fase assim, por decoreba ou por confiança no que já existia antes.

Eu não, só acredito no que me entra, no que me fica, na experiência da minha pele. Ou eu sinto ou eu não sinto.

Se está certo ou errado esse meu mecanismo, quem é que pode dizer?

Pelo menos (e pelo mais também!) essa minha pele fina já não é esponja, aprendeu a ser filtro!

Não use palavras para convencer. Use palavras para transparecer e transcender!

Não são discursos que me convencem. Não são falas bem embasadas e estruturadas, cheias de teorias e muitas vezes sem tanta prática de coração e alma, não é isso que vai entrar em mim e fazer sentido.

Eu não quero parar para ouvir discussões, argumentos, discursos. Eu não quero ficar perdida, confusa, imersa numa cachoeira de palavras incisivas e vazias tentando preencher a minha dor, o meu momento confuso, a minha dúvida.

Eu não quero participar dessas conversas cheias de egos, cheias de vampirismos energéticos e politicagens, que encontram na minha fragilidade alimento.

Antes eu prefiro o silêncio. Eu prefiro o respiro, a ausência de companhia, a melodia do vento. Eu prefiro compartilhar a vibração sem verbete, sem nome, sem explicação. Só a sensação.

Eu não acredito mais no que sai das bocas ávidas e viciadas, amparadas em verdades de fora, que precisam se enterrar em palavras para não sentir algo além, mais profundo. Antes eu acredito no olhar que mergulhou, que flexibilizou, desestruturou, questionou tudo o que vem pronto.

Percebe os olhos falando mais que as falas? Os ‘não atos’ significando mais que os atos? O respeito às diferenças fazendo mais sentido do que o radicalismo das ideias?

Às vezes o sentimento mais genuíno se expressa em pequenos gestos, quase que involuntários, ou na delicadeza do silêncio que surge naturalmente quando dois ou mais seres se sentem humanamente confortáveis. Às vezes o que faz sentido na vida vem sem tanto esforço, sem tanto entendimento, sem nenhum convencimento; surge, agrada, encaixa e pronto.

Eu não acredito mais nos baralhos e barulhos dos meus pensamentos, nos jogos que eles encontram nessas palavras de cascas bonitas e conteúdo duvidoso.

Eu estouro, como bolha de sabão, cada um desses verbos, advérbios, adjetivos e nomes, para ver o que há realmente nessas caixinhas de presente. E eu tento, ainda que nessa fase de aprendiz, absorver para dentro desse peito o que realmente tem tutano, recheio, miolo, âmago.

Sentindo essas forças que vibram no corpo antes do pensamento, a energia que acalma e fortalece, o que toca essa pele fina de forma transparente; é isso o que busco, é isso que me aquece.

Que o que me persuada, convença, transforme, seja a luz boa, a fruta em semente, a criatividade das ideias frescas, a verdade sem entendimento.

Feliz dia das mães pra nós que cuidamos de gatos, cachorros, adultos, idosos, filhos dos outros e os nossos.

Feliz dia das mães pra nós que ajudamos, amparamos, educamos o marido, o amigo, o vizinho. Que temos colo e ouvido, palavras sábias e um copo de vinho, que damos suporte, atenção, carinho pra qualquer ser vivo necessitado que cruzar o nosso caminho.

Feliz dia das mães pra nós homens, mulheres, crianças, que temos sentimentos reais e incondicionais, que compartilhamos boas energias, que cuidamos da casa, das plantas, da comida, que sofremos com as despedidas, que aceitamos as partidas e que pensamos que cada pessoa nesse mundo, por mais querida e próxima que seja, deve seguir a própria vida.

Feliz dia das mães pra esse nosso instinto que cuida do mundo como um filho bem-vindo.

Voltei! Vim aqui para testar esse meu novo eu nessa velha história.

Voltei!

Aqui estou eu de novo: na sua casa, no seu entorno, na sua vida.

Você que não me deixou ir e nem me pediu pra ficar. Você com quem eu construí uma história que se despedaçou tantas vezes até eu desistir de acreditar que juntando os nossos cacos surgiria alguma estrutura harmônica.

Então, eu recolhi os meus próprios cacos e parti. Mas agora eu voltei, e ‘voltar’ não é um verbo muito bom para descrever o que eu estou fazendo aqui. Porque eu não vim buscar uma parte minha que ficou para trás, eu não vim para reviver o que a gente foi, eu não vim por saudades dos nossos momentos – bem na verdade, muitos deles eu não quero reviver nunca mais.

Meu querido, dos meus cacos existências eu não me reconstituí, eu não saí andando e me lamentando pelo que eu perdi, pelo que eu deixei de ser. Eu estou agora refeita sim, reconstruída, reeditada, atualizada na minha melhor e mais moderna versão. Eu me pesquisei, eu me observei, eu te escutei esse tempo todo não apenas com os ouvidos das emoções. Sai da minha própria pele e vi a história de fora, fora de mim, fora de nós, fora dos meus mitos, fora dos meus medos.

Da solidão encontrei minha força e meu amor próprio. Descobri o que eu gosto, o que eu quero, o que eu não quero. Aprendi a falar não, a dizer sim, a pedir, a dar opinião em voz alta, a discordar, a sair andando, a quebrar ciclos de sofrimentos. Aprendi a dar rizada de mim mesma, da gente. Que suor danado essas andanças em mim, quantas peles troquei, quantos dias meditei, quantos corações encontrei. Aprendizado intensivo de vida.

E agora voltei, você me pediu tanto e eu podia ser só orgulho e descrença e continuar no meu caminhar feminino. Mas eu resolvi parar aqui na sua porta, na sua casa, te fazer essa visita que não sei quanto tempo e espaço do meu coração vai durar. Eu voltei pra sentir que verdade vai surgir no nosso olhar.

Vim aqui não porque acredito que você mudou, que a gente vai resgatar um amor. Vim aqui pois eu resolvi testar esse meu novo eu nessa velha história.

Antes eu esperava que você adivinhasse os meus segredos, mas agora eu sou PhD em mim mesma. Antes eu esperava que você me amasse quando eu era dor, agora eu peço colo e cuidado e só fico se assim for. Antes eu esperava que você mudasse, me olhasse, parasse de ser egoísta, agora eu tenho as rédeas da minha própria vida. Antes eu estava sempre aqui pra você, agora eu estou por mim, para ver se eu caibo inteira, para ver se essa mulher madura tem lugar nesse seu pomar. Para ver se você me quer mesmo, essa minha inteireza, ou se queria o que eu era antes – frágil, apaixonada e manipulável.

Vai ser bom, muito bom esse reencontro, esse encontro novinho em folha dos nossos novos eus. Que beleza vai ser se você amar o que eu sou agora (festa nas estrelas!). E que beleza também se você não se adaptar a mim –  eu partirei, então, sem deixar passos, sem dúvidas, sem pensar no que a gente poderia ter sido e não foi.

E assim é. Então, abra a porta, estou aqui tocando a campainha do seu coração! Voltei!

Eu não quero nenhum homem comendo na palma da minha mão

Dia desses uma amiga veio me dizer: não me leve a mal, você é uma mulher evoluída, que busca tanta coisa bonita, mas às vezes deveria agir com mais razão e estratégia, por exemplo com homens, você podia dar um gelo, ser dominadora, ativa, altiva, fria, e fazê-los comer na palma da sua mão.

Eu fiquei pensando: é, eu sei, a gente pode ter esse poder, eu até sei ter se eu quiser, talvez as pessoas precisem dessas encenações para criarem ilusões, para construírem mais uma historinha para encherem as vidas, talvez o ser humano queira suprir o vício de jogos e dramas que todas essas novelas e músicas dor-de-cotovelo implantaram na nossa alma.

Eu podia fazer joguinho, dar uma de fria, controlar minhas emoções, não expressar sentimentos e sensações. Eu podia armar esquemas, traçar planos, não sair do salto, ficar num plano superior. Eu podia me mostrar sempre linda e equilibrada, poderosa e bem resolvida. Eu podia conquistar alguém por tudo isso aí e mais um pouco, por tudo isso que eu sei ser muito bem, mas... não é o que eu realmente sou.

E só de pensar no ‘fria, poderosa e bem resolvida’, só de pensar em não expressar o que eu sinto e expressar o que eu não sinto, só de pensar em medir as mensagens, em ajeitar o cabelo, em veladamente mostrar meu currículo tão bonito de vida, me dá uma preguiça!

Eu que sou a louca, que hoje esqueci a chapinha, que parei de pintar a raiz do cabelo e tive dor de barriga por duas semanas. Eu que ainda choro como criança quando baixa a TPM, eu que às vezes falo mais do que a boca e me empolgo com uma brincadeira a dois, eu que outras vezes sou silêncio absoluto, imersa num universo paralelo desconhecido.

Que preguiça eu tenho de por o salto-alto se eu sei que vou tropeçar (mesmo no salto-alto metafórico), que preguiça eu tenho de ignorar aquilo que me faz acender toda. Que preguiça eu tenho de engolir o choro e a risada, de colocar embaixo no sutiã, do corretivo e das segundas intenções tudo o que eu deveria ter vergonha de mim, ou tudo que poderia ser escondido para que uma missão fosse cumprida com êxito.

Que preguiça só de pensar em querer fazer qualquer coisa ou pessoa comer na palma da minha mão. E quantas chances boas eu perco por não querer jogar o jogo, entrar na dança? Todas aquelas que num futuro próximo trariam insegurança, e frases do tipo: você não gosta de mim, do que eu realmente sou!

Afinal, tudo que se esconde, cedo ou tarde vem à tona.

Eu não quero que ninguém coma na minha mão porque eu não quero me apertar para caber numa ilusão.

Que a gente coma sim, e de mãos dadas, que a gente coma numa mesa, numa varanda, num piquenique, lado a lado, de almas estiradas ao sol e imperfeições à céu aberto. Que a gente coma com as mãos, com as bocas, com os corpos, desde que haja vontade de comer, desde que seja um na mão do outro, um no corpo do outro, um na alma nua do outro.

Pois, pra falar bem a verdade, essa babaquice toda de conquista já não me fascina faz tempo. E quanta gente fugiu ao ver de perto a minha cara lavada de louca, muita gente mesmo! Já estou até acostumada. Mas o tesouro disso tudo é que quem ainda tem vontade de ficar por perto, é quem vale muito, mas muito a pena!