me deixa dançar
sozinha
me deixa falar alto
me deixa ficar
na minha

eu vim aqui só pra ouvir
o som, o samba
mexer o corpo
descompassada

tira a mão
para de perguntar
de onde eu vim
pra onde eu vou
o que eu faço

não quero saber
quanto custou
a sua viagem
para Fernando de Noronha

para de querer me impressionar!
eu não vou segurar
a sua cerveja
enquanto você tira
minha amiga pra dançar
ela também não quer
nada

a gente veio aqui
pra se divertir
It’s a girls night
e eu não sou carne
exposta no seu
mercado barato

não quero te ouvir
que sono!
sai do caminho
me deixa sambar
tira os olhos
aqui é meu território

to aqui pela banda
pela brisa, pela lua
pela rua, pelo mar
sai!
eu vim aqui só pra dançar

te impressionar
é a ultima coisa
que quero fazer na vida

sai pra lá!

eu não vou ficar sempre aqui na esquina,
plantando batata doce, 
baroa, mandioca, 
manjericão, manjerona.
Eu não vou ficar à toa
nesse sinal semi-fechado, amarelado
como o meu semi-sorriso.
Tomando cuidado, falando aos sussurros
com a sua mão.Não.
Pescando lambari
e vendo o tempo passar
cozinhando o coração devagar
enquanto você segue a risca
sua rotina de seguir a trilha
e preservar as vísceras
que poderão estar apodrecidas
quando finalmente você decidir
vir me encontra qui
nessa velha esquina

E veio a mão minar-me a face.
desenterrar-me no éden,
descobrir-me entrededos e edredons
Macular-me o corpo com bênçãos.
Um desconhecido abrigo
de estalactites cintilantes
dentro da íris a fitar-me.
Nos transfiguramos em seres alados
vinculados pela liberdade
encontrada e reconhecida
numa linha torta da vida
esculpida na palma
dessa sua mão que me mima e mina.
O que nutre a carne
não se desfaz na partida.
Quedo serenamente solitária
na verde varanda primaveril,
redonda e risonha,
cheia até as pontas
bem nutrida até
as mais recônditas tripas.
O terrestre paraíso em mim
anil

passou…
tanta coisa
passou
passou o trem, passou o tempo
o vento levou
me transpassou
atravessou
rápido, raio
passou em cheio
passou em torno
sopro de soslaio
passou, entrou, transformou
saiu
prosseguiu
voou
me deixou a ver navios
de um tempo esfarelado
pelas traças extintas
passou o arrepio
passou o turbilhão
passou o que ficou em mim
à 7 palmos no chão
esfacelado
meu coração
passou

Foram-se os anéis. Ficaram-me os dedos
De uma vontade de amar faminta
Pousando em pedras hermeticamente preciosas
Quebrei meus olhos de ilusão e vidro
Fiquei eu desencasulada, recolorida, nova
A estranhar minhas próprias asas
Ensejando e fazendo pacto de vida
Com a imensidão dos dias
Dos pousos apressados em busca de chão
Me libertei de minha própria escravidão
Na coragem de flutuar no desconhecido
Solta num vento que não ouso nomear Deus
Sou massa mole, aberta porém cuidadosa
Agora quero me deixar ser esculpida
pelo tato rudimentar da vida

Venha me falar de flores
porque meu ouvido não é pinico
Não me despeje todas as suas dores
achando que mulher é terra de acolhida
Pode me contar uma piada boba
uma frase picante, um sussurro ao pé do ouvido
Pode chegar desprevenido
Mas não vomite todos os seus líquidos inflamados
nos meu buracos
Amar não é desarrear a alma num outro ser
Não é aliviar o estresse de macho
nas minhas vísceras
Não é entrar sem pedir licença, sem oferenda
nos meus templos sagrados
Não, aqui não entra
quem não vem para me falar de flores
e regar com amor
as sementes que carinhosamente
eu esparramo em meus vãos
Venha só se for para acender
as minhas primaveras
E então te cobrirei de glórias