Desapego

É preciso tão pouco:

o que quero encontrar está quase no desexistir desse mundo.

é uma negação

é uma subtração

é um desaquecimento do pulsar

é um descaminhar do trilho.

Estou desaprendendo a agregar

como um cortar

mas não para lapidar a forma

e nem para limpar as cargas.

Não é para organizar melhor que me podo.

é um cavoucar dentro da semente

é um contato com a camada que germina a vida

e que se descoberta de tudo e tocada com a ponta de um dedo

pode esvaecer.

Já dizia a lei da gravidade:

a leveza não cabe nesse mundo.

O lirismo meu

Não quero o lirismo pós-doutorado,

cinquentão,

do fim do dia,

do fim do ano,

do fim da vida.

Não quero o lirismo suspiro de alívio de uma brecha que se abriu na vida e soltou um ar morno e cansado de um velho tufão.

O lirismo que não existiu porque não era importante, porque sofreu bullying e se encantuou.

E aceitou.

Não quero o lirismo que não é forte o bastante para criar espaços apesar de… tudo.

O lirismo frio,

de dicionário,

de bocejos sem significados,

nascido de fórceps,

criado na proveta.

Quero o lirismo paixão orgânica!

Que muda os ritmos no antes, no durante e no depois.

Que invade as mentes, desconserta as vidas,

que inquieta

pela beleza ou pela feiura.

Não quero o lirismo em algum intervalo de vida.

Quero a vida em algum intervalo de lirismo.

O Lar

O lar
é um prato raso com letrinhas de macarrão separadas da sopa para eu brincar de criar palavras (e irromper a precoce necessidade de ser poeta)
são os galhos do velho pé de tamarindo brotando flores de primas (e irmã) e protegendo todas do monstro do fim da infância (que a gente profeticamente chamava de ‘acabô’)
é o cheiro doce dos tacos de madeira recém encerados na grande sala da casa da avó
e também o cheiro azedo da pequena sala cheia de tios dormindo depois do almoço de natal
é o silêncio do avô dormindo atrás do jornal aberto
é Maria cantando a música da menina feia de saia amarrada na cintura

O lar
é uma viagem de ônibus de 3 dias para Buenos Aires
é uma cama de grãos verdes de café
são tantos olhares (mas só aqueles que souberam mutuamente mergulhar)
é um semântico reencontro depois de 12 anos
é o primeiro encontro
são todos os primeiros encontros
é uma rosa roubada amanhecida no quintal

O lar
são melancólicos olhos verdes detrás dos óculos
e barbas escuras e depois brancas sempre atrás de livros
É a descoberta de uma cachorrinha de rua na calçada
e de um gato peludo na fronha do travesseiro
são crianças nascendo na família

é um muro fácil de ser pulado, dando acesso ao deliciosamente proibido
é um ônibus errado, são trilhas de 2 horas e passeios de barco nas ondas calmas do tsunami
são vinhos, castelos, óperas, trens, bicicletas, quatro pés
é um chico buarque
é uma caixa cheia de cerveja no final da festa
é uma rave na kitnet
e uma terra do nunca onde mora o sol
é uma banda inventando valsas
é um sol nascendo da lagoa
e do outro lado do mundo se pondo no mar

O lar é uma mochila
um avião
um mar
uma concha na areia
sandalhas
um email
uma carta
uma mensagem
uma madrugada
um vestido
o seu cheiro
uma cerveja no copo americano
um pão com manteiga
um papel e uma caneta

Não tenho condições de narrar todos os meus bens
Pela amplitude! O meu lar é um labirinto sem fim
e eu sou tão rica que já não me encontro mais nos quartos temáticos de minhas mansões.
e tenho tantos herdeiros, todos os que compartilham dessas lembranças, e os que as escutam ou as lêem…
também os que têm outras tantas lembranças em que minha pessoa mora, isso também são meus alqueires
e quanto mais herdeiros tenho, mais cresce o meu legado, mais aumenta o meu lar

Maria e Ana

Maria tem marido, casa e religião
Ana, uma mochila, ideias e  andanças
Maria segue a trilha, tem herança e tradição
Ana, abre trilhas, cria mundos e avança
Maria tem amantes, psiquiatras e sapatos
Ana, livros, sorrisos e matos
 
Maria é poderosa, vaidosa e completa
Ana, criativa, sonhadora e inteira
Maria tem seguros, rotinas e faz dieta
Ana tem as manhãs para ficar de bobeira
 
Maria toma pilula, vai de carro à reunião
Ana, pés descalços, tece o tempo, cria acasos
As duas têm motivos de sobra para não dar satisfação
vão seguindo o ritmo, cada qual no seu compasso
 
Maria por dentro vai ficando velha, mas por fora não
Ana, por fora parece velha, mas por dentro é uma criança
As duas têm motivos de sobra para não dar satisfação
Vão seguindo o ritmo, cada qual na sua dança
 
Maria tem dinheiro para mais de uma geração
Ana, não tem nada, só o mundo na palma da mão

(retalhos)

1. Não faça terapia. Faça poesia.

2. Cego não é quem não vê. Cego é quem não lê.

3. Tirei o corpo fora. Mas o coração ficou atrasado.

4. O amor não é eterno. Mas as louças sujas são.

5. Quando você é você mesmo qualquer porto que chega é seguro.

6. Amor-maduro vivido e perdido é luto. Amor-muda não vivido e perdido é aborto.

7. A poesia é uma linguiça de pele pra dentro.

8. Tem um pombo no meu estômago.

9. Psiquiatras são cirurgiões plásticos que tentam despelar máscaras.

10. Quem é muito curado em vida é porque varreu verdades para debaixo da pele e trancou com chave.

11. Fazer análise é trocar uma roupa velha por uma menos apertada.

12. Fazer poesia é andar pelado.

13. O poeta quebra nomes como nozes, só usa o de dentro.

14. A vida é um sussurro entre parênteses.

15. De tanto transver, um dia não abri mais os olhos pro lado de cá.

16. Quem tem alma de Tieta reprimida vira Macabéa.

17. De tanto regurgitar palavras virei do avesso.