como quem corre fugindo do predador e se salva, 
sente o próprio excesso com o coração na garganta, 
como quem inspira o ar frio do topo da montanha, 
como quem escala com as próprias mãos e pés a montanha, 
e conhece a textura do solo, 
como quem gosta da subida, da descida e do topo, 
como quem toca a neve e pisa em brasas, por escolha, por gosto, 
como quem mata para comer, 
e se entorpece com o cheiro de sangue
e com a vontade da própria saliva, 
como quem enche-se de saliva ao admirar o leque das possibilidades, 
como quem provoca o proibido, cutuca o destino, 
oferece-se nu para a fome do mundo, 
como quem acampa nos corações baldios e espera que chova, 
como quem inventa brincadeiras com as pedras no caminho, 
como quem se arrepia com a falta de arrepio dos olhares, 
como quem sempre se assusta com os voos de avião, 
com as agulhas e os filmes de terror, 
não se acostuma, 
como o vício por adrenalina nas vísceras, 
como um jardim de frios na barriga cultivado em cada esquina, 
como uma energia em movimento correndo desvairada em minhas veias.

como quem dá risada das quedas, porque sabe que os voos sempre valem a pena. 
como quem não teme e não dramatiza as consequências porque já destruiu todos os castelos e percebeu que nada é tão grande assim. 
como quem foi além e viu que os medos são monstros de pensamento, a vida se abre para quem se atreve.
como quem vive pela primeira vez sempre, 
como quem é veterano em ser amador.

como quem se assusta, se surpreende, se desestabiliza, se diverte, se apaixona cotidianamente.