infértil

ele chegou e não tinha mais leite e nem teta e nem colo
tinha um buraco, olhos inchados e falta de abraços

ele chegou nos tempos de seca
e mesmo assim, sem querer saber de mim, quis arrancar meus cactos

ele chegou mal acostumado, querendo cachoeiras
querendo encher a alma, o corpo, a mala

ele chegou e me viu nua, quieta, 
desnutrida, enlouquecida
encantoada

ele chegou em busca de colheitas
sem vontade de plantar, de cuidar, de esperar
não respeitou os ciclos dessas minhas terras
não previu a beleza das próximas estações

ele me encontrou infértil
e então partiu sem olhar para trás
como quem tivesse feito a viagem errada

e eu estéril de expectativas
me ri
como quem há anos
já se cultiva com as próprias mãos