Deito na grama como quem se ajeita num ninho, de asas abertas, corpo entregue e pensamentos vãos. Descanso a cabeça no colo do mundo, na mãe úmida e única, que me deixa ser parte, silenciar, olhar serena, sem medos. Recebo o amor gratuito do solo e vou liberando as cargas do meu dentro para dentro do mundo e eu fico me sentindo inteira, me afundando no cheiro do ventre fresco, sendo um grão da terra, imersa, num milésimo do tempo. O verde é uma incubadora do que em mim é ser, antes do querer, antes de seguir os passos do pensamento. Me deito aqui, aqui eu tenho sempre mãos para me fundir, aqui eu caibo, me espalho, chovo, me lavo, me acolho. aqui eu me despossuo, aqui eu me deixo, meus átomos são dessa terra, o amor no meu peito é dessa terra, as dores todas em mim são adubos aqui, meus sonhos aqui dormem e também as minhas misérias, aqui sou matéria-prima e não conceito. Enquanto houver sol, enquanto houver chão, eu me deito, eu me aceito, eu me reconheço como grão.