Estraninho

Já não sei mais em que ruas ando
Desconheço esses pés que flutuam

Já não sei mais por onde voo
E onde me habito:
Cabeça, coração ou umbigo?

Já não sei mais onde
Pousam os pássaros
Onde eu me enraízo:
Mar, cama ou moinho?

Da janela vejo
Sobreposições de sentidos

Já não lembro mais
Quais as línguas das esquinas
E os pratos e os ritos

Já não me reconheço
Fico
No primeiro minuto
Do despertar

Esfrego os olhos em vão
Todas as paredes são
Estrangeiras

Como se aquele pequeno espaço
Que conecta
Este mundo e o dos sonhos
Continuasse nos meus poros
Infindo

E mesmo sem digerir a superfície
– Na falta de familiaridade
– Na falta do óbvio
Caminho
Tateio
No escuro
Como quem se habituou
A nada se habituar
E vive a inaugurar
Mundos