Pesam

Pesam-me os cabelos no couro, e também os que caíram. Pesam-me os sinais de alerta no rosto e os olhos sempre vivos. A tensão me pesa nos ombros, e nos passos aflitos. Pesam-me os seios quando presos e também quando livres. Pesam os olhos do mundo. Pesam ideias. Pesam as esquinas escondidas. Pesam as horas, o enigma do silêncio, pesam os barulhos, as palavras chulas. Pesam-me as roupas curtas. Pesa a noite escura.Pesa no ar a espontaneidade da risada, do olhar, da fala, da mulher. Pesa ser o que se é. Pesa a falta de medo, e a ousadia em seguir solta, sozinha. Pesam as culpas e também a falta delas. Pesam nos olhos e nos pensamentos. Pesa no mundo. E o mundo pesado se dá o direito de consertar tudo o que pesa. Lavam-se os pesos, asseguram-se as celas.