Ela tinha mania de desenhar pequenas linhas com caneta bic no antebraço. Cada linha representava uma ideia, uma tarefa a ser cumprida, uma coisa mal resolvida, algo que não poderia esquecer. No fim do dia, sempre havia várias linhas azuis em seu braço, ela ia contando e resolvendo as pendências. Mas sempre sobravam 3 ou 4 linhas ali tão vivas e sem sentido. Ela se esquecia de seus significados e achava estranho porque sentia ainda tão vivos os brilhos das ideias perdidas. Sentia bem no coração o peso da importância delas. Mas eram linhas sem nomes, sem funções, sem corpo. Por mais que ela forçasse a memória, aquelas linhas não voltavam a ser o que haviam sido no pensamento. E ela sentia um pouco de desânimo, mas com os olhos já acostumados, apagava as linhas no banho. E fingia que se esquecia delas pra sempre. Assim como também fazia com os poemas perdidos, com as intuições contidas e com os amores não vividos.