Gosto de textos e pessoas porosas
Que dançam nos nossos pensamentos
Que piscam – uma hora acendem, outra hora silenciam
Que guardam espaços para serem invadidos
Pela imaginação
De quem os aprecia
Que vêm em intervalos -
São e deixam ser
Como ler um texto, como amar uma pessoa feito muro?
Compactos, quadrados, certos, cheios demais
Que querem te dizer tudo, e abstrair a sua participação
Querem te empurrar goela abaixo
As ideias prontas
Sem graça, sem ritmo, sem balanço, sem respiro
Como uma pílula enorme que trava na garganta -
Não cumpre o seu propósito.
Os espaços em branco são tão importantes quanto as palavras
O alívio é tão importante quanto o derramamento
A ausência é tão importante quanto a presença.
Gosto de textos e de pessoas que chegam e partem
Que se constroem de mansinho
Que se oferecem, mas não exigem
Que sabem conquistar
E sabem fazer a pipa ganhar voo, devagar
Hora dando corda, hora deixando o vento levar
Ou que dão um tapa e um assopro
Porque mesmo quando querem puxar o tapete,
Ou desvendar as cegueiras aparentes
Sabem fazer em câmera lenta
Que toda rebeldia precisa de delicadeza
Para se fazer notar nos olhos alheios
Assim como o amor e a poesia