Escrevo torto por linhas certas

Só eu me acho
nesses cadernos, nos pedaços de papel, nos documentos salvos ao léu no desktop, nas palavras escritas com letra de médico, vezes pulando linhas, vezes deixando símbolos, asteriscos que querem emendar uma ideia que foi parar na vertical desse papel cheio de escritos tortos em linhas certas. Não obedeço as linhas, não obedeço a direção, não respeito as margens. Derramar-se faz um estrago no papel. De toda forma sou assim, uma bagunça, só eu me acho, das linhas à gaveta de calcinhas. Do quarto revirado ao confuso coração. É que só me acho quando me reviro. Penso que devem existir joias perdidas em algum bolso fundo desse corpo, dessa alma. Quem sabe virando de ponta cabeça, sacudindo, vendo o mundo de um outro ângulo, eu encontre as joias perdidas. Nesses dias e cadernos, nessas artes pós-modernas, em que misturo receitas, números de telefones, tarefas do trabalho e poemas.