A minha vida

Não acho triste a solidão
Acho um pouco triste a saudade.
Tristeza leve, sem grito, sem suspiro.
Leve demais
A ponto de esvaziar um coração
Não acho triste a casa vazia, o silêncio, 
o excesso de tempo que sobra 
Tempo que era invadido pelo nosso excesso de nada
em que a gente passava imitando bicho, falando besteira,
povoando os corredores, criando vida no deserto,
ofuscando a estridência do canto dos grilos que agora ouço
incessante dentro de meus ouvidos
Mas eu gosto desse silêncio, gosto da solidão
gosto do tempo que mudou de ritmo
e da minha própria companhia
Respiro suave
como a mãe que chora e sorri vendo o filho ir embora de casa
'missão cumprida
agora a vida é minha!'
agora, tudo aqui é meu, até a sua caneca de cerveja 
vazia
e o cobertor já não muda de lado da cama
permanece me envolvendo
mais do que seus braços faziam
e a TV da sala, nem chia
como é bom não escutar futebol!
Não acho triste o fim
Nem lembro quando foi que deixei de acreditar no eterno
Nem lembro quando foi que desaprendi a me torturar
E de achar que a culpa foi minha
E que a gente se amava e podia ter seguido mais um tempo juntos
Não acho...
Acho que foi assim e ponto
Eu fui tudo que pude, você foi tudo que pôde
E as lágrimas não rolam e eu nem olho para o telefone
Nem para as fotos antigas,
Engavetei sua voz e seu cheiro
Como quem se desprende da roupa que já não serve mais
Sem dor
E bebo em sua caneca com mais gosto do que desgosto
Eu sempre quis ela pra mim:
Sua caneca
E a minha vida