Hoje eu canto o meu descaminho

Quando me olhei nos olhos e me encarei de frente, aberta e sem anestesia, percebi que eu era totalmente inadequada para este mundo, provavelmente eu não sobreviveria. Eu já desconfiava, mas me escondia, aprendi a me camuflar.

Mas quando me encarei de frente com a intenção de me assumir assim mesmo para o mundo, depois do que vi, pensei 'ih, essa aí não vai sobreviver uma semana. Muito frágil, muito lenta, sorri e chora fácil, tem as pernas finas e o pensamento longe, anda cambaleando sem nenhum norte, com o coração cheio de vontades, acredita que pode voar. Nasceu em carne viva, conhece bem a dor e também a alegria'. Quando me encarei e vi que era isso mesmo e que já não poderia andar com pernas de pau, pensei, ou eu aborto de uma vez ou vai assim mesmo, como a estranha assumida neste ninho de iguais. Que eu morra amanhã, massacrada, mas que antes eu viva escancarada e legítima. Hoje em versos eu canto o meu descaminho.