Pássaro urbano

o poema não fala
não pede atenção
não procura nascer 
no meio do caminho
de olhares alheios
o poema não quer convencer
ninguém de nada
não quer dar opinião
não espera
e não cria expectativas
o poema não 
é maquiagem 
para os perfis
de redes sociais
apesar de se esparramar nelas
assim como 
o pássaro urbano
que cresce fora do habitat
respira puído
primitivo e antiquado
aliviado de poder existir
mas com o coração
cheio de verdes
o poema não fala
a língua das crônicas
dos computadores
dos compartilhamentos
o poema não quer ser
espertinho
moderninho
tecnológico
rápido
viral...
mas o é
pássaro urbano
insistente
resistente
adaptável
praga
epidemia libertina
perdida e aliviada
fora de seu contexto
mas respira
moderninho
tecnológico
rápido 
e viral
Fecho os olhos
fico offline
não respondo, não leio, não rolo a tela
para não esquecer
que antes de tudo isso
o poema é apenas terra úmida
ele ainda nasce nessa terra
mas vive nesta outra
realidade paralela