Poros

Há uma crueldade misteriosa nessa paixão.

Há uma obscuridade ofuscada pela luz desta noite.

Há uma rotina entranhada nos poros desses lençóis limpos

Há um esconderijo nesse dilatado incomum de suas pupilas

Há algo nesse seu sorver rapidamente o álcool, nesses nomes gastos e genéricos de mulherzinha que ecoam pelas paredes cansadas de repeti-los.

Há algo nesse perfil, nesse olhar de lado, há algo de ator com roteiro bem decorado, a fantasia aproveitada de alguma cena de filme europeu. Há uma transposição.

Há algo nessa dança em que me soltas como pipa, me observa indo longe longe, ficando pequena no céu, deixa que tudo se estique, se tencione até o ponto do rompimento.

E então me sacas de volta, me afrouxa com as duas mãos.

Há um subterrâneo na sua casa, na sua vida, nos seus pensamentos

E também há nos meus.

Mas estou disposta a ser casa inteira, estou disposta a deixar-me invadir.

De tua casa não sei, só conheço a fachada.