Ficam...

Ficam

esses olhos serenos

que nao sabem mais ver horizontes

essa casa organizada

os poemas encaixotados

os vinhos secos

essa intimidade com o vazio

cuidadoso

manso

essa economia de palavras e tons

quietude

esse corpo cansado de perseguir o não vivido

e essa alma que desconfia do infinito

 

Ficam

essas asas de borboleta manca

esse medo do luto

essa habilidade de varrer

para debaixo do tapete

artigos em decomposição

 

Ficam

essas mãos

respeitosas e distantes

esses calendários 

feitos de segundas-feiras

essas pilhas de papeis

contratos quitados

essa falta de fome

e esse engolir de hóstias

que já não tapam buracos