Janelas tetraplégicas

Para fazer boa poesia

Há de haver nobreza de sentimento

Há de ver a vida com a mais fina empatia

E navegar nas palavras sem medo

E com todo o respeito

Fazer boa poesia

É tentar encontrar metáforas

Que traduzam o olhar perdido do velhinho

Vendedor de pipoca na praça

E encontrar o que há de humano numa pedra

E o que há de pedra num humano

E sorridente entender o erudito

E ao mesmo tempo, o suburbano

Fazer poesia

É uma ousadia

De uma alma desvairada e ampla

É encontrar em si mesmo o sentimento alheio

E cuida-lo como se fosse seu

E fazer análise dele para entende-lo

Mas com o cuidado de não explica-lo demais

A intenção é apenas sê-lo, senti-lo

E traduzi-lo

A poesia é a expressão do meu coração

Dizendo para o seu

'Olha, eu te vejo!'

E traduzi-lo

Mas como?

Perseguindo palavras

Tentando encontrar as chaves

De portas invisíveis e ocultas

Perseguir palavras

Não essas que explicam demasiado

Não essas que vêm prontas:

‘Desenvolvimento’

‘Lista’

‘Ferramenta’

‘funcionalidade’

‘Negócios’

Que palavras perseguir?:

‘Vento’

‘Telepático’

‘Noite’

‘Despetalada’

‘Mãos’

‘Estradas’

‘Janelas’

‘Tetraplégicas’

Trabalho de gerar uma fechadura

E procurar

E testar e testar

Chaves

Todos os dias são

Dias de perseguir

E testar chaves

Às vezes elas se dão pelo som

Às vezes pela imagem

Às vezes as fechaduras são arrombadas

Sem chave mesmo

Às vezes as chaves caem como luvas

Luvas de abrir portas ocultas

Ai de mim

Que sabe que pra fazer boa poesia

Há de ter tanto

Ser tão rico

E acima de tudo rico de humildade

A minha (poesia)

Só sai por pura

teimosia