Somos o que não fomos

Onde vão morar as lembranças esquecidas? Aqueles momentos que nunca foram recordados? Julgados ínfimos. Aquele olhar desprezado. Aquilo que não tocou como poderia. Que tinha força para vendavais e na arrogância do meu olhar cego, não notei um diamante na sola dos meus pés. Onde está? Como é?
Onde vai parar o que passou mais não ficou? Em que cemitérios dormem os amores abortados? Em que estômago de passarinho se esconde aquela semente? Como reencontrar o que ficou marginalizado da memória? Como procurar sem pistas, sem nomes, sem formas?
Mas sei que existem. Momentos vesgos. Desfocados. Nulos. Discriminados
por uma seleção injusta que desconheço as regras.
E por saber (sem conhecer) de suas existências. E por saber o que sou por não ter sido. E o que poderia ter sido e não fui. Sem saber o que é esse não ter sido. Sem conseguir ter um sinal sequer nem na imaginação. Quem seria essa pessoa que fala se tivesse visto o que não viu?
E... no entanto, a voz insiste em me dizer: “somos também o que não fomos.