Depois daquela ponte existe um poema

Despois daquela ponte existe um poema,

E outro no fundo deste rio escuro,

Na flor que desabrocha na seca estrada

Na teimosia da beleza

No sonho quase em extinção nasce um poema

E nasce outro quando se extingue.

 

Nasce um poema na terra do abandono

Na anestesia dos dias, na pele fria

Nasce um poema de plástico e apito

E nasce outro de carne e osso

Quando do ventre seco uma mão macia

Encontra e arranca a vida

 

Nasce um poema de alívio e cansaço

Pós tiro no próprio peito

Nasce um poema de luz no seu sorriso insistente

E um de escuridão no seu impassível desprezo

Poemas nascem nos desamores

Nas paixões, nas faltas, nos nadas

 

Eles nascem desregrados

No furo dos asfalto

Nos olhos do defunto

No solo da lua

E nas pontas das espadas

 

Os poemas são as únicas células mutantes

Os poemas são as minhas únicas companhias

Os poemas me fazem apenas de hospedeira

Um dia me necrosam

No outro me abençoam

Um dia me indicam caminhos

No outro, transformam o mundo num cubo branco

 

Os poemas não querem saber de mim

Às vezes me trazem alento apenas para começar outra experiência

Às vezes me fazem chama para depois me matar de novo

Às vezes me matam para ver mais uma vez a magia do renascimento

 

Os poemas usam até as minhas palavras

O meu restrito vocabulário

As minhas visões de mundo

As minhas distorções

Se alimentam de tudo e de nada

 

Dos meus cacos surgem poemas

E também de cada canto

Não sei explicar mais nada

Não me entendo

Não sei qual é o meu caminho

Não sei qual é o meu sossego

Não sei quem está no espelho

Os poemas me espalham

Como uma areia esfarelada

No campo das possibilidades