A saudade...

A saudade se espalhou como rameira no meu quintal
Matou os tomates, as alfaces e até as minhocas

A saudade deitou na minha cama,
Puxou meu cobertor, adentrou meu travesseiro
E não me deixou dormir

A saudade bugou a internet
Viralizou em todas as páginas, browsers e monitores
Da rede mundial de almas

A saudade grudou no céu da boca,
Costurou as cordas vocais, entupiu os canais linfáticos
Se hospedou como anfitriã

A saudade virou protagonista de novela
Sabe fazer comercial de pasta de dentes
Sabe os resultados do futebol

A saudade baixou em todos os seres
E em todos os olhos que olho
Vejo a sua encarnação

A saudade bafejou na minha nuca
tirou as minhas coisas e me jogou na rua
num sopro de morte, gelou até as pontas dos pés

A saudade encheu de buracos o meu estômago
Atravessou a pele, esfarelou o osso
Entrou no meu copo de vinho
E na fumaça expelida pelos meus pulmões

A saudade se espelhou nas janelas e vitrines
Nos rios, nos pingos d’água
E no meu próprio reflexo

A saudade virou presidente, juiz e deputado
A saudade faz leis, e me manda para a cadeia
E defende a pena de morte

A saudade escreveu mandamentos 
Em cada uma das linhas 
Das minhas impressões digitais