Te perdi de dentro dos meus olhos nas cataratas de tuas intransponíveis íris.
Te abandonei no rochedo de tuas mãos fechadas. Nos densos cadeados de tuas portas.
Nas paisagens semelhantes aos olhares dos caminhantes das ruas.
Te esqueci na roupa de cama lisa e limpa sem cheiro. 
Te deixei nas fotos opacas das lembranças que não tiveram fatos para construir sonhos.
Te perdi preso no chiclete velho entranhado nos poros do asfalto, cuspido por uma boca passiva num dia cotidiano.
Te perdi quando me reconheci intacta no espelho. Quando continuei sabendo quem sou.
Te abandonei nas datas do calendário, nos meses corridos sem feriado e sem rupturas, nas feridas que nunca se abriram, nas lagrimas que nunca escorreram, nos beijos que não foram roubados, no sol que não surgiu, na cura que não veio.
Te perdi no vazio da fome que nunca viu um banquete e por isso seguiu ilesa e cega.
Te esqueci numa paz não atingida.
Te perdi num rascunho de vida que amassei e joguei fora.