Moço Bonito

Como ignorar?

suas mãos me puxando para um sambinha descompassado

O contato direto da sua íris verde na minha, desfocando todo o resto

O cheiro de fumo, vinho e  suor no colarinho rasgado da sua camiseta favorita

O seu pescoço temperado de maresia querendo fazer osmose com minha língua excessivamente úmida

Sua pele homogeneamente marrom

Essa barba descuidada, sem forma, multicolorida

E o cabelo que cresce crespo, nem pra baixo, nem pra cima, mas no arredondado de todas as direções e forma macios emaranhados como um embriagante ninho que seduz mais narizes do que passarinhos e me faz querer perder todo o meu rosto nos seus cheiros e tramas

Como ignorar?

esses chinelos gastos, acompanhantes de todas as suas aventuras diurnas e noturnas que me contam histórias de liberdade, de uma vida solta, leve

e esses lábios grossos que quando desabrocham iluminam a noite com esse sorriso bobo de fechar os olhos por saber que enfeitiça até a orgulhosa lua cheia

Como, mesmo sabendo de tudo, não querer me entremear no seu roteiro?

Como não me entregar de fantoche, mole, leve, desossada, sua

Entregue ao teu balanço da dança e da noite e te deixar me consumar do jeito que você já é perito e sabe que sempre dá certo e sempre é bom e que é infalível

Como poderia deixar que qualquer tipo de medo me jogasse pra fora desse enlaço, como poderia abrir os olhos para ver as raivosas e choronas menininhas que esperaram a semana toda para ter a chance de ser tua essa noite

E você pegou uma mulher para testar até onde, até que tipo de mente seu joguinho alcança

E você escolheu a mulher errada/certa, porque eu conheço todos os seus passos e é feliz e lisonjeada que deixo garotos como você me divertirem essa noite.