Nasci para andar a pé, dormir na rede, cumprir as desvontades dos meus encarrilhados domingos. Nasci para ter empatia com a pulsação do dia, abrir os olhos de manhã antes do galo chiar. Nasci para pintar o corpo de sol e sal, para sentir as vontades despertando e morrendo desgovernadas no jardim de minha pele. Nasci para colher um cesto das frutas que se ofertam nos galhos e não me preocupar o que fazer com elas – come-las ou esquece-las? Nasci para olhar longe, ver a afluência das estrelas pestanejando num céu descortinado. Nasci para entender com a razão do ventre o desabrochar da noite. Nasci para subir num pé de mato, sentir a terra nua no meu corpo descalço, nadar num rio, ninar um gato, ter ouvidos afiados para entender o trinado dos pássaros. Nasci para entrar na veia da vida e para respeitar com amor a morte. Nasci para ser rosa da selva, água viva solta, plantada no vento, criada no tempo, brotada do acaso. Atrevimento fácil de capim cidreira. Nasci para incitar a liberdade da qual fui convidada ao por os pés neste mundo. Pois da vida eu só quero a simples e complexa possibilidade de vive-la.