Quero poesia, mesmo esta costurada às pressas, enquanto se arruma a alça do sutiã que resistiu à fogueira. Quero a poesia grito, menstruada, abstrata, traçada com mãos calejadas mas que ainda dão a vibração do mundo. Que as masculinas máquinas de precisão cirúrgica abram alas, a intuição, as emoções desregradas, a arquitetura caótica, o gozo derramado vão passar. Vão entrar na avenida os anos e as dores, os amores que nos ensinaram, e os que nos suprimiram. Vão passar as visões de mundo, de mulherzinha, de mulherão, de leite coalhado, de choro contido. Vai passar o yin. Vai passar a chuva ácida e prolixa dos verbos represados nos rótulos dos séculos. Vai passar feito um caminhão, a poesia que não abaixa a cabeça, não mede o compasso, não sabe que horas são, não corta as rebarbas, não cata o feijão. A poesia que abre as pernas, escancara a vontade e a paixão de ser apenas beleza, expressão e libertação.