Pelo seu olhar camuflei-me com o sofá. 
Fiquei um apego velho, entulhada na casa, como quadro de vasos e frutas, como flores de plástico. 
Útil e insossa, necessário pão da manhã. 
Ruidosa como o som da TV. 
Presença ausente. Controle remoto. 
Invisível como as coisas que não tocam o coração.
Mas acabou a pilha. O sofá desarmou. O pão mofou. 
O quadro deixou uma moldura brilhante de poeira na parede. 
As imprestáveis flores de plástico foram para o lixo reciclado. 
Aí você acordou. (e poderia continuar dormindo)
A ausência preenche a casa de sustos e sombras. 
Presença grande como o abismo da solidão. 
Mas não adianta abrir a porta da rua, ir até a esquina, ir até o Japão. 
Porque já não se fabrica pilhas desse controle remoto. 
E a nossa cama já não faz nem pizza. 
Adiós!

reprodução quadro Paul Cezanne
http://goo.gl/UqLEh6