Ela estranha seu corpo farto, seu rosto exagerado, os traços brasileiros, tudo grande e misturado. Ela acha engraçado a dança despertando olhares. Ela dá risada na frente do espelho, cabelo bagunçado, sorriso largo, lei da gravidade. Quem é essa mulher impetuosa, desconhecida? Nela que ainda acha que o mundo é um quintal de pular corda, acredita nos gestos de amizade, na gratuidade. Ela ainda tropeça e gagueja, não sabe falar em público, olhar nos olhos. Ela ainda se espanta com o mundo. Ela é uma alma estabanada, criança levada de joelhos ralados. Sabe que é muito pouco quem só vê nela um corpo. Sabe que há tantos desperdícios no mundo, as pessoas olhando e cuidando muito do couro. Quantas brincadeiras não acontecem porque as pessoas se esquecem de abrir a roda e o peito. Quem gosta de brincar não quer saber que mão vai segurar porque para entrar na roda basta dizer sim e o mundo gira. E ela não sabia, mas parece que dançar de alma solta é mais erótico do que tirar a roupa.

(escrito desastradamente numa sexta-feira depois de uma garrafa de vinho)