O excesso que vai para o lixo

escrevo sempre e apenas sobre tudo o que me sobra, sobre tudo o que me fica
minha matéria prima são os restos que ainda brilham na lembrança
escrevo para reviver o que vivi e também para viver o que poderia ter vivido
escrevo por piedade e por não ter coragem de desperdiçar e me desfazer da beleza que um dia passou por mim 
escrevo para não me tornar um baú de tesouros perdido no cemitério de alguma civilização antiga
escrevo para gastar cada centavo desse baú nessa mesma e única vida
Entende o truque?
escrevo para viver duas vezes!
escrevo para sentir duas vezes!
escrevo pela alegria de saber que eu posso confundir o tempo e traçar para mim quantos destinos puder
escrevo porque acredito que a vida é muito curta para ser apenas uma,
o coração é muito amplo para só amar uma vez,
a mente é muito vasta para ignorar as fantasias,
meu corpo é um teatro que não quer abrigar apenas uma personagem
Vivo e escrevo como quem tem fome e por isso come e por isso vê o sabor em quase tudo e se lambuza e repete o prato e pede pela sobremesa e pelo café
escrever é um abusar dos estímulos
escrever é um constante resgatar os excessos que vão para o lixo