Faísca

Entre nós sempre sobra uma faísca, por mais que chova torrentes e vente tufões de descabelar toda a natureza e mudem-se os tempos. É uma faísca de carvão velho, de madeira grossa, uma faísca irrequieta, delicada e com a resistência da célula primordial que tem dentro de si a força e o conhecimento para se transmutar em um ser milagroso. Sua fonte de energia é o que há de fato ou de lembrança, às vezes um meio sorriso, um eco de voz sussurrando no ouvido é o suficiente para alimentá-la por semanas. Ela brilha alegre se lembrando do tempo em que foi fogueira, em que brilhou tanto que deixou memória para algumas gerações e que mesmo velha, mesmo se enterrando no solo da distância, da indiferença e da descrença, ela não deixa de brilhar. A morte é o esgotamento da energia pulsante. E a energia desta faísca, por mais que se consuma, por menos que se alimente, não deixa de pulsar. Entre a gente sempre há uma flor encapsulada em semente esperando para ser fecundada em qualquer descuidoso contato. E por medo, e por não sabermos lidar com isso, seguimos por vias opostas. Deixamos apenas uma faísca para não termos que lidar com a grande morte ou com a grande vida.