Sobre a Dor de Escrever, de Amar e de Criar Vira-Latas

Quando eu era muito pequena, não me lembro o dia e o momento,

me encantei por um animalzinho pulguento de rua,

deve ter sido a primeira vez que eu via um desses.

Então o levei pra casa, brinquei com ele dia e noite

aceitei seus momentos de dores, aceitei seus momentos de extrema alegria,

achava tudo bonito e novo.

Mas quando cresci um pouco ele virou um peso,

me seguia na escola, nos bailes e no banheiro.

Viver com ele grudado cansava e dava medo,

não era aceitável socialmente aquele ser grudado em mim, não poderia dar dinheiro e riscava minha imagem.

Era incompreensível e doce.

Teve um tempo que tentei viver em grupos de pessoas que tinham o mesmo animalzinho atrelado.

Me fechei na massonaria daqueles que se entendem e aceitam a não fuga do que a eles pertencem.

Mas também teve um tempo que eu quis ser mais ousada e dizer para mim mesma que eu tinha escolhas.

Daí tranquei a coisa em um baú antigo, deixei na estrada e fui sem nem olhar pra trás.

Ele não apareceu por um tempo como era de costume, grande e vivo.

Mas vez ou outra, eu me deparava com seus resquícios:

uma foto na carteira, uma palavra vaga na lembrança, um buraco no peito.

Acho que eu era mais bem aceita sem ele e eu estava realmente tentando ocupar um lugar no mundo que não trouxesse dor para os outros.

Mas esse lugar trazia dor para mim mesma,

então cheguei ao ponto de não saber mais o que fazer com minha dor,

pois pela negação eu não encontrei alento.

Foi então que deixei tudo e corri de volta desesperadamente!

Não sabia se iria encontrá-lo, e se sim, não sabia se ele estaria da mesma forma.

Mas eu sabia que iria fazer de tudo para reconquistá-lo

e iria pedir com toda a força de minhas mãos para que ele voltasse intenso,

porque eu era toda entregue.

E ele veio dócil, desconfiado mas dócil.

Eu esperava que no começo ele iria apenas lamber as pontas dos meus dedos

mas ele, guloso, devorou toda a minha mão.

Hoje ainda sinto desconpassos, medos, tristezas e alegrias

mas também sinto um grande alívio.

E aqui estoy jo:

menos digna do que me foi dado cuidar

mas mais inteira e corajosa.