Os 5 sentidos numa mochila

Ele chegava na minha casa de mochila. Quando eu abria a porta era sempre a mesma coisa: ele com um sorrisão no rosto, um violão a tiracolo e uma big mochila, dizendo ‘oi lindaaa!’.

A gente era muito parecido no fato de querer ter tudo do bom e do melhor na vida (e de apreciar isso com todos os sentidos e com verdadeira felicidade). Ele, assim como eu, gostaavaaa de verdade do que é bom. E aí que quando nos encontrávamos era sempre uma noite de festa dos pecados capitais.

Não dava para encontrar com ele mais do que duas vezes por semana. Eu sempre precisava de uns dois ou três dias de intervalo para voltar a ser uma pessoa quase normal: acalmar as risadinhas bobas e altas que me acometiam no meio do trabalho e me faziam tapar a boca rapidamente num gesto besta com a mão, travando a erupção de uma gargalhada vinda da memória recente (a interrupção ríspida originava um calafrio na parte inferior da barriga seguido de um ‘uiii’ mental); dar uma atençãozinha para a casa, que sempre se apresentava cheirosinha, arrumadinha, tomada banho nos nossos inícios de festa, e acabava devastada em todos os recônditos, eu tinha que pelo menos fazê-la habitável novamente, e claro, desentortar os dois pés do sofá que se envergavam (nas últimas vezes já não foi preciso, eles cederam de vez); acalmar os ânimos exaltados e furiosos do fígado, do estomago e de alguns outros órgãos que trabalhavam arduamente noite afora; aliviar o clima das minhas relações interpessoais que, consequentemente, também resultavam um tanto estressadas (o chefe, os colegas de trabalho, a mãe, os amigos, os vizinhos, o síndico, os porteiros, o cara da loja de conveniência do posto de gasolina e o cachorro de rua). Entre outras coisas.

Abusar assim de todos os sentidos em uma única noite exigia um tempo de calmaria.

Era melhor que o saco cheio de tudo fosse esvaziado aos poucos e não estourado de uma só vez. Então, o meu foda-se para o chefe, o fígado e o estomago, os colegas, os amigos e os vizinhos, o síndico e os porteiros, o cara da conveniência e os pés do sofá (a mãe e o cachorro de rua eu deixo de fora!), acontecia em câmera lenta. Como se cada vez que meu querido mochileiro me visitava eu soletrava uma única letra da palavra ‘foda-se’ (F-O-D-A-S-E). Quando chegar no ‘e’ o saco já estaria murcho e tudo já teria ido para os ares.

Mas tudo isso era só depois, eram apenas efeitos colaterais do que havia sido uma noite completa!

Você deve estar se perguntando: o que tinha dentro da mochila?

Ahhhhhhhhhhh…

Isso não vou contar, é segredo! Deixo a cargo de sua imaginação decidir e nomear cada-uma-das-coisinhas-mágicas. Depois você me conta, tá?