O Mundo na Palma de uma Noite

Dançávamos de olhos abertos. Acompanhava seus passos e você os meus, um mundo se punha entre nós. O mundo era um tabuleiro de peças que eu não poderia tocar, mas quis, derrubar todas. Uma por uma. Te acompanhava com os olhos, teus olhos acompanhavam cada um de meus movimentos estratégicos. O jogo  de querer te alcançar no meio, descartando todo o resto, peça por peça. Mais uma dose, e era só você e eu. A taça era de vinho, o líquido era mais denso. Foi uma noite, todo tempo do mundo, Ficou só você e eu. Mais música, mais uma dose, mais peças me chamando pra dançar e te oferecendo mais uma taça. Mais um passo. A lua estava nas minhas mãos e eu não, não ia embora, não esta noite! O tempo se completava, fechava o círculo. As ondas nos jogavam pra longe, a maré subia e eu voltava de braçadas para a mesma posição, alcançava ainda mais perto. A correnteza levava.  Longe. Perto. Longe. Perto. Mas os olhos nunca se perderam. Parou a música. Mais uma dose. Taça de vinho, líquido mais denso, mais vermelho. Cacos de vidro no chão. O mundo na palma de uma noite. O coração saltando no pescoço. A febre alta, a fome de nada, o prateado nos brilhos dos seus olhos. Sorrisos nos olhos, nas bocas, nas peles. Tudo aceso de prata. Ritmo de mover peças, abrindo ondas, criando espaços, você e eu. Todo o resto caiu, cheque mate, dilúvio de estrelas ofuscando as outras cores. Se virasse ouro, se amanhecesse a gente explodia. Mais uma dose, de estrelas. Te alcancei, pés com pés, tudo sorriu mais uma vez. Não precisa dizer nada, eu vi todos os arrepios. Tufão. Abriu-se um círculo nos mares. As águas giravam e respeitavam as nossas auras magnéticas que repeliam todo o resto. Uma noite na palma do mundo. Choviam densas doses vermelhas nos copos. Os vidros se quebravam em cacos estelares. Dois corações parados. Tudo puxando. Tudo girando em nossa volta. Nenhuma força era capaz de tirar meus olhos dos seus. Me pega! Me leva! Não importa que tudo é contra. Isso enfrenta tudo! Sozinho! Vem! Veio a onda gigante, brava! Em sua direção. Veio o vácuo do buraco negro, engolindo tudo, em minha direção. Meus olhos nos seus. Foi por um segundo e o tempo todo se perdeu. Tudo se encheu de peças, o ouro rasgou o prata. Um por um, riscos amarelos de raio lazer rasgando as cenas da nossa história. Empurrei as peças, nadei de braçada contra a correnteza, guardei na bolsa as ultimas estrelas. Corri, corri. Segui seu caminho marcado por cacos vermelhos, recolhi cada um. Mais uma taça. Intacta. Mais uma dose. Dentro. Liga a música, apaga a luz! Ainda não deixa o mundo acabar! É noite aqui dentro! Jogo no ar meu saco de estrelas. Sua cama é uma jangada. O mar desse quarto é manso. Nossos olhos nunca se perderam. Um do outro. Re-prateamos o ouro. Tudo iluminou. Branco, branco, branco. Sem ar. Foi só você e eu.