O Jardim e o Mato

Era uma sorte de beleza no desembrulho de minha janela:

As cores organizadamente plantadas, canteiros diferenciados em flores da mesma raça

Um caminho único e curto de pedras assentadas levava a uma fonte artificial

Três bancos de ferro preto rodeados por arbustos verdes ovalados

Vez ou outra vinha a alegre surpresa voando em forma de beija-flor

Mas ai eu descobria que não era gratuito, havia interesse: um bebedouro de água com açúcar.

Nem a grama era nascida da terra. Fora implantada.

Não dava nem tempo de admirar a força das aleatórias tiriricas,

eram abortadas de pequenas e com raiz. Logo a terra esterilizou de suas sementes.

Tão bonito…era o jardim

 

Entenda: não foi por ingratidão ou por falta de vivacidade no olhar.

Admiro seus esforços, sua inexorável habilidade em se manter lindo, perfeito e tangível.

Mas eu sou do tipo que já explorou matos!

Já me perdi, já me enfiei no coração da coisa, me entreguei ao sem caminho de pedras assentadas.

Saboreei os ruídos selvagens da noite negra, sem forma.

Fiquei de intrusa, de mãos dadas com o perigo, naquilo que era apenas incerto, onde era mais previsível as mortes dolorosas, onde eu me dava como presa, me cedia de isca. (‘Venha me pegar!’).

Porque a sensação do prazer antes da abocanhada final é viciante. O prazer de não saber de onde surgirá o predador e se ele surgirá.

Participar de suas emboscadas. A noite será calmaria ou luta?

Mas antes de toda a dor, antes do nada final, nunca me faltaram curvas e cores incertas, cachoeiras inexploradas, chuvas e sois, abismos, cipós e plantas silvestres nascendo de todos os cantos.

Encontros, muitos encontros.

Os sonhos encontrando tantos labirintos. Os sonhos se alimentam do que os olhos não veem e o corpo todo não entende. E por isso quer.

Tão apaixonante…. era o mato.