O Ciúme

Eu nunca fui uma mulher ciumenta.

Com essa minha mania de tentar-entender-a-posição-e-o-sentimento-do-outro,

eu compreendo a necessidade das pessoas de outros corpos (e almas)

e sinceramente não me doi ter que repartir os corpos (e as almas) dos meus moços.

Acho que sou assim não por pura bondade e superioridade de personalidade não!

É por pura politicagem.

O meu maior medo não é perder alguém, o meu maior medo é ficar presa.

Ficar presa de uma forma possessiva, me adaptar às regras de propriedade.

Então a politicagem é: deixo o outro ser desde que eu seja totalmente minha.

O medo é ficar presa à essas leis.

Como se houvesse uma constituição das pessoas-propriedade.

Está descrito em algum livro os deveres, as obrigações, as punições das pessoas-propriedades

e de seus donos.

(na Bíblia)

Eu deixo o caminho do outro aberto

mas ele não deixa o meu, e eu então me deixo punir.

Tenho pavor! E não é porque sou muito liberal, é porque sou muito natural (tento ser).

Nessa busca de me adaptar a mim mesma e não ao mundo,

eu quero ser livre no sentir e agir.

Às vezes minha liberdade cria um sentimento que me liga fortemente à alguém,

e só assim me prendo.

Até já encontrei moço com o mesmo sentimento-naturalista-de-se-deixar-ser

assim como eu.

Com ele deu até mais vontade de ficar quieta.

O amor na mesma pessoa fica mais interessante quando relaxamos a cabeça das leis da constituição.

Me sinto em casa e me sinto eu mesma, não há regras e punições e por isso não pulo. Amanso.

Mas também cheguei a experimentar uma inversão-que-mexe-com-meu-jeito-natural.

Uma coisa que encontrei em alguns moços encantadores que possuem um hérmetico místerio nos olhos que não deixam revelar a verdadeira alma.

Eu nunca sei se eles são anjos ou demônios,

vampiros ou fadas-madrinhas.

Não consigo desvendar, não consigo agrupar nos esteriótipos de minhas experiências

e por isso não encontro os antídotos, minhas poções não aniquilam esse mal.

Não entendo mesmo testando de perto as línguas, a espessura da saliva, os timbres dos hálitos no decorrer do dia e os tons de branco dos líquidos que se derramam.

Colando minha pupila na dele, só me perco em mil espelhos e nado numa diversidade de  mundos ininteligíveis.

Nesse caso, ao entender que nada entendo, eu só sei que quero mais disso.

Tanto, mas tanto que tenho ciúme.

E cruelmente me comparo com qualquer uma que conseguir tirar dele nem que seja um mínimo sorriso.

Penso que essa senhora tem a chave!

(Por que eu não?)

(Quero morrer!)

Engulo meu ciúme, mas sinto! pulsando em todas as veias.

Só assim.

Sinto ciúme não porque tenho uma pessoa-propriedade que é minha e não quero que ninguém toque ou chegue perto do que me pertence.

Sinto ciúme porque tenho medo de alguém capturar e tirar de perto de mim esses mundos todos que ainda não desvendei.

Podem tirar de mim a casa, o chão!

Mas não me tirem as aventuras-ainda-não-vividas, os mistérios-ainda-não-desvendados!

Então, antes ou na iminência de ser roubada, eu fujo!

Foi a única cura que consegui desenvolver,

acalmar um pouco os sintomas dessa febre,

olhar para outros lados.

Pois a dor de ver senhoras-possuidoras-de-chaves-que-eu-nunca-tive

me cria buracos negros no peito.

Fujo antes que enlouqueça!