Comodismo

Comodismo. Cômodo. Acomodar. Lar. Estar. Deitar. Parar.

Colocar-se confortavelmente num lar.

As palavras têm poder e acontece que ficou na memória e as sirenes se acendiam com o ‘comodismo’. E eu pulava fora, de galho em galho, de cama em cama, de fogo em fogo, de arte em arte. Mas com você…

As palavras têm poder e acomodar significava ter você todas as noites na minha cama, acomodar era o lar, era os azedos das nossas diferenças, era o tempo gasto com tentativas de se armar para vencer uma guerra só porque a gente se apegou aos cheiros.

E nos cafés da manhã com leite e pão com manteiga às 8 e 14, olhava sem gosto e pensava amargo ‘estou engolindo o comodismo’ ‘estou lutando para manter o comodismo’. As palavras têm poder…

E a janela, moldura da imensidão do universo, dava uma amostra grátis das possibilidades de paixões e viagens, e empregos dos sonhos e mulheres e sortes e sexos selvagens e cores de mares caribenhos, e amigos, festas, e livros e filmes e tempos para tudo, para mim! E mais dinheiro e vidas, a loira, a morena, a mulata! E as tantas histórias próximas da palma da mão que seriam grandes e nada nada nada comodistas.

Mas por você eu engolia o comodismo. Eu sonhava com o mundo, mas dormia antes de tomar a decisão (todas as noites). Eu cedia a todas as minhas ideias de fuga (do comodismo)

As palavras têm poder. Um dia de chuva grossa, me dei conta que se eu substituísse a palavra ‘comodismo’ pela palavra ‘amor’ o universo lá fora se invertia e a amostra grátis do universo era o lar.

Ao acessar o mundo pelo amor, todos os cafés da manhã com leite e pão com manteiga eram felizes. Eu posso aceitar o ‘amor’, mas não o ‘comodismo’. Acalmei as sirenes, e elevei a bandeira branca.

Dar uma vida a alguém sempre será maior do que uma vida imaginada.