A risada dos séculos

Não se preocupava em pintar os lábios ou as maçãs do rosto, mas os olhos tinham que ser negros, duas linhas negras, cílios longos, expressão. Olhos castanhos profundos de denúncia e desdenho. Frieza colérica. Olhos semi-cerrados que fitavam tudo como se fosse muito óbvio, sem graça, sem valor. Nada os mobiliza, mas eles mobilizam tudo.

Não havia sorriso no rosto, apenas rancor, um rancor de séculos que carregava toda a opressão feminina. Mas não procurava vingança, pelo menos não a vingança explícita. Não mobilizava-se para convencer massas, fazer parte de grupos, criar revoluções. Já não acreditava em mudanças, corria sangue morno nas veias sem a brasa do idealismo.

Vestia as sandálias altas, pesadas, feitas para esmagar e a arma daquela luta fria, por uma guerra sem nome, sem idealismos, sem palavras e sem companhia era a baixa e manjada sedução.

Os olhos profundos e óbvios, a auto-suficiência, a liberdade de caminhar sem medos antigos de mulher, as sandálias, o valor que vinha das ruas, que vinha do desenquadramento, da repugnância do sistema. E a posição assumida era a única que restava, a de quem não entrega os pontos só porque simplesmente não cabe, mas se cala com a boca. Fala-se com a sandália esmagadora e com os olhos de bruxa, joga-se o jogo sujo e o resultado são várias cusparadas simbólicas.

E ao ver as faces lavadas virarem súditos, sorri internamente a risada dos séculos.